A epidemia do eu
Percebo uma diferença importante entre cuidar de si mesmo e transformar a própria existência num projeto permanente de contemplação do umbigo. Tenho a impressão de que parte da nossa cultura cruzou essa linha. Nunca se falou tanto em autoconhecimento, e nunca houve tanta gente perdida.
Nunca se discutiu tanto saúde mental. Nunca tantos jovens pareceram tão frágeis diante dos desafios mais comuns da vida. Uma geração inteira foi ensinada a enxergar o mundo através das lentes da opressão, da injustiça e da vitimização. O problema não é reconhecer que essas coisas existem. Elas existem. O problema é acreditar que elas explicam tudo.
Quando isso acontece, o mundo deixa de ser um campo de possibilidades e passa a ser um campo de ameaças. O desconhecido assusta, e o contraditório ofende. A rejeição traumatiza, e o fracasso paralisa. O outro deixa de ser um potencial amigo, parceiro, namorado, mentor ou colaborador. Torna-se um risco. O resultado é uma geração que passa mais tempo administrando medos do que construindo experiências.
Uma parcela significativa dos jovens de hoje bebem menos, fumam menos, transam menos e se arriscam menos. Em compensação, acumulam recordes de ansiedade, depressão e solidão. Nunca houve uma geração tão protegida e tão amedrontada. As redes sociais completaram a obra. Prometiam conexão, mas também entregaram confinamento. Trancaram-se em pequenas cavernas mentais e bolhas digitais, onde suas certezas jamais são desafiadas, seus medos jamais são contrariados e suas indignações de apartamento são permanentemente recompensadas.
Mas a vida acontece fora da cabeça. Ela está na conversa que desafia nossas convicções, no amor que nos expõe ao risco, na amizade que exige concessões, no trabalho que impõe responsabilidades e na realidade que insiste em não obedecer às nossas teorias “modernosas”. Seguramente, uma das grandes epidemias do nosso tempo não é a falta de autoestima. É o excesso dela.
Nunca houve tantas pessoas ocupadas consigo mesmas e tão poucas verdadeiramente conectadas aos outros. Quanto mais uma sociedade ensina seus jovens a se observarem, mais corre o risco de impedi-los de viver. Afinal, ninguém encontra a si mesmo passando a vida inteira procurando por si mesmo.



