“Casa Grande & Senzala”: o injustiçado Gilberto Freyre

O pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) é um nome praticamente inquestionável entre quem trava contato com as Humanidades e estudos sociais no Brasil. Quase não há quem não reconheça seu clássico Casa Grande & Senzala (1933) como uma obra-referência do pensamento brasileiro, ainda que sem endossar plenamente suas análises e teorias.

Trata-se de um feito a ser celebrado, já que Freyre se une ao dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues na lista seleta de figuras que, a despeito de suas posições anticomunistas, conseguiram reconhecimento mais sólido nos círculos de expressão e liderança cultural, mesmo nas universidades, em que o pensamento de esquerda desfruta privilégios contumazes, basicamente a hegemonia. Isso, contudo, não evitou que absurdos de todos os tipos tenham sido ditos sobre a sua obra.

É o caso do sociólogo e deputado petista Florestan Fernandes (1920-1995), orientador acadêmico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e influenciado pelo Marxismo, com quem nos deparamos, em entrevista de 1984, dizendo o seguinte: “Eu acho que não se deve avaliar o Gilberto Freyre no plano exclusivo da discussão da posição do negro e da relação entre negros e brancos na sociedade brasileira. Ele possui uma obra sociológica ampla. É claro que ele representa uma perspectiva que muitos diriam da sociologia oficial, quer dizer, da sociologia da casa grande”.

Tal como outros esquerdistas fariam posteriormente, de maneira ainda mais vulgar e grosseira, Fernandes está julgando o trabalho de Freyre como a expressão de seu lugar no contexto social, particularmente o contexto de “classes”. Quando eles não reputam a obra magna de Freyre como um documento “burguês” ou “reacionário” de defesa das elites, “dourando a pílula e pintando uma escravidão doce e paradisíaca, como se o Brasil colonial houvesse sido uma espécie de Jardim do Éden, então, por outro lado, sequestram as expressões e, distorcendo completamente a mensagem do livro, estampam frases de efeito como “a casa grande nunca saberá o que se passa na senzala” ou estrovenga parecida.

Após a leitura (já tardia) do livro obrigatório de Freyre, constatei que todos esses são, ou profundamente mal-intencionados, ou autênticos analfabetos funcionais, ou ainda ambos. A obra contraria com facilidade todas essas versões. Com o subtítulo “Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal”, e dividido em cinco capítulos – o primeiro sobre as características gerais da colonização portuguesa no Brasil, formando “uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida”; o segundo sobre a importância do indígena na formação brasileira; o terceiro sobre os antecedentes e predisposições do colonizador português; e os dois últimos sobre o escravo negro “na vida sexual e de família do brasileiro” -, o livro, inspirado nas ideias do antropólogo Franz Boas, é, em primeiro lugar, um imperecível manifesto contra a introdução das teses racialistas nas ciências sociais, a partir das perspectivas de autores como Nina Rodrigues e Oliveira Viana.

Sem ceder a nenhum ditame absoluto estabelecido por um único critério sobre o desenvolvimento social, como faziam seus contemporâneos explicando a desigualdade entre indivíduos e sociedades por razões meramente genéticas, ou como fariam os marxistas com os modos de produção, Freyre, no entanto, admite que a “técnica da produção econômica” exerce grande influência sobre a “produção econômica das sociedades” e na “caracterização da sua fisionomia moral”.

Sob esse aspecto, sua tese geral é de que as relações entre os principais grupos formadores do Brasil – os portugueses, já eles, em sua terra natal, como Freyre bem ilustra, de uma postura diferenciada e menos afeita ao puro “ódio racial/étnico”, porque formados no contato constante entre grupos diferentes, dos cristãos novos aos mouros; os indígenas, que ele desvela em sua simplicidade de organização social, mas diagnostica em sua influência sobre o imaginário infantil e a cultura popular do país; e, por fim, os negros, profundamente integrados ao sistema social, provenientes de sociedades consideradas mais complexas em sua organização que os índios, mais rapidamente adaptados ao estilo de trabalho imposto pelo colonizador – se enraizaram pela “monocultura latifundiária” e pela “escassez de mulheres brancas”.

O primeiro fator provocou uma organização social patriarcal, em que até mulheres e filhos estavam bastante submetidos ao arbítrio do senhor de engenho. Freyre sustenta que “a formação patriarcal do Brasil explica-se, tanto nas suas virtudes como nos seus defeitos, menos em termos de ‘raça’ e de ‘religião’ do que em termos econômicos, de experiência de cultura e de organização da família, que foi aqui a unidade colonizadora”. A família, organizando sua estrutura de autoridade no sistema de latifúndio em um complexo social que mesclava catolicismo popular, compadrismo e patriarcalismo polígamo, foi a base da formação social predominante na edificação da cultura brasileira, em seus defeitos e virtudes. “Nas casas-grandes”, ele diz, “foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro; a nossa continuidade social”, sendo onde “melhor se sente o caráter” do povo, ao permitir observar a sua vida doméstica, “íntima”. É exatamente isso que realiza a obra magna de Gilberto Freyre: estudar a identidade nacional na formação de sua tessitura básica, nas relações sociais mais profundas, menos que nos grandes fatos políticos e personalidades icônicas. É um caminho complementar essencial, também, para entendermos nosso país e nos qualificarmos para agir sobre ele. Dos hábitos diários, das brincadeiras de criança até os aspectos mais densos da psicologia social, as raízes para tudo estão aí ao menos esboçadas.

Não há nada adocicado, contrariando as más línguas. Freyre desmonta mitos espúrios, inclusive, sobre os próprios negros, responsabilizados, por vezes, no passado, pelos desregramentos sexuais, quando eles eram marcantes entre os europeus e senhores e refletiam interesses econômicos de procriação. Epidemias de sífilis, verdadeiros abusos sobre jovens escravas, os hábitos violentos da escravidão repercutindo sobre todas as esferas e indivíduos – tal como Joaquim Nabuco elabora em seu tratado O Abolicionismo, que situa a escravidão como marco fundante negativo da sociedade brasileira -, tudo isso está lá, sem qualquer disfarce.

A tal da “democracia racial” como ausência de dominação e tirania, apontada pelos críticos, não mostra nem sombra de sua passagem pelas páginas. O que há, isto sim, é a edificação de uma narrativa mais ou menos sutil em defesa do aproveitamento de um dos aspectos mais positivos da civilização brasileira que, em sua matriz de organização eivada de aspectos questionáveis, logrou êxito em florescer: a miscigenação. “O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação”, com “a índia e a negra-mina”, depois a “mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos” e “os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos” herdando parte considerável das grandes propriedades.

Com o Brasil se debruçando hoje sobre seus dramas e procurando desesperadamente compreender a si mesmo, é tempo de olhar com respeito e interesse para o trabalho de Gilberto Freyre, não nos cegando aos nossos dilemas e incontáveis prejuízos de formação – como ele mesmo não o fez -, mas acolhendo e dignificando as nossas vantagens comparativas e revivificando o projeto da nação de todas as cores e formas, da democracia densamente plural, da mistura enriquecedora de que até José Bonifácio de algum modo já falava nos idos dos oitocentos, mas precisa se realizar em comunhão com a prosperidade, o respeito às prerrogativas individuais, a liberdade e o desenvolvimento.

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