“Lanterna na Proa: Roberto Campos Ano 100”: homenagem para sempre

Escrevo, por ora, minhas últimas palavras sobre uma das maiores honras que já tive em minha curta vida: figurar entre os 62 ensaístas cujos textos compõem o mais recente lançamento da Livraria Resistência Cultural, Lanterna na Proa: Roberto Campos Ano 100. Uma dadivosa oportunidade pela qual muito tenho a agradecer ao meu amigo e editor […]

Escrevo, por ora, minhas últimas palavras sobre uma das maiores honras que já tive em minha curta vida: figurar entre os 62 ensaístas cujos textos compõem o mais recente lançamento da Livraria Resistência Cultural, Lanterna na Proa: Roberto Campos Ano 100. Uma dadivosa oportunidade pela qual muito tenho a agradecer ao meu amigo e editor José Lorêdo Filho e os organizadores – ninguém menos que o grande professor e jurista Ives Gandra Martins e o economista Paulo Rabello de Castro.

Qualquer amontoado de belas palavras seria insuficiente para expressar a dimensão da relevância cultural dessa e de outras iniciativas da editora, em momento de gravíssima carência de referências por parte da nação brasileira. A quadra histórica demanda, como poucas outras, a recordação daqueles que dedicaram seu tempo e suas trajetórias a tentar apontar rumos à complicada nau tupiniquim. Em seu centenário de uma vida marcada por uma peculiaríssima e teimosa lucidez, Roberto de Oliveira Campos sem dúvida merece todos os tributos – mas, mais do que uma reverência superficial, o revisitar de seus pensamentos e lições.

Destinado a driblar as constantes peripécias das autoridades políticas para cumprir o dever do momento – qualquer que fosse, e ele teve muitos, como os de diplomata, travando contato com as grandes lideranças globais, e os de ministro, a enfrentar o monstro persistente da inflação -, Campos dedicou seus dias a combater a cultura estatizante de nossa administração pública. Não fosse pela sua teimosia, dificilmente conseguiria sustentar, como sustentou, as bandeiras que abraçava, subversivas perante Vargas e Juscelinos, Ulysses e Goularts, quase todos os personagens com quem conviveu e eram alérgicos às suas teses.

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Campos realizou uma mescla ímpar entre os comentários mais propícios a ferir o orgulho nacional e, não tão paradoxalmente, o amor à sua terra, sem o que, ao contrário dos “odiadores profissionais” do Bob Fieldsinsistem em apregoar, ele não teria insistido tanto. O Brasil atual, acossado pelo desemprego e os efeitos de uma política intervencionista e irresponsável com os gastos públicos, ainda se debate com as mesmas questões que Campos levantou em sua longa trajetória – sendo a própria Constituição de 88, com seu intervencionismo autoritário, embebido em dirigismo e demagogia, um dos fatores que suscitam essas questões, e alvo do mais notório enfrentamento por parte de Campos.

Tal proeminência e tamanha versatilidade justificam plenamente a oportunidade de um tributo que faça desfilarem aos olhos do leitor as mais diversas facetas do pensador, de tal modo vastas e plurais que tornam difícil qualquer comentário genérico e sintético sobre todas elas. Está ali, em uma primeira parte – na qual se insere o meu modesto ensaio -, o Campos homem, pensador, parlamentar, polemista, o personagem histórico, lido pela perspectiva de todos os tipos de pensadores e figuras que conviveram ou travaram contato, direta ou indiretamente, com os diferentes papeis que assumiu.

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Estão ali, em uma segunda parte, as suas frases épicas e debates inesquecíveis, como o enfrentamento com Luiz Carlos Prestes, destrinchado em ensaio da mestre em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, Agatha Justino. Em uma terceira parte, um desfile de apreciações das contribuições teóricas de Campos em ampla gama de temas como democracia, empreendedorismo, trabalho e desenvolvimento. A grande maioria rigorosamente atual.

Roberto Campos (1917-2001)

É um tanto desnecessário ressaltar a magnitude dos nomes aos quais me somo entre os autores do livro, sendo evidentemente o menos expressivo, e por isso mesmo decerto um dos mais eternamente gratos pela oportunidade de inscrever sua diminuta contribuição em uma homenagem que ficará para a História. Entre ex-presidentes de Banco Central, grandes diplomatas, economistas, juristas, escritores e políticos, temos nomes como Adolfo Sachsida, Alex Catharino, Aristóteles Drummond, Armínio Fraga, Cândido Mendes, Guilherme Afif, Gustavo Franco, Percival Puggina, Roberto Fendt, Ricardo Vélez Rodriguez, Ubiratan Jorge Iorio, Paulo Roberto de Almeida e Rodrigo Constantino, entre tantos outros, com distintas abordagens, estilos e visões, mas em comum, o cuidado com a homenagem e o respeito garantido à dimensão do homenageado.

Meu ensaio versa sobre as relações entre Campos e Castelo Branco e, como não poderia deixar de ser, seus entreveros com Carlos Lacerda – que poderia levar alguns lacerdistas menos informados a questionar nossa presença entre os autores da obra, justificável pela reavaliação mútua que esses dois gigantes fizeram um do outro e pelas qualidades indiscutíveis que ambos apresentaram, em uma visão distanciada do calor das turbulências políticas. Nada, é verdade, que eu já não tenha comentado, e que não conste também do ensaio.

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O título do livro corrige o que talvez tenha sido o maior erro de Roberto Campos: ter chamado seu livro de memórias de A Lanterna na Popa, como se seus ensinos só pudessem iluminar os dramas brasileiros em retrospectiva. A lanterna de Campos ainda permanece, como diz a nova obra, na proa, porque o Brasil segue carente da confiança nos “comos”, nos meios, mais que nos delírios, ilusões amargas que levam à decepção.

Carente, ainda mais, do seu ceticismo em relação a uma cultura de “pensamento mágico” que prega pontificar “direitos” em decretos como recurso automático para torná-los realidade. No ano 100 de Roberto Campos, a que o título faz alusão, nada disso poderia ser mais atual, devido a uma triste verdade: nosso país foi tão teimoso quanto Campos em ignorar os seus alertas.

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