Quando a identidade política substitui a identidade econômica e cultural
Para Marx, indivíduos não formavam uma classe apenas por possuírem renda semelhante ou ocuparem posição parecida no processo produtivo.
O Brasil parece ter produzido, nos últimos anos, um fenômeno curioso: milhões de pessoas deixaram de possuir preferências políticas para passar a possuir identidades políticas. Pessoas começaram a enxergar a si mesmas como integrantes permanentes de comunidades ligadas a símbolos, líderes, narrativas e inimigos comuns em vez de meros apoiadores políticos sazonais.
Isso ajuda a explicar a relativização social recorrente de erros praticados pelo próprio grupo enquanto se condenam a condutas idênticas quando realizadas pelo adversário; indivíduos que abandonam antigas convicções para adequar-se à posição dominante de sua comunidade; militantes que tratam críticas internas como traição.
Talvez exista um instrumento teórico clássico que, embora não pensado para essa realidade, seja capaz de explicar esse fenômeno contemporâneo. E ele vem justamente de Karl Marx, não porque sua teoria econômica tenha triunfado — pelo contrário, não triunfou —, mas pela percepção de haver uma irrefreável tendência de indivíduos subordinarem sua identidade à necessidade psicológica de pertencimento coletivo.
O que Marx entendia por consciência de classe
Para Marx, indivíduos não formavam uma classe apenas por possuírem renda semelhante ou ocuparem posição parecida no processo produtivo. Era necessária a passagem de uma condição objetiva para uma percepção subjetiva compartilhada.
A chamada classe em si representava uma situação material comum, qual seja: ter relativamente o mesmo estado econômico de outras pessoas. Já a classe para si surgiria quando indivíduos passassem a perceber interesses, dificuldades e objetivos históricos comuns.
Nesse momento, deixariam de agir apenas como indivíduos isolados para agir como membros de uma entidade maior. A consciência individual seria progressivamente absorvida por uma consciência coletiva.
A revolução proletária universal não ocorreu como Marx previa, e o capitalismo demonstrou capacidade de adaptação gigantesca a diversas realidades socioeconômicas, se mostrando, tanto no lado da produção quanto da distribuição de bens e serviços na sociedade, um modelo muito superior ao modelo centralizador e burocrático imaginado por Marx, mas a parte da sua análise dessa necessidade de absorção da consciência individual pelo coletivo merece uma releitura moderna.
Da economia para a identidade tribal
O mecanismo descrito por Marx parece ter sobrevivido, mas deslocou-se para outro campo. O que antes era construído a partir da posição econômica hoje parece surgir cada vez mais a partir de identidades políticas e culturais.
No Brasil atual, petistas frequentemente não são apenas eleitores do PT, assim como bolsonaristas muitas vezes não são apenas apoiadores de Bolsonaro. O mesmo ocorre com diversos grupos menores. A adesão deixa de ser mera preferência política e passa a adquirir contornos existenciais.
O sujeito contemporâneo deixa gradualmente de perguntar: “o que penso sobre determinado tema?”; para perguntar: “o que o meu grupo pensa sobre determinado tema?”
Em vez de opiniões produzirem pertencimento, o pertencimento passa a produzir opiniões.
Posições sobre economia, costumes, segurança pública ou política internacional deixam de surgir exclusivamente de reflexão individual e passam a funcionar como sinais de pertencimento. A política deixa de ser apenas um conjunto de ideias sobre o Estado e transforma-se em marcador social, manifestando-se na linguagem, nos símbolos, nos memes, nas referências culturais e até na definição de aliados e inimigos.
A antiga consciência de classe econômica parece então ceder espaço a uma consciência comunitária fundada menos na posição material dos indivíduos e mais na necessidade humana de pertencimento simbólico.
A nova consciência comunitária
Marx imaginava uma solidariedade construída sobre condições materiais objetivas. Hoje, a solidariedade política frequentemente surge por outros fundamentos, como identidade, pertencimento, vínculos afetivos e rejeição ao grupo adversário.
O indivíduo deixa de enxergar a si próprio apenas como alguém que possui opiniões específicas e passa a compreender sua identidade através da comunidade à qual pertence.
A antiga lógica da mobilização coletiva talvez não tenha desaparecido; apenas mudou de forma. O chamado marxista “proletários do mundo, uni-vos” parece ter sido substituído por algo menos econômico e mais tribal: “lulistas do Brasil, uni-vos contra os bolsonaristas”, e vice-versa.
Da economia à cultura e da cultura à política
Essa migração do econômico para o cultural não passou despercebida ao longo do século XX. Em certa medida, diversos autores já perceberam que a previsão clássica de Marx não havia se concretizado da forma imaginada. A revolução proletária não ocorreu nas sociedades capitalistas avançadas e o capitalismo absorveu trabalhadores ao sistema através do crescimento econômico, do consumo e da expansão das classes médias.
Décadas antes de a Escola de Frankfurt aprofundar a análise sobre o papel da cultura na formação da consciência política, Antonio Gramsci já havia percebido que a manutenção de uma ordem social não dependia apenas da economia ou da força estatal. Ela também dependeria da capacidade de produzir consensos morais, intelectuais e culturais.
Posteriormente, autores ligados à Escola de Frankfurt desenvolveriam essa percepção ao sugerir que a disputa política não ocorria apenas no ambiente produtivo, mas também no campo da cultura, da linguagem, da comunicação e da formação social de comportamentos.
Em certo sentido, perceberam que a fábrica deixava de ser o único espaço de construção da consciência coletiva.
Talvez, porém, o fenômeno contemporâneo tenha avançado ainda mais. Talvez a mudança não tenha ocorrido apenas da economia para a cultura, mas da cultura para a identidade.
A cultura ainda pressupõe algum grau de elaboração racional. Pessoas podem consumir determinados valores, discutir ideias e eventualmente modificá-las. Identidades políticas comunitárias parecem operar em outro plano, mais emocional, psicológico e existencial.
A questão deixa então de ser apenas o que as pessoas pensam e passa a ser quem elas acreditam ser.
Isso ajuda a explicar por que muitos debates atuais parecem escapar à lógica tradicional da persuasão racional. Quando uma opinião está ligada a uma ideia específica, ela pode ser modificada, mas, quando está ligada à própria identidade do indivíduo, abandoná-la pode significar algo muito mais profundo: abandonar a si próprio.
Talvez Marx tenha percebido a força das identidades econômicas. Talvez Gramsci e Frankfurt tenham percebido a força das identidades culturais. Mas o século XXI parece estar revelando a gigantesca força das identidades políticas funcionando como comunidades emocionais permanentes.
Redes sociais como aceleradoras
Se a consciência de classe imaginada por Marx dependia de fábricas, sindicatos e organizações partidárias, o mundo contemporâneo encontrou mecanismos muito mais eficientes para produzir vínculos coletivos.
As redes sociais reforçam identidades, criam linguagens próprias e estabelecem sentimentos permanentes de pertencimento, mas fazem isso com intensidade muito superior às antigas estruturas.
Opiniões alinhadas ao grupo são frequentemente recompensadas por aprovação social e engajamento; divergências internas geram isolamento e punições simbólicas. A conformidade recebe incentivos permanentes enquanto a dissidência torna-se mais custosa.
Os algoritmos aprofundam esse processo ao aproximar pessoas com padrões semelhantes de comportamento e preferências, criando bolhas que reforçam a sensação de pertencimento e transformam opiniões em aparentes consensos morais universais.
O perigo democrático
Democracias liberais foram construídas sobre a premissa de que indivíduos relativamente autônomos, capazes de formar opiniões próprias, costumam revisar posições e reconhecer legitimidade em seus adversários.
Democracias sempre conviveram com conflitos intensos. O problema não surge quando pessoas discordam, mas quando deixam de enxergar a si próprios como cidadãos e passam a existir exclusivamente como membros de comunidades políticas fechadas.
Nos últimos anos, o Brasil talvez tenha oferecido exemplos claros desse processo através do lulismo e do bolsonarismo. Em muitos casos, ambos ultrapassaram a condição de simples movimentos eleitorais para assumir características típicas de identidades comunitárias.
Isso ajuda a explicar por que erros de lideranças passam a ser relativizados, críticas internas tornam-se deslealdade e mudanças de posição antes inaceitáveis tornam-se aceitáveis quando praticadas pelo próprio grupo. O adversário político deixa de ser alguém com interpretações diferentes da realidade para tornar-se uma ameaça existencial. Nesse ambiente, divergências tornam-se heresias, adversários tornam-se inimigos e a crítica interna desaparece.
Marx certamente errou sobre a economia, sobre a revolução e sobre o destino do capitalismo, mas talvez tenha acertado sobre o homem possuir uma tendência permanente a abrir mão de parte de sua individualidade em troca do conforto psicológico do pertencimento coletivo.
Nesse cenário, a consciência de classe talvez não tenha desaparecido, tendo apenas mudado de roupa e, no processo, transformado-se em algo ainda mais poderoso e perigoso: uma inconsciência coletiva tribal política profundamente irracional.
*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.



