A servidão da solidariedade

Print Friendly, PDF & Email

Uma das maiores vitórias do populismo foi deslocar o centro do debate público. A pobreza deixou de ser o grande problema nacional; a desigualdade passou a ocupar esse lugar. Parece uma simples mudança de foco, mas dela nasceu uma nova forma de exercer poder.

A pobreza é a verdadeira tragédia humana. A desigualdade acompanha qualquer sociedade livre, dinâmica e inovadora. Confundir uma com a outra significa abandonar a causa para discutir apenas seus efeitos, substituindo a criação de prosperidade pela redistribuição de uma riqueza que cresce cada vez menos.

Foi dessa inversão que surgiu uma engenharia política particularmente eficiente. Enquanto amplia benefícios, subsídios e gratuidades, o Estado enfraquece silenciosamente os pilares que tornariam essa proteção cada vez menos necessária, como a responsabilidade fiscal, a segurança jurídica, o investimento, a produtividade, o empreendedorismo e o crescimento econômico.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

O Estado não produz riqueza; depende daquela que a sociedade produz. Quando passa a consumir uma parcela crescente dessa riqueza sem criar condições para ampliá-la, a prosperidade cede lugar à escassez.

A conta reaparece na perda de confiança, nos juros elevados, no baixo investimento, no crescimento medíocre e nas oportunidades que simplesmente deixam de existir. A armadilha, porém, é mais profunda do que econômica. A dependência prolongada modifica a forma como o cidadão percebe o Estado. Ele deixa de enxergá-lo como instrumento da sociedade e passa a vê-lo como condição da própria existência. A autonomia parece arriscada, enquanto a política social, concebida para ser uma ponte rumo à independência, transforma-se em tutela permanente.

Uma sociedade verdadeiramente solidária mede seu êxito pelo número de pessoas que conseguem deixar os programas assistenciais porque encontraram trabalho produtivo, renda, patrimônio e autonomia. A função mais nobre da política social é tornar-se, pouco a pouco, menos necessária.

O populismo compreendeu que a necessidade cria vínculos políticos mais duradouros do que a força. O medo produz obediência; a dependência produz gratidão. O cidadão convencido de que sua autonomia depende da benevolência do Estado dificilmente perceberá o instante em que deixa de ser plenamente livre. A mais refinada perversidade do populismo consiste justamente nisso: transformar a solidariedade, que deveria libertar, em um instrumento permanente de tutela.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

Deixe uma resposta

Pular para o conteúdo