O erro da direita americana e o alerta para o Brasil

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O dirigismo econômico esteve, por muito tempo, associado à esquerda latino-americana. Ultimamente, porém, a direita americana — mais especificamente o movimento MAGA — parece estar seguindo o mesmo caminho.

Apesar de sua fama, Ronald Reagan não seguiu tão fielmente as ideias de seu conselheiro econômico informal, Milton Friedman. Pelo contrário: em seu livro Two Lucky People, Friedman aponta o abismo entre aquilo que foi prometido e o que efetivamente foi entregue. Ele lamenta o fato de que, embora Reagan tenha conseguido cortar impostos e controlar a inflação, o tamanho do governo, os gastos públicos e o número de regulamentações tenham continuado a crescer.

Desde então, a direita americana parece ter se distanciado da defesa da liberdade econômica. Alguns institutos liberais e libertários nos Estados Unidos chegaram a classificar o governo Bush como uma espécie de “conservadorismo de Estado grande” — Big Government Conservatism. Com Trump, não foi diferente. Em seu segundo mandato, ele iniciou uma guerra tarifária apoiando-se em um argumento muito semelhante ao utilizado pelos reis absolutistas durante o período mercantilista: a balança comercial.

Embora, naquela época, esse pensamento econômico estivesse associado à acumulação de metais preciosos, o que mudou hoje foi apenas o objeto da política. O governo Trump já adquiriu uma participação de 10% em uma das maiores empresas do setor de tecnologia, a Intel. Também imitou o governo Lula ao impor impostos sobre importações, alegando que o país precisava lutar pela reindustrialização e trazer de volta os empregos que outros países teriam “roubado”.

O vice-presidente J. D. Vance afirmou, em uma entrevista, que “a política econômica da direita americana é mais parecida com as ideias de Alexander Hamilton do que com as de Milton Friedman”. Segundo o vice-presidente, “as ideias de Friedman faziam mais sentido em 1980”.¹

Esse trecho é quase cômico. Vance considera que as ideias de Friedman, formuladas há cerca de cinquenta anos, estão defasadas ou obsoletas e já não correspondem à realidade do mundo atual. Ao mesmo tempo, não parece considerar ultrapassadas as ideias mercantilistas, protecionistas e autarquizantes do século XVIII. Os números mostram que essas políticas econômicas produziram um crescimento menor do emprego não agrícola entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 — apenas 0,2% — do que entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025, durante o governo Biden, quando o crescimento foi de 0,8%.

As tarifas impostas durante o segundo mandato de Trump foram muito mais agressivas do que as adotadas no primeiro. Ainda assim, os resultados não foram melhores. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, a produção industrial cresceu 1,4%, pouco mais da metade da alta de 2,7% registrada entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018.

O emprego na indústria — uma estatística especialmente relevante, já que a intenção declarada do presidente é “trazer de volta os empregos e as indústrias para casa” — caiu 0,7% no primeiro ano de seu segundo mandato. No primeiro ano do primeiro mandato, havia crescido 1,6%. De maneira mais geral, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, os ganhos médios reais por hora de todos os empregados do setor privado cresceram apenas 0,7%, menos do que o aumento de 1% registrado entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018.

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Embora a renda familiar mediana real tenha crescido 1,4% em 2025, ela havia crescido mais em 2017: 1,9%. O PIB real per capita também cresceu mais em 2017 (2,7%) do que em 2025 (2,3%). O investimento fixo privado real não residencial cresceu 7,5% durante o primeiro ano do primeiro mandato contra 5,8% no primeiro ano do segundo mandato. Entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018, a taxa de desemprego caiu de 4,7% para 4%. Já entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, subiu de 4% para 4,3%.

Os números indicam que esse movimento mais agressivo para reduzir o déficit comercial com outros países não deu muito certo. Esse é o alerta que os leitores e apoiadores do Instituto Liberal precisam ter em mente. Apesar de aquilo que hoje chamamos de “direita” no Brasil possuir uma visão geralmente mais positiva do livre-comércio, esse grupo político e ideológico não é homogêneo. Um estudo, inclusive, sugere que a direita apresenta maior pluralidade de opiniões do que a esquerda.²

Nota: o lado direito do gráfico, representado pela cor vermelha, refere-se ao Partido Republicano, associado à direita americana. O lado azul representa o Partido Democrata, associado à esquerda.

Como já foi dito, a direita é formada por grupos diversos, com ideias que muitas vezes podem entrar em conflito. As divergências vão desde o grau de confiança depositado na economia de mercado até questões relacionadas à segurança nacional. Liberais, libertários e conservadores podem divergir tanto em grau quanto em natureza. Em algumas pautas, podem concordar integralmente; em outras, podem sustentar posições completamente diferentes. Mesmo no interior de cada um desses grupos, existem discordâncias importantes.

O problema é que algumas alas dessa chamada direita possuem uma visão muito mais próxima do movimento MAGA americano do que das tradições liberal e conservadora brasileiras.

Um exemplo que ajuda a ilustrar o problema discutido neste texto é o influenciador ligado ao bolsonarismo Kim Paim.

O grupo que afirma se opor à falta de liberdade econômica e política promovida pelo PT não pode adotar as mesmas práticas e esperar resultados diferentes simplesmente porque, desta vez, será a própria direita a implementá-las. Os efeitos da falta de liberdade econômica e da redução da concorrência não se alteram apenas porque o grupo político responsável por essas medidas se encontra à direita do espectro político.

Como disse Roberto Campos: “Há três tipos de povos: os inteligentes, que aprendem com as experiências alheias; os medíocres, que aprendem com as próprias experiências; e os idiotas, que nunca aprendem.” Qual desses três tipos de povos a direita brasileira quer ser para o Brasil?

Referências

1 HARKOV, Lahav [@LahavHarkov]. “Milton Friedman’s ideas made more sense in the 1980s”: Vance describes at length how he thinks that, unlike Milton Friedman, the Trump administration’s economic ideas “allow human dignity to flourish”. X, 2 jul. 2026. Disponível em: https://x.com/LahavHarkov/status/2072531820487303348.
2 LÜDERS, Adrian; CARPENTRAS, Dino; QUAYLE, Michael. Attitude networks as intergroup realities: using network-modelling to research attitude-identity relationships in polarized political contexts. British Journal of Social Psychology, v. 63, n. 1, p. 37–51, 2024. DOI: https://doi.org/10.1111/bjso.12665. Disponível em: https://bpspsychub.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bjso.12665.

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Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

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