Brasil sem memória e sem dignidade: faltam palavras

Print Friendly, PDF & Email

Esta é a Semana da Pátria. É o momento em que, para qualquer país, qualquer povo, o foco estaria na celebração dos feitos em comum, das tradições e da cultura, das realizações cívicas, daquilo por que nos podemos felicitar em conjunto, como uma comunidade política e histórica.

Infelizmente, o Brasil não nos está permitindo isso. Justamente no 2 de setembro, dia da histórica reunião em que a então princesa Leopoldina, reunida ao Conselho de Estado, definiu-se pelo envio das correspondências ao príncipe D. Pedro recomendando a independência do país, seu palco, templo da memória carioca e brasileira, o já saudoso Museu Nacional, rendeu-se às chamas do descaso e do amesquinhamento.

Mais do que um pedaço insubstituível de uma epopeia de dois séculos, um daqueles símbolos que facilitam o contato do cidadão com seu passado e com o que, entre erros e acertos, nos trouxe até aqui, o Museu, que foi residência da Família Real e também foi o local onde se deu a Assembleia Constituinte republicana de 1891, era também parte da memória afetiva de quem nasceu e cresceu no Rio de Janeiro.

Todos temos alguma lembrança de infância, alguma experiência inesquecível, em geral de quando nossos pais nos levaram para nos deslumbrar com a beleza do lugar, despertar o primeiro interesse pelo conhecimento. Nossos filhos e netos poderão ver, se tivermos sorte, um remendo, uma réplica, artificial e inevitavelmente distinta. Cientificamente, perdeu-se um acervo incalculável; nunca mais veremos aquela preguiça gigante, aquele dinossauro que tanto me impressionou quando pequeno. É provável que nunca mais vejamos Luzia, o mais antigo fóssil humano da América.

É evidente que uma só vida humana teria mais valor que todos os objetos e memórias preservados e eu trocaria o museu inteiro pelo resgate de uma pessoa. Não há que se comparar as grandezas, há que sentir cada uma em sua proporção. Para a memória e a consciência nacionais e até para a humanidade, é uma perda dilacerante.

A indignação por essa perda vem sofrendo uma tentativa de monopolização por parte de grupos de extrema esquerda, grupos a que o próprio reitor da UFRJ, Roberto Leher, se vincula ao ser membro fundador do PSOL. Falsários repugnantes; nunca conferiram a mínima importância ao patrimônio nacional. Não têm qualquer prerrogativa para nos apontar o dedo. Acrescentam ao caldo apenas um ingrediente daquilo que a destruição do Museu Nacional representa simbolicamente: a agonia de um país, de uma sociedade que se tem permitido perder a alma, a memória e todos os seus bens mais preciosos. Tem tratado por natural e corriqueira a chacina de seus filhos. Tem jogado ao lixo sua dignidade.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

Dignidade, sim. Pois logo no dia seguinte, imediatamente após essa devastação inolvidável, nossos representantes terminaram de lançar nossa já combalida reputação aos abismos. O leitor talvez se lembre de que repercutimos aqui a ausência do Brasil nas articulações dos vizinhos latino-americanos por apresentar uma condenação do regime ditatorial de Nicolás Maduro pelas suas reiteradas violações aos direitos humanos. Terminei dizendo que talvez, no dia seguinte, o Brasil endossasse o manifesto dos vizinhos, o que, confesso, julgava provável. Mesmo se o fizesse, teria “ido a reboque”, o que já era “uma vergonha que carregaremos para sempre, tanto quanto a de termos mantido no poder por tanto tempo aqueles que patrocinaram o horror na Venezuela”.

Eu estava errado. Triste e terrivelmente errado. Nossos representantes sempre podem fazer pior. O Brasil, o país mais expressivo, teoricamente mais influente, de maiores dimensões, de que se espera a liderança regional, que já se havia subtraído da obrigação de impulsionar as articulações pelo enfrentamento mais duro a um desastre humanitário que já lhe causa problemas diretos no norte de seu território, sucumbiu à covardia, à pusilanimidade extrema, à omissão imperdoável.

Não é que, ao fim das contas, não assinamos? O Itamaraty de Rio Branco, o Ministério das Relações Exteriores, a casa tradicional de nossa diplomacia, permitiu que a denúncia fosse entregue, para estupefação da comunidade internacional, sem a nossa anuência. Ao Estadão, informaram simplesmente que “o Brasil não é do núcleo duro da resolução e, portanto, não patrocinará a iniciativa, pois está concentrando seus esforços, no momento, no âmbito da Organização dos Estados Americanos”.

Estupefaz que esse tipo de comentário seja entendido como uma justificativa. O Brasil não é do núcleo duro porque não quis! Não querer, não tomar à frente, não liderar as pressões em todas as frentes possíveis, é assassinato mais que suficiente da nossa honradez. Neste momento, faltam-me palavras a dirigir para os senhores Michel Temer e Aloysio Nunes que não sejam impublicáveis e indecorosas.

Aliás, se o Brasil permite a aniquilação material de suas lembranças, despreza seu papel histórico e julga que há ainda o que esperar, como um pedante perfumado que prefere não se misturar e olhar de cima para os vizinhos que tomam a atitude que lhe deveria competir, o que nos resta é mesmo ficar sem palavras.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, conselheiro de diversas organizações liberais brasileiras, membro refundador da Sociedade Tocqueville, sócio honorário do Instituto Libercracia, fundador e ex-editor do site Boletim da Liberdade e autor, co-autor e/ou organizador de 11 livros.

Pular para o conteúdo