O apoio do PT ao autoritarismo na Nicarágua

Desde o início dos protestos contra a ditadura na Nicarágua do sandinista Daniel Ortega, já houve mais de 400 mortos, centenas de desaparecidos e quase 3 mil feridos. Tamanha repressão reflete o ímpeto do ditador em se manter no poder, a despeito de um país incendiado e de sua desaprovação recorde. Para compreender a instabilidade […]

Desde o início dos protestos contra a ditadura na Nicarágua do sandinista Daniel Ortega, já houve mais de 400 mortos, centenas de desaparecidos e quase 3 mil feridos. Tamanha repressão reflete o ímpeto do ditador em se manter no poder, a despeito de um país incendiado e de sua desaprovação recorde.

Para compreender a instabilidade política da Nicarágua é preciso revisitar o passado daquele país. No início da carreira política, Daniel Ortega destacou-se na Frente Sandinista pela Libertação Nacional (FSLN), um partido socialista, e ajudou a derrubar o totalitário Anastasio Somoza Debayle em 1979. Em seguida, participou da Junta de Governo de Reconstrução Nacional, uma espécie de governo provisório, até as eleições de 1984, quando se elegeu Chefe do Executivo.

Sob seu mandato, atacou a propriedade privada por intermédio de uma reforma agrária, além de ter lançado mão de políticas distributivas. Todavia, com um crescimento econômico pífio, além de inúmeros escândalos com o passar dos anos, sedimentou-se uma desilusão política entre seus apoiadores, motivo pelo qual acabou perdendo a estima do eleitorado, sendo derrotado nas urnas em 1990.

Os anos passaram, mas Ortega continuou sendo um político de destaque naquele país. Tentou retornar ao poder em 1996 e 2001, perdendo as eleições. Todavia, foi bem sucedido em 2007, após ter remodelado o discurso e se alinhado com antigos opositores. Voltou ao poder com apenas 38% dos votos.

Economicamente, o pequeno país da América Central nunca foi exatamente um Oásis da Liberdade, mas as coisas regrediram com a volta de Ortega ao poder, especialmente em relação aos direitos de propriedade.

O início dos protestos contra o governo da Nicarágua se deram em abril, a partir da apresentação de uma proposta de reforma da previdência – tema bastante áspero em qualquer país do mundo. As propostas incluíam aumento na contribuição previdenciária dos trabalhadores e empresários, além de uma redução na previdência dos aposentados. Contudo, a repressão a partir da Juventude Sandinista, espécie de milícia de Ortega, além da Guarda Nacional, incendiou o debate público contra o ditador, que passou a enfrentar protestos de todos os setores da sociedade nicaraguense.

A partir disso, o governo censurou as telecomunicações, ordenando o corte de sinal das emissoras que noticiavam os protestos e a repressão. A revolta com as atitudes do governo foi tamanha que Ortega resolveu cancelar provisoriamente a reforma e se “abrir para dialogar” com a sociedade, a partir de mediação com a Igreja Católica. Além disso, libertaram-se mais de 200 presos torturados pelo regime durante os protestos. Todavia, os protestos não cessaram, pois o episódio serviu de estopim para a deflagração de manifestações para que Ortega deixasse o poder. Havia uma enorme insatisfação com o ditador, observada a partir de acusações frequentes de corrupção, repressão, centralismo e nepotismo. Tudo isso fez com que eclodissem manifestações pedindo pela renúncia deste e convocação de novas eleições continuarem.

A repressão a qualquer apoiador dos protestos contra o governo é tamanha que 12 médicos que socorreram manifestantes feridos em confrontos com a Guarda Nacional foram demitidos de um hospital público. Ademais, organização de Direitos Humanos teve de fechar seus escritórios no país devido às ameaças e pressões de pessoas ligadas a Ortega.

Diversas figuras internacionais pediram pela renúncia deste e antecipação das eleições a fim de estabilizar o país. Entre eles, o próprio irmão de Daniel, Humberto Ortega, e Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos. Além disso, a comunidade internacional movimentou-se no sentido de condenar a postura do governo da Nicarágua, incluindo a ONU e a União Europeia. Parte da esquerda latino-americana também condenou de forma veemente os episódios. Entretanto, as ditaduras Cuba e Venezuela permanecem apoiando Ortega, além do Partido dos Trabalhadores.

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Com efeito, o cenário político da Nicarágua se mostra altamente instável e caótico a partir de um projeto de poder. Em meio a tamanho caos, o PT apoiar Ortega é mais uma evidência que demonstra de forma cabal a veia autoritária do partido.

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