Eduardo Cunha: futurologia do fisiologismo

cunha1Eduardo Cunha rompeu com o governo. Político que poucos sabiam quem era até o ano passado, foi alçado ao estrelato pela cadeia sucessória numa época em que ninguém mais tem muita confiança na continuidade da presidente no governo, exceto a presidente “ela própria” e os jornalistas da Carta Capital.

Tal cadeia se deu pelos acordos do PMDB para apoiar o PT, que o coroaram como presidente da Câmara. A linha sucessória o fez virar um Frank Underwood tupiniquim: político regional, que acidentalmente está alçado a subir ao mais alto posto da nação de um ano para outro, pelas politicagens, tramóias e mancomunações de sempre.

A grita agora é, por parte da esquerda, que Eduardo Cunha está planejando um golpe e também é investigado pela mesma Operação Lava-Jato (o que faz com que o pensamento binário da esquerda o considere “de direita”), e, da parte dos liberais e conservadores, sempre desconfiados de boas notícias políticas, que Eduardo Cunha faz parte do governo – logo, seu rompimento seria de fachada (fora que já o anunciara antes).

Um pouco de chutômetro calculado pode cair bem.

cunha2Eduardo Cunha é do PMDB, e o PMDB, por definição, é um partido sem ideologia. Seus políticos não estão interessados em aplicar na prática parlamentar as teses de Jean Jacques Rousseau, Michel Foucault, Francis Fukuyama, Robert Dahl, Samuel Huntington, Bertrand de Jouvenel ou David Nolan. Ou qualquer estudioso do tema. Seus políticos estão interessados em dinheiro (os mais ralés) ou em poder (os espertos, que sabem que poder gera dinheiro, e não o contrário). São cratófilos.

O PMDB e Eduardo Cunha gostam de poder. E apenas estão tentando se manter no poder – inclusive no poder de indicar quem será o poder investigador.

O cálculo agora é simples para qualquer leigo: o PT venceu 4 eleições seguidas, mas deu mostras mais do que o sobejante em 2014 e 2015 de que não tem mais todo este poder de fogo para as próximas.

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O que amantes do poder fazem nesse caso? Analisam quais as chances de continuar refastelando-se nas benesses do Estado. E as análises dizem: o barco começou a fazer água. Agora cada um pega sua canequinha, toma um bote ou tenta garantir que o condutor não o matará afogado primeiro caso tudo afunde como previsto. É apenas isso o que está acontecendo com Eduardo Cunha.

Se a chance de o poder continuar com o PT fosse alta, seria difícil pensar que Eduardo Cunha estaria estrilando contra um governo que poderia indicar o próximo presidente. Vendo um vácuo nesta função, Eduardo Cunha, de aliado, se torna principal adversário. Até eleitoral.

Porque Cunha, cratófilo, só quer estar no comando, e nada mais. Já o PT é completamente diferente. É um partido de políticos em sua maioria ignorantes, broncos, pouco inteligentes (apenas articuladíssimos politicamente), mas que rezam por uma base teórica bem consistente de intelectuais que os criaram e os apoiam.

cunha3É um partido que tem uma base marxista, que se tornou gramscista com Ênio Silveira e Carlos Nelson Coutinho, e hoje tem uma nova leva tentando usar o partido para aplicação dos conceitos de Antonio Negri (Ivana Bentes, Fábio Malini e diversos outros apoiadores).

Pergunte a qualquer peemedebista o que é Gramsci ou Negri e ele não saberá se é de comer ou de passar no cabelo.

Sendo assim, a mensagem de rompimento de Cunha com o governo deve ser entendida quase que exclusivamente em termos eleitorais.

O PT já não oferece segurança eleitoral nenhuma para seus apaniguados. E eles simplesmente percebem que precisam deixar claro ao público que o namorico decenal com o partido acabou, e não são mais nem apenas bons amigos.

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Claro que o recado foi apenas de Cunha, enquanto o PMDB institucionalmente não fez nada. Não importa: Cunha é que importa. Ele que é a face visível do partido. Nenhum partido nunca ganhou nada sem uma face humana. E não podemos contar com o “carisma” de Renan Calheiros para segurar todo o partido.

Nem a denúncia de Janot contra Cunha afeta em nada o cenário: Cunha é investigado na mesma Lava Jato que tira o sono de petistas.

E é por isso que o principal da notícia de que Eduardo Cunha encontrou-se com o ministro do STF Gilmar Mendes passou despercebido. A grande questão não é o encontro, é a avaliação: Gilmar crê que um processo de impeachment ainda não tem certeza de adesão no STF, ainda dividido (graças a tantas indicações petistas).

E Cunha não entrará com o pedido de impeachment enquanto não tiver os 342 votos exigidos (possui apenas 250 favoráveis na Câmara agora). Do contrário, o processo não mais conseguirá lograr êxito, não importa o tamanho do descalabro que se descubra agora envolvendo o PT.

O recado ao povo, então, fica claro: para haver qualquer saldo positivo nessa lambança, ao invés de olhar para a declaração de Cunha de sexta (como se Cunha não fosse arqui-inimigo do PT já há meses), olhe para o encontro de Cunha com Gilmar Mendes.

cunha4Tudo se trata de uma questão de popularidade – sobretudo, popularidade eleitoral. A mensagem a ser decifrada é que Cunha, saindo dos 9% que apoiam Dilma nesse momento, só dará os passos seguintes se tiver garantias ainda maiores.

Trocando por números, sabe-se que as investigações da PF e do MP não chegam ao fim envolvendo políticos sem clamor popular. E teme-se o clamor contra prisões.

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A maior notícia envolvendo uma possível prisão de Lula, portanto, não foi nem a notícia da investigação que analisa suas ligações internacionais com a Odebrecht, vista em todos os jornais do mundo, mas que não parece ter sido importante o suficiente para o editor do Jornal Nacional, que preferiu falar da Câmara de Santo Antônio de Platina do que do inquérito contra Lula.

A maior notícia é o índice de popularidade de Lula medido pelo Ibope, que de repente, “sem muito motivo” para algo tão caro, resolveu fazer uma análise da popularidade do ex-presidente. Notando que está em frangalhos e perderia até para Aécio Neves num eventual segundo turno, clarifica-se em números à Polícia que uma eventual prisão de Lula pode ser aceita pela sociedade, ao invés de gerar todo o revolvimento de outros tempos.

Mas ainda falta o apoio popular ostensivo e claro, não apenas a numerologia. Falta agora ver novamente o povo nas ruas pedindo impeachment, impugnação da candidatura da presidente. Inclusive mostrando que não confia nem em Eduardo Cunha, nem em ninguém em quem não votou para formar alianças.

Como tudo é uma avaliação dos votos em 2018, este é o papel que o povo deve ter para conseguir um pouco de paz depois da crise. No dia 16 de agosto, todos devem voltar as ruas – e conclamar o ato com mais força ainda do que das últimas vezes – para finalmente o ciclo fechar.

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Comentários

  1. só não descobri o que é “cratófilo”, de resto, gostei do texto.

    • Cratofilo é amante do poder