Napoleão I – Imperador dos franceses (terceira parte)
II – O GENERAL
Bonaparte foi, antes de tudo, um convicto defensor da Revolução Francesa. Considerava que a grande gesta tinha marcado o início para a libertação definitiva da sua pequena pátria, a Córsega, do jugo dos Bourbons. A sua fé nos princípios inspiradores da Revolução era inamovível. Essa atitude o acompanhou já desde a sua formação na Escola Militar de Paris. Como frisa um de seus biógrafos, “Era grande o ardor de Napoleão pela Revolução. Bonaparte também secretariava o clube da Sociedade dos Amigos da Constituição, cujos membros conservavam durante muito tempo a recordação de seus calorosos e vibrantes discursos. Suas opiniões avançadas o tornavam mal visto pelos chefes e camaradas que continuavam fiéis ao antigo estado de coisas” [Lévy, 1943: 19]. Desenvolverei três itens: Horror ao desgoverno e ao populismo, Lineamentos gerais da estratégia de Bonaparte e As fontes da estratégia napoleônica.
1) Horror ao desgoverno e ao populismo.
Mas se o general Bonaparte era defensor da Revolução, tinha ficado impressionado com os desmandos cometidos, em nome dela, pelo Terror. Diríamos que Napoleão, filho da Revolução, queria garantir as conquistas que ela trouxe à sociedade francesa: o fim da servidão do Ancien Regime, a igualdade de todos os cidadãos perante a Lei, o término da Monarquia alicerçada em razões religiosas. Discípulo de Rousseau, Bonaparte quis regenerar a sociedade francesa (e a Europa, a partir dela), inserindo um componente de ordem, que teremos oportunidade de ampliar na III Parte desta exposição. De momento, destaquemos com Artur Lévy o horror que o jovem general sentia em face da demagogia e das agitações populares: “Durante sua permanência em Paris, Napoleão presenciou os grandes acontecimentos que marcaram o ano de 1792. Passeando com Bourrienne, viu a multidão dirigir-se dos subúrbios para as Tulherias, no dia 20 de junho. Acompanhemos essa gentalha, disse Napoleão. Foi ao ver essa multidão de cinco a seis mil homens, esfarrapados, irrisoriamente armados, berrando os mais grosseiros insultos à realeza, que Bonaparte sentiu, em todo o seu ser, aversão pela demagogia. Quando o rei, cercado pelos cabeças da desordem, e com um gorro vermelho na cabeça, se mostrou àquela turba de vagabundos, Napoleão não pôde conter-se e exclamou: Che coglione, como deixaram que essa gentalha entrasse? Devia-se metralhar a canhão quatrocentos ou quinhentos deles, que o resto correria” [Lévy, 1943: 21].
Foi mais ou menos o que o até então desconhecido general fez na noite de 13 para 14 vindimiário (5 a 6 de outubro de 1795): chamado pelo acuado Barras para defender a Convenção contra mais um levante popular patrocinado pelos monarquistas, na qualidade de vice-comandante do exército, Napoleão responde: “Aceito, mas previno-o que, desembainhada a minha espada, eu só a guardarei depois de restabelecer a ordem”. O jovem oficial de artilharia desestruturou o movimento revolucionário, posicionando estrategicamente os canhões nas principais vias de acesso à sede do governo. Após a primeira descarga, os revoltosos fugiram em disparada, sabendo que havia um comandante decidido. No dia seguinte, o jovem de 26 anos, agraciado com a patente de general de divisão, assim contava ao seu irmão José a ação da noite anterior: “Enfim, tudo terminou; o meu primeiro gesto é pensar em lhe dar minhas notícias. A convenção ordenou o desarmamento da seção Lepeletier, e esta repeliu as tropas (…). A Convenção nomeou Barrras para comandar a força armada; os Comitês me nomearam para o sub-comando. Nossas tropas tomaram posição, e os inimigos vieram atacar-nos nas Tulherias (…). Desarmamos as seções e tudo está calmo. Como de costume, não recebi nenhum ferimento” [apud Lévy, 1943: 48].
2) Lineamentos gerais da estratégia de Bonaparte.
A partir desse momento, a estrela do jovem general não pararia de ascender no cenário francês, na campanha da Itália, no Consulado e, por fim, no Império por ele criado. Em dez anos, o nosso herói galgaria de maneira fulgurante todos os degraus do poder e da glória militar. Destaquemos rapidamente as linhas gerais da estratégia bonapartista na arte da guerra. O seu maior mérito consistiu em ter organizado e disciplinado um exército mal dotado, imprimindo-lhe coesão e rapidez suficientes para ter sempre a iniciativa da ação e para saber com segurança como deveria agir no campo de batalha. Ao chamá-lo de gênio da guerra, os seus biógrafos certamente não exageraram, levando em consideração que o nosso herói venceu os seus inimigos em quatorze batalhas consecutivas. As suas vitórias em Lodi, Arcola e Rivoli são paradigmas da estratégia moderna, em decorrência da inteligente concepção do desenvolvimento das tropas e da audácia na execução dos movimentos. Napoleão revolucionou a arte da guerra e modernizou a organização do exército.
Ao longo do Ancien Régime tinha sido desenvolvida uma estrutura de exército articulado, que devia se deslocar em fileira e que não conseguia, portanto, abarcar grandes extensões de terreno, nem obrigar o inimigo a enfrentar a batalha ou a executar manobras defensivas. Graças à Revolução Francesa e à instituição da conscrição obrigatória e das requisições compulsórias de bens, aumentaram os efetivos e os meios materiais do exército e teve início a denominada guerra de massas. Passou a ser necessário fragmentar os contingentes em divisões, a fim de torna-los mais administráveis. Sob a férula do Diretório foi criada uma unidade denominada de corpo de exército, formada por uma massa que oscilava entre os 14 mil e os 40 mil homens, integrada por várias divisões. Na campanha de Marengo, Bonaparte organizou um corpo de exército integrado por duas ou três divisões, com uma cavalaria ágil e pouco numerosa (constituída geralmente por corpos independentes) e uma reserva de artilharia móvel que ficava sob o comando do chefe máximo da operação. O gênio militar de Napoleão revelou-se na forma em que ele passou a manobrar essa nova modalidade de exército. O general expandia os seus soldados de forma tal que impedia os movimentos rápidos do inimigo, conservando, ao mesmo tempo, a possibilidade de aglutinar prontamente as tropas no momento da batalha. Bonaparte dirigia vários corpos de tropa em direção a um ponto situado por trás do front inimigo, de forma tal que, ao avançarem os soldados, a totalidade das forças terminavam envolvendo o exército contrário. A estratégia napoleônica não era, porém, rígida demais, deixando espaço para o improviso e a ágil adaptação às condições novas do terreno. A surpresa no ataque era uma das cartas que Bonaparte guardava na manga. No desenvolvimento do confronto, o general gostava de ir desgastando os seus adversários mediante rápidos ataques aos flancos ou à retaguarda, evitando perdas de homens. A artilharia era fundamental para ir quebrando o moral do inimigo. (Lembremos que a artilharia francesa era, na época, a mais avançada da Europa). Quando considerava que o adversário se encontrava suficientemente desgastado, Bonaparte dava o bote final, concentrado o grosso das suas forças no ponto central do exército inimigo, de forma a acabar com ele. Essa era a essência da estratégia napoleônica [cf. Colin, 1901: 353-367; Belloc, 1958: 103-181].
As inovações pensadas e postas em prática por Napoleão no campo de batalha tornaram-no, certamente, um dos grandes formuladores da estratégia moderna, ao lado de Vauban, Frederico o Grande, Guibert, Bülow, Jomini e Clausewitz. Os teóricos da guerra são unânimes neste ponto. Um dos estudiosos contemporâneos mais acurados, Peter Paret, frisa a respeito o seguinte: “Napoleão reconheceu todo o potencial da revolução na guerra, descobriu como seus componentes poderiam ser levados a trabalhar em conjunto – nas palavras de Clausewitz, ele corrigiu os defeitos técnicos das inovações, que até então tinham limitado sua eficácia – e, colocando os recursos da França a serviço do novo sistema, por algum tempo deu a ela a superioridade absoluta. (…) A repartição do exército em comandos com bastante auto-suficiência, o que, nas guerras da Revolução freqüentemente significou dispersão de esforços, foi mantida por Napoleão, que, no entanto, impôs controle centralizado muito mais firme aos comandos dispersados e neles incutiu sua fé no movimento rápido e na ofensiva. O resultado foi nova mobilidade, que tornou possível a concentração de força superior no ponto decisivo” [Paret, 2002: I, 180-181].
*Artigo publicado originalmente no site do autor.



