Quem é “Q”? Ou: por que somos tão sensíveis às teorias conspiratórias?

Você sabia que o advogado especial Robert Mueller não está realmente investigando Trump e sua campanha de 2016 por seus possíveis laços com a Rússia, nem tampouco a interferência daquele país nas eleições presidenciais de 2016? Em vez disso, Mueller foi indicado por Trump para investigar Hillary Clinton, Barack Obama e outros importantes democratas, como […]

Você sabia que o advogado especial Robert Mueller não está realmente investigando Trump e sua campanha de 2016 por seus possíveis laços com a Rússia, nem tampouco a interferência daquele país nas eleições presidenciais de 2016?

Em vez disso, Mueller foi indicado por Trump para investigar Hillary Clinton, Barack Obama e outros importantes democratas, como o ex-articulador da campanha de Clinton, John Podesta. Até mesmo o senador John McCain, republicano do Arizona, é alvo da chamada investigação de Mueller.

Por que esses inimigos de Trump são “investigados”? Existem inúmeras acusações.  Alguns sugerem que Clinton e Obama estão em conluio com o presidente russo, Vladimir Putin. Outros sugerem que eles, juntamente com figuras de Hollywood e outros líderes mundiais, são participantes de um círculo mundial de pedofilia.

Você sabia também que o Partido Republicano perdeu a eleição especial do Alabama para o Senado de propósito – como parte de um plano para revelar o uso de máquinas de votação fraudulentas e, em última análise, desmascarar ninguém menos que George Soros?

Bem vindo ao QAnon, às vezes chamado de “a tempestade”. Trata-se de uma teoria da conspiração que varreu as mídias sociais americanas e está começando a entrar no mainstream, desde que os participantes de uma manifestação partidária na Flórida, em 31 de julho, apareceram segurando cartazes e vestindo camisetas estampadas com os dizeres: “Nós somos Q” e “Aonde vamos, vamos todos”.

Mas, afinal, quem é “Q”?  Trata-se de uma pessoa anônima – ou grupo de pessoas – que afirmam estar a par dos segredos do governo. Essas informações, supostamente classificadas, são espalhadas, em forma de “migalhas” por plataformas de internet tradicionais como YouTube, Facebook e Twitter. 

De acordo com The Daily Beast, “Q” começou a postar em fóruns de mensagens anônimos na Internet em outubro de 2017. A pessoa ou pessoas por trás de “Q” afirmam possuir uma autorização de segurança de alto nível e evidências concretas de uma conspiração criminal mundial. “Q” rapidamente atraiu muitas pessoas – o número exato é difícil de saber – ansiosas para consumir suas “migalhas” de informações, ou novos detalhes de uma teia extensa de teorias da conspiração.

Na verdade, é uma mistura de várias teorias da conspiração que geralmente sustentam Trump como um conquistador lutando contra uma miríade de sabotadores antiamericanos que tomaram o governo, a indústria, a mídia e várias outras instituições da vida pública.

Por um tempo, os posts do QAnon eram limitados principalmente a fóruns de mensagens anônimos na Internet. Mas no ano passado, “Q” ganhou milhares de novos crentes e seguidores. Um popular vídeo do YouTube explicando o QAnon acumulou quase 200.000 visualizações, e, de acordo com a NBC News , um aplicativo de telefonia móvel relacionado à teoria da conspiração subiu para perto do topo dos rankings da Apple App Store no início deste ano.

“Q” também conta várias celebridades como seguidores e fãs. Roseanne Barr  freqüentemente twittou sobre QAnon e expressou o desejo de encontrar “Q”. O ex-arremessador do Boston Red Sox, Curt Schilling, também twittou sobre a teoria da conspiração e compartilhou vídeos do QAnon em sua página no Facebook, de acordo com o The Daily Beast. “Q” também está sendo divulgado por algumas das maiores vozes da extrema-direita, incluindo Alex Jones e Sean Hannity.

QAnon pode parecer a primeira vista uma teoria marginal da conspiração da Internet, mas sua explosão de popularidade já levou a vários incidentes no mundo real.

Em abril, um grupo de crentes QAnon foi às ruas em Washington, DC, em apoio ao “Q” e exigindo mais transparência do Departamento de Justiça.

E em junho, um homem dirigindo um veículo blindado e carregando duas armas de fogo fechou uma rodovia perto da Represa Hoover enquanto segurava uma placa que dizia “Libere o relatório do EIG” – o que parecia ser uma referência ao relatório do Escritório do Inspetor-Geral do Departamento de Justiça, que criticava as ações do ex-diretor do FBI James Comey na investigação dos e-mails de Hillary Clinton. “Q” também sugeriu aos seguidores, em várias ocasiões, que Trump possui um  segundo  relatório, não divulgado, do IG que detalharia as atividades criminosas realizadas pelos democratas.

Até Michael Avenatti, advogado que representa a atriz de filmes adultos Stormy Daniels, fez uma aparição em uma série de posts do QAnon, no final de julho, que incluíam imagens de seu prédio de escritórios, seguidas pela imagem de um homem do lado de fora. “Q” mais tarde postou que uma “mensagem” havia sido enviada para Avenatti.

Em um tweet na quarta-feira, Avenatti pareceu responder, escrevendo: “Quanto mais teóricos da conspiração me atacam, mais confiante eu me torno. Isso mostra que eles me veem como uma ameaça significativa a Trump e sua continuação no cargo”.

QAnon não é a primeira teoria da conspiração a dar o salto da Internet para o mundo real. Em dezembro de 2016, um homem disparou um rifle dentro da pizzaria Comet Ping Pong, de Washington, citando a teoria de conspiração “Pizzagate”, que sustentava que o restaurante é o centro de um círculo sexual infantil envolvendo os principais democratas, incluindo Clinton e Podesta.

A pergunta que precisa ser respondida é: por que somos tão sensíveis a essas teorias? Jeffrey Tucker nos dá uma boa pista em seu último artigo:

Nós somos criaturas biologicamente evoluídas, mas nossas mentes ainda estão presas no tempo, com uma “concepção da vida de clã na Idade da Pedra”. Nesta concepção da vida, nada ocorre sem algum plano direcionado. Cada resultado à nossa volta é uma consequência de alguma intenção, e isso inclui resultados em grande escala que devem acontecer porque algo grande e poderoso, por mais secreto que seja, está por trás das cenas, fazendo com que isso aconteça.

Quando as coisas não acontecem, procuramos o culpado, a mão oculta tornando as coisas como estão. Certamente alguma cabala poderosa manipulou o mundo. Nada é aleatório, espontâneo, verdadeiramente descentralizado, acidental ou produto de um processo emergente que ninguém em particular controla. Há um poder manipulador por trás de alguma cortina, em algum lugar. O propósito da teoria da conspiração é encontrá-la e levá-lo e desmascará-lo.

A realidade é algo que poucos estão dispostos a admitir: somos parte de uma ordem emergente infinitamente complexa.

Um recurso à teoria da conspiração representa uma revolta contra a concepção hayekiana de ordem social. Nós apenas não queremos acreditar que o mundo em que vivemos é descontrolado e incontrolável, e tem sido assim desde que deixamos a vida do clã da Idade da Pedra. Uma vez que a ordem social e econômica se estendia além do que poderíamos ver e manipular diretamente, precisávamos de uma visão diferente de por que as coisas são como são. A economia como ciência vem tentando, durante meio milênio, nos dar exatamente esse ponto de vista, mas ainda não conseguiu nos persuadir plenamente.

Existem elementos de casualidade e ordem espontânea mesmo nos sistemas mais controlados. Mas achamos tais explicações insatisfatórias. A teoria da conspiração é muito mais gratificante para o nosso desejo de acreditar que alguém, em algum lugar, deve estar no comando, para o bem ou para o mal.

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