Jorge Messias e a Dosimetria: quando o Congresso é vilão

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O fato político mais relevante da última semana foi a rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Por 42 votos contrários a 32 favoráveis, o advogado-geral da União viu o seu nome barrado para a mais alta instância do Judiciário brasileiro – fato que não ocorre desde 1894. A surpresa foi enorme: além de o fato ser incomum, ainda se vendia – com muita gente disposta a comprar – a imagem do presidente Lula como articulador infalível. De nada adiantou.

Mal se tinha o resultado e já havia quem apontasse o pai da criança. Muitos apontam para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP); outros falam no ministro do STF, Alexandre de Moraes. Seja lá quem for, o que me parece algo patente é que o governo sofreu um abalo com potencial de virar terremoto. Ter um nome rejeitado para o Supremo é sinal inequívoco de fraqueza, e, com uma eleição batendo à porta, não haveria momento pior.

A derrota de Messias não estava no radar, ao contrário da derrubada do veto ao PL da Dosimetria. Pedra cantada pelo meio político, a reação do Congresso ao Planalto foi entendida pelas esquerdas como uma traição imperdoável, pois a nossa pujante democracia precisa colocar idosas com Bíblia na mão na cadeia por quase – ou mais de – duas décadas. Essas mesmas pessoas que gritam “Sem Anistia” pertencem a uma corrente política que foi generosamente beneficiada pela Anistia de 1979 – sem falar que o Brasil é um país com tradição pacífica por já ter concedido 48 anistias em sua história.

Coerência não é – e nunca foi – o ponto forte das esquerdas. Espinafrar o Congresso Nacional exemplifica mais uma das suas várias contradições.

Recordo que as manifestações no começo do Governo Bolsonaro pediam a aprovação das reformas – previdência, administrativa e pacote anticrime – e criticavam duramente o Congresso na figura do então presidente da Câmara Rodrigo Maia. O que fez a esquerda? Saiu em defesa de Maia e do resto da classe política, tratando crítica como ataque e semeando as bases da narrativa que desaguou nos supremos inquéritos intermináveis. Unida ao establishment quase de forma siamesa, seus acólitos trataram o único movimento político antissistema – ao menos até então – como golpista e antidemocrático por desempenhar o mesmo papel dos militantes petistas da década de 1990 na famigerada campanha ‘’Ética na Política’’ – ela não passava de um engodo desmascarado por Olavo de Carvalho em O Jardim das Aflições, enquanto a primeira é a variante brasileira de um fenômeno mundial: a revolta do homem comum contra as elites do Deep State.

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Utilizada pelo bolsonarismo, a antipatia ao estamento burocrático era malquista por quem tanto a estimulou. Empreendida pelo adversário, foi demonizada. Os mesmos políticos do Centrão que foram tachados de golpistas por votarem pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff viraram fiadores da democracia. Ou alguém esqueceu o simbólico apoio petista à candidatura do deputado Baleia Rossi (MDB-SP) à presidência da Câmara? Um parlamentar do partido algoz em 2016 virou sinônimo de defesa da democracia e das instituições em menos de cinco anos, numa metamorfose no mínimo curiosa.

Nessa época, uma das pautas dominantes do debate público era a questão do voto impresso. A ideia consistia em dar mais transparência ao processo de votação ao ser emitido um comprovante após a votação, garantindo de forma inconteste a lisura do sistema eleitoral ao permitir possíveis recontagens nos moldes de qualquer democracia liberal típica do Ocidente. Pois bem, após suprema pressão, a iniciativa foi derrubada na Câmara – mesmo com apelo popular da base bolsonarista. Não vi ninguém das esquerdas espinafrar o trabalho dos deputados, falar em ‘’Congresso inimigo do povo’’ e gritar palavras de ordem contra parlamentares. Quando interessa, o Parlamento é bom. Eis a síndrome de Haddad.

A verdade é que a esquerda nunca conviveu harmonicamente com a democracia. Enquanto clandestina e aceitando alguma participação eleitoral no antigo PTB, tentou tomar o poder através das guerrilhas – quem disser que elas foram uma resposta ao golpe militar está mentindo, pois os documentos apresentados no livro 1964: o Elo Perdido comprovam a existência de braços armados do PCB antes do golpe empreendido pelos militares. Uma vez estabelecida a Nova República, aplicou ipsis litteris a estratégia gramsciana de ocupação de espaços e reinou sozinha até o primeiro grande tombo: o impeachment da ex-presidente Dilma, quando o povo tomou as ruas e expressou de forma inequívoca a sua rejeição ao esquerdismo hegemônico.

Antes disso, houve o Mensalão, esse sim um golpe mortal ao regime democrático. Petistas de primeiro escalão negociaram a compra de apoio parlamentar para a aprovação de projetos do interesse do governo, colocando o Congresso de joelhos. Veja só: através da barganha financeira, corromperam um dos três poderes da República – mesmo expediente utilizado no Petrolão. E agora querem posar de defensores da democracia. Tenha dó.

A revolta da esquerda que se quer vender como moralista contra o Congresso não é contra práticas execráveis, mas pelos recentes resultados. É a mesma lógica observada na ladainha contra as emendas de relator: eram ruins no Governo Bolsonaro e agora, quando o Congresso vota contra o presidente Lula, mas não se dá um pio contra elas na hora das vitórias parlamentares da atual administração. Fosse outra a sorte de Jorge Messias, nem lembrariam dos R$ 12 bilhões liberados antes da votação.

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Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.

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