A caixa de Vorcaro

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Grécia antiga

Mesmo após milênios, os mitos da Grécia antiga continuam sendo excelentes ferramentas na exegese de nossos tempos. As inúmeras lendas criadas pelos primeiros helenistas retratam e explicam, em seu caráter carregado de simbologia divina, acontecimentos terrenos que impactam a vida humana mais comum.  Atena, Ulisses, Aquiles, Édipo Rei, Afrodite, Hércules, Teseu e o Minotauro… todas essas (entre muitas outras) histórias povoam, em alguma medida, o imaginário coletivo ocidental.

Hoje, quero evocar outro mito grego que tem sido uma infeliz e autentica metáfora da atual política brasileira: o mito da Caixa de Pandora. Após a ascensão do todo-poderoso Zeus ao Olimpo dos deuses, o titã Prometeu ousou desafiar sua autoridade ao entregar o controle do fogo (ali simbolizado como poder e autonomia), propriedade de Zeus e do panteão, aos mortais. Zeus, extremamente irado, resolve se vingar da humanidade através de Pandora, mulher cheia de dons concedidos pelos deuses e dotada de incomparável beleza. Como presente de casamento, Zeus lhe dá uma caixa (a melhor tradução seria “jarro”) com a recomendação de que jamais fosse aberta.

Pandora é moça formosa, mas também curiosa. Ao descumprir o conselho de Zeus, todas as desgraças – exceto uma – entram no mundo, para infortúnio dos homens. Pandora descobre da pior forma possível que a a caixa recebida era, na verdade, uma caixa de males.

2026

Brasilia tem estado em polvorosa. Desde que surgiram os primeiros indícios dos escândalos envolvendo o Banco Master e seu ex-CEO, Daniel Vorcaro, dizem que a sanidade mental dos figurões nunca mais foi a mesma. Pudera, a cada nova revelação, as cifras ficam mais absurdas, e o rol de envolvidos – à direita e à esquerda – mais vasto. Já estamos diante de um dos maiores escândalos de corrupção deste país, e o fim da história não parece estar próximo.

Dinheiro, facilidades, luxo e luxúria

Daniel Vorcaro é uma figura singular. Jovem, articulado, bilionário, figura carimbada nos altos círculos sociais (não apenas no Brasil) e com farto acesso ao panteão de Brasília. Políticos, banqueiros, magistrados, advogados, empresários e celebridades, entre tantas outras castas, parecem estar na lista de benesses do homem.

Muito (MUITO!) dinheiro envolvido. Contrato de 129 milhões para um certo escritório de advocacia aqui… 60 milhões para um tal filme ali… outras centenas de milhares de reais em diárias num resort Tayayacolá… Mas, como nem só de dinheiro se vive, Vorcaro também era afeito às facilidades que só uma boa rede de contatos pode proporcionar. Afinal, qual banqueiro não gostaria de se reunir a portas fechadas (e fora da agenda oficial) com o próprio presidente da Republica, ministros de Estado e o futuro presidente do BACEN? É um nível de exclusividade que chega a nos deixar com uma pulga atrás da orelha pensando se não haveria outras razões mais (sabe lá Deus quais…) para um tratamento tão VIP, não concorda, caro leitor?

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O que sabemos, isso sim, é que Vorcaro era um grande amigo dos amigos. Quando o assunto era festa, não tinha miséria! Quatro dias de rega-bofe na maravilhosa ilha da Sicília (terra de Don Vito Corleone e de outras figuras semelhantes não tão fictícias assim) com direito a hotel cinco estrelas, shows de Coldplay, Bocelli e vários outros artistas famosos. Festas de debutante e camarotes na Sapucaí custando dezenas de milhões de reais. Iates privados cruzando o Mediterrâneo. Jatinhos particulares cortando os céus do atlântico.

Em uma dessas viagens, a bordo da aeronave de um amigo, seguiu para Lima um seletíssimo grupo, incluindo um ministro do Supremo Tribunal Federal e o advogado de um dos investigados
no escândalo Master. O destino era a final da Libertadores de 2025. Afinal, futebol é a paixão nacional, e ambos estavam ali apenas como torcedores, de modo que, é claro, não trataram de
qualquer assunto que não fosse a peleja em si. O fato de que, poucos dias depois, esse mesmo ministro tenha proferido decisão favorável em um processo de interesse do tal advogado não passa, evidentemente, de uma feliz – ou infeliz, dependendo da perspectiva – coincidência. Sendo ambos palmeirenses, é até possível que a carga de trabalho tão logo após a viagem tenha servido para amenizar a dor do fracasso alviverde, sofrimento do qual este articulista também compartilha.

Corre à boca pequena que, além do luxo, a luxúria também corria solta. Segundo relatos divulgados pela imprensa, a Polícia Federal teria encaminhado ao ministro André Mendonça um relatório contendo referências a orgias e bacanais supostamente promovidos pelo banqueiro. Diz-se que Vorcaro recorria quase que exclusivamente a acompanhantes estrangeiras – sobretudo europeias – para esses encontros, não necessariamente por predileção estética pelo padrão germânico ou eslavo, e sim por uma razão bem mais pragmática: desconhecedoras do idioma de Machado e dos meandros da política nacional, essas mulheres dificilmente reconheceriam os figurões que circulavam com desenvoltura – e poucas roupas – pelo ambiente.

Se os relatos forem verdadeiros, o sexo aparecia menos como entretenimento e mais como instrumento. Menos celebração hedonista e mais moeda de troca. Um mecanismo adicional de aproximação, influência e construção de lealdades entre personagens que, em tese, deveriam manter relações estritamente institucionais. Celulares, ao que consta, eram proibidos. Oficialmente, para evitar registros. Extraoficialmente, porque certas memórias são ainda mais perigosas que fotografias. Ainda assim, o comentário que ecoa pelos corredores de Brasília é que nem todos os antigos comensais dormem tranquilos. Afinal, quem frequenta ambientes construídos sobre segredos costuma descobrir – geralmente tarde demais – que segredos têm o péssimo hábito de escapar.

A coisa toda é tão medonha que não temos a menor ideia do que ainda vem por aí. No mito grego, a curiosidade de Pandora faz com que um sem-fim de desgraças venha à tona, ainda que ela se apresse em fechar a caixa tão logo perceba o estrago. Por aqui, no entanto, não há qualquer garantia de que Vorcaro tenha fechado sua própria caixa de males; nem na época em que a usava para cooptar grande parte da República, nem agora, com a investigação em andamento e a possibilidade de fazer uma delação que periga comprometer todo o Olimpo dos poderosos.

Fato é: coisa boa não virá. Se o que escapou já foi suficiente para abalar as estruturas dos três poderes, quão temeroso deveria estar o pobre povo brasileiro – vítima última de toda essa podridão – diante do que ainda permanece oculto, à espera de vir à luz? Talvez a verdadeira caixa de Pandora – ou de Vorcaro – não seja a que foi aberta, mas a que ainda não terminou de se esvaziar!

*Marlon Reguelin é empreendedor.

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