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Como incendiar os espíritos mesquinhos

 

“A inveja enxerga sempre tudo com lentes de aumento, que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas”.  Miguel de Cervantes

Escrita num tom severamente crítico, o Portal iG publica hoje extensa matéria, com chamada de capa, sobre os salários dos executivos das principais empresas de construção civil, com ações negociadas na bolsa de valores.  A manchete é uma boa síntese do viés altamente tendencioso da notícia:

“Supersalários sobem em meio a desemprego recorde na construção civil”.

Embora referências diretas tenham sido cuidadosamente omitidas, quem lê aquela estrovenga fica com a impressão de que os seus autores pretenderam demonstrar quão absurdo é o pagamento de salários tão altos às diretorias das empresas, quando o setor se encontra em retração e os índices de desemprego bastante elevados.  Na melhor das hipóteses, o que se lê nas entrelinhas é que os empresários gananciosos estão demitindo mão-de-obra em massa a fim de manter seus “supersalários”.

Tal conotação não poderia ser mais falsa, e só é possível a partir de ideias tão absurdas quanto irrealistas, como veremos logo abaixo.  No entanto, antes de qualquer outra observação, caberia indagar: qual o objetivo desse tipo de reportagem?  Sim, pois aquela informação (que é pública e consta das demonstrações financeiras devidamente publicadas) só interessaria aos acionistas das respectivas empresas (PRIVADAS) e, no limite, à Receita Federal.  Para o restante da sociedade, tal matéria é absolutamente irrelevante, a menos que você seja daqueles indivíduos invejosos, sempre com “olho gordo” nos salários alheios.

Mas vamos ao que interessa.  A lucratividade bruta das empresas em geral – e das construtoras em particular – está vinculada principalmente à demanda dos consumidores e, consequentemente, às quantidades produzidas.  Numa firma bem administrada, quanto maior a demanda e a produção, maior será o lucro total.  Se a minha empresa construir e vender mil unidades, muito provavelmente lucrará mais do que se construir e vender apenas 100 unidades.  Portanto, o interesse empresarial é produzir a maior quantidade de unidades possível.

A mão-de-obra no setor de construção é um insumo importante, mas não deixa de ser um insumo como qualquer outro.  Sua aquisição (contratação) está diretamente vinculada às quantidades produzidas.  Quanto mais empreendimentos/lançamentos tiver uma empresa em determinado momento, maior será a quantidade de trabalhadores demandados.  O mesmo raciocínio vale para todos os outros insumos diretos.  Logo, assim como não faz sentido nenhum uma empresa construtora manter o mesmo volume de compras de cimento e ferro, por exemplo, quando cai o número de obras em andamento, não é normalmente adequado manter “em estoque” mão-de-obra ociosa.

Da mesma forma que as empresas não contratam funcionários (ou adquirem outros insumos) por caridade, mas sim em função da demanda e da produtividade marginal do trabalho (veja aqui), tampouco demitem trabalhadores por crueldade, mas por necessidade, até porque, pelo menos no Brasil, os custos para se demitir trabalhadores são elevadíssimos.

Quanto aos salários dos executivos, os autores da referida matéria parecem não saber – embora devessem – que em tempos de crise e retração da demanda é que as empresas mais precisam da eficiência e da criatividade de seus principais gestores.  Administrar uma empresa em momentos de fartura é moleza.  Nessas ocasiões, a demanda aquecida normalmente compensa eventuais ineficiências.  Entretanto, quando a demanda e, consequentemente, os preços de venda caem, só sobrevivem e obtêm algum lucro aquelas companhias que fazem bem o dever de casa.  Portanto, não há nada de errado, pecaminoso ou contraproducente em se pagar salários maiores aos executivos em épocas de crise.

Por tudo isso, matérias como aquela, além tolas e nada informativas, só servem para incendiar os espíritos desinformados e mesquinhos, causando revolta onde não deveria.  Em meio a tantos desmandos e corrupção no governo e nas empresas estatais, esse tipo de notícia só pode pretender jogar uma cortina de fumaça sobre a opinião pública.  Quando leio esse tipo de baboseira, não consigo discordar de Joseph Pulitzer, para quem, com o passar do tempo, “uma imprensa cínica, mercenária demagógica e corrupta formaria um público tão vil quanto ela mesma”.  Lamentável!

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.