O governo argentino culpa pelo calote da dívida o… anarcocapitalismo!?

Não, o título não é uma piada. Ao menos para Jorge Capitanich, o chefe do gabinete do governo da Argentina. Segundo ele, o “anarcocapitalismo” é o grande responsável pela situação de calote técnico da dívida externa do país, que foi provocado por uma decisão judicial de uma corte americana em Nova York, que vetou o pagamento a determinados credores por conta da violação de uma cláusula presente no contrato da venda de títulos públicos, a qual obriga a Argentina a pagar todos os seus credores ao mesmo tempo e não apenas alguns. Quem expõe essa acusação bizarra é o jornal espanhol Público, em matéria publicada ontem (05/08) em seu site:

Em seu briefing diário, o chefe do Gabinete do Governo argentino, Jorge Capitanich, disse hoje que o mundo não pode permanecer sob o “anarcocapitalismo”. “O mundo não pode ficar com a espada de Dâmocles de grupos oligárquicos minúsculos” que “conspiram contra a estabilidade do sistema econômico e financeiro internacional” e tornam vulneráveis “a condição de um país soberano” com um “nível de usura inaceitável”, ressaltou Capitanich fazendo referência a disputa com os fundos abutres. […] ”O sistema econômico internacional está exigindo um preenchimento de um vazio jurídico e legal” no que diz respeito a aplicação de uma regra “das maiorias” nos “processos de reestruturação da dívida de países soberanos”, continuou. Capitanich pediu medidas que atuem como “desincentivadoras” para os fundos abutres que se aproveitam de “um sistema judicial perverso”, que “está absolutamente corrompido pela incidência deste tipo de interesses”.

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A matéria do jornal espanhol também afirma que o governo argentino não desconsidera a possibilidade de recorrer ao Tribunal Internacional de Justiça em Haia para resolver (a seu favor, claro!) a atual disputa judicial. Na mesma notícia, é destacada a opinião do advogado argentino e ex-promotor da Corte Penal Internacional, Luis Moreno Ocampo, afirmando que tal possibilidade é simplesmente inexistente juridicamente.

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Nós, do Portal Libertarianismo, sempre buscando manter nossos leitores bem informados, publicamos na semana passada três artigos explicando como ocorreu, porque ocorreu e as possíveis consequências econômicas em torno da atual crise na dívida externa da Argentina. O senhor Capitanich, obviamente, está apenas recorrendo, ao fazer esse tipo de jogo de cena e acusações malucas, a velha tática política de desviar o foco do público sob o real culpado por essa grave situação: o governo do seu país.

Em parte, o governo argentino veem sendo bem sucedido no uso dessa estratégia publicitária difamatória. Seu maior “mérito” até o momento foi conseguir emplacar o termo “fundos abutres” para se referir ao pequeno grupo de credores que se recusou a abrir mão de quase 3/4 da dívida (!) que o país tinha para com eles, medida (extorsiva) aceita pela maioria dos detentores dos títulos públicos da dívida argentina, sob o risco de não ficarem com nada.

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No mais, cabe ressaltar por fim que a utilização do termo “anarcocapitalismo”, para se referir as regras judiciais que regulam o atual sistema financeiro internacional, é apenas mais um desdobramento lógico da tática vergonhosa assinalada acima. Da mesma forma como os líderes da América Latina adoram colocar as mazelas sociais e econômicas que seus países sofrem na conta do infame neoliberalismo, a Argentina agora busca emplacar o novo “diabo” da política latina e dos “bondosos” governantes populistas da região: o anarcocapitalismo. Veremos nos próximos capítulos dessa novela (ou nos próximos passos dessa dança de tango, para ficar no mesmo nível de clichê) se conseguirão mais esse “feito”. Vai que cola!

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