A epidemia do eu

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Percebo uma diferença importante entre cuidar de si mesmo e transformar a própria existência num projeto permanente de contemplação do umbigo. Tenho a impressão de que parte da nossa cultura cruzou essa linha. Nunca se falou tanto em autoconhecimento, e nunca houve tanta gente perdida.

Nunca se discutiu tanto saúde mental. Nunca tantos jovens pareceram tão frágeis diante dos desafios mais comuns da vida. Uma geração inteira foi ensinada a enxergar o mundo através das lentes da opressão, da injustiça e da vitimização. O problema não é reconhecer que essas coisas existem. Elas existem. O problema é acreditar que elas explicam tudo.

Quando isso acontece, o mundo deixa de ser um campo de possibilidades e passa a ser um campo de ameaças. O desconhecido assusta, e o contraditório ofende. A rejeição traumatiza, e o fracasso paralisa. O outro deixa de ser um potencial amigo, parceiro, namorado, mentor ou colaborador. Torna-se um risco. O resultado é uma geração que passa mais tempo administrando medos do que construindo experiências.

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Uma parcela significativa dos jovens de hoje bebem menos, fumam menos, transam menos e se arriscam menos. Em compensação, acumulam recordes de ansiedade, depressão e solidão. Nunca houve uma geração tão protegida e tão amedrontada. As redes sociais completaram a obra. Prometiam conexão, mas também entregaram confinamento. Trancaram-se em pequenas cavernas mentais e bolhas digitais, onde suas certezas jamais são desafiadas, seus medos jamais são contrariados e suas indignações de apartamento são permanentemente recompensadas.

Mas a vida acontece fora da cabeça. Ela está na conversa que desafia nossas convicções, no amor que nos expõe ao risco, na amizade que exige concessões, no trabalho que impõe responsabilidades e na realidade que insiste em não obedecer às nossas teorias “modernosas”. Seguramente, uma das grandes epidemias do nosso tempo não é a falta de autoestima. É o excesso dela.

Nunca houve tantas pessoas ocupadas consigo mesmas e tão poucas verdadeiramente conectadas aos outros. Quanto mais uma sociedade ensina seus jovens a se observarem, mais corre o risco de impedi-los de viver. Afinal, ninguém encontra a si mesmo passando a vida inteira procurando por si mesmo.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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