O dia em que o dólar voltou: por que a euforia do mercado é o prenúncio de um novo ciclo para o Brasil

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Introdução

O resultado das urnas em 4 de outubro de 2026 contrariou a maior parte das previsões. O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal, terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores, obteve 45,16% (EXAME, 2026). A diferença, de aproximadamente 2,2 milhões de votos, conduz a disputa a um segundo turno marcado para 25 de outubro, com o candidato da oposição na dianteira.

Na manhã seguinte, os preços reagiram antes que os analistas chegassem a um consenso. O Ibovespa encerrou o pregão de 5 de outubro com alta próxima de 7,7% e ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 200 mil pontos. O dólar caiu mais de 4% e voltou a ser negociado em torno de R$ 5,00. As taxas dos contratos futuros de juros de prazo mais longo recuaram quase um ponto percentual logo na abertura (INFOMONEY, 2026). Ao fim da semana, o índice acumulava alta de 8,82%, e o dólar, queda de 4,44% (PORTAL DE PREFEITURA, 2026).

Em artigo anterior, publicado pelo Instituto Liberal, sustentou-se que a direita possuía condições concretas de vencer as eleições de 2026, desde que a distância entre a narrativa governista e a realidade vivida pela população se convertesse em voto (SOUSA, 2026). O primeiro turno trouxe um primeiro indício expressivo em favor dessa hipótese. Há quem interprete a euforia de 5 de outubro como simples especulação ou como interferência da elite financeira na vontade popular. Essa interpretação merece ser examinada. Entretanto, considero que ela desconsidera o essencial: os preços financeiros, embora não representem a sociedade inteira, contêm informação valiosa, porque resultam das avaliações de agentes que arriscam o próprio capital ao formulá-las.

O gestor André Matos, da MA7 Capital, resumiu o movimento em uma formulação precisa: o mercado comprou uma expectativa (INFOMONEY, 2026). É essa expressão que orienta o artigo. Comprar uma expectativa, porém, não equivale a vê-la realizada. A pergunta que orienta o texto é se a expectativa precificada em 5 de outubro tem fundamento e o que será necessário para que ela se realize.

O objetivo deste artigo é analisar o que o resultado das urnas e a reação dos preços revelam sobre o momento político brasileiro. Defendo a hipótese de que o mercado precificou maior probabilidade de um regime fiscal considerado mais favorável, e que essa reação constitui um prenúncio dos benefícios que tal regime poderá produzir. Um prenúncio, porém, está longe de ser uma prova. Sua confirmação dependerá do resultado do segundo turno e, sobretudo, da capacidade de converter promessas em aritmética fiscal verificável.

É importante estabelecer, desde o início, uma distinção que orienta todo o texto. Uma coisa é descrever o que as urnas e os preços indicaram; outra é sustentar o projeto que o autor considera desejável para o país. Quando descreve, o artigo apoia-se nos números disponíveis até a data de sua redação; quando interpreta ou recomenda, assume abertamente a perspectiva liberal, com ênfase na tradição da Escola Austríaca, e procura sinalizar ao leitor essa passagem. O resultado do segundo turno caberá ao eleitor.

O que as urnas disseram

O primeiro dado relevante das urnas é a persistência da polarização. Os dois candidatos que avançaram ao segundo turno reuniram, somados, mais de 92% dos votos válidos. Augusto Cury (Avante) obteve 2,89%; Renan Santos (Missão), 2,24%; Ronaldo Caiado (PSD), 2,18%; e Romeu Zema (Novo), 0,27% (EXAME, 2026).

Confirmou-se, nesse ponto, o diagnóstico apresentado por Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, segundo o qual a possibilidade de consolidação de uma terceira via permaneceria reduzida (ARRUDA, 2026). O eleitor tratou a eleição como uma escolha entre dois projetos, e o candidato de oposição recebeu a maior parcela dos votos válidos.

O segundo dado diz respeito à distribuição geográfica dos votos. Flávio Bolsonaro venceu na maior parte das unidades da Federação, inclusive em Minas Gerais e no Tocantins, estados que haviam dado maioria a Lula em 2022 (GAZETA DO POVO, 2026a). O avanço sobre territórios antes favoráveis ao atual presidente sugere que o resultado não decorreu apenas da mobilização da base tradicional da direita.

O terceiro dado ganha relevo na comparação histórica. Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2022). Quatro anos depois, a situação se inverteu: é o candidato da direita quem chega ao segundo turno na liderança, e é o presidente da República quem precisa recuperar terreno.
O quarto dado vem do Legislativo. O Partido Liberal elegeu 121 deputados federais, a maior bancada obtida por um único partido desde a Constituição de 1988, e deverá contar com 28 das 81 cadeiras do Senado a partir de 2027 (CORREIO DA MANHÃ, 2026).

O próprio presidente reconheceu a surpresa. Em pronunciamento na noite da votação, Lula afirmou que o resultado foi inesperado e que uma nova campanha começaria no dia seguinte (REUTERS, 2026a). Até aqui, trata-se dos dados observados. A interpretação deste artigo é que o voto de 4 de outubro combinou preferência, rejeição e avaliação da experiência cotidiana, e que essas dimensões convergiram na expressão de um desejo de mudança. Trata-se de leitura plausível, mas não de informação produzida diretamente pelas urnas: sua verificação depende de pesquisas pós-eleitorais capazes de identificar as motivações do eleitor.

A disputa continua aberta. Já não é, porém, a eleição que as pesquisas descreviam.

O voto que as pesquisas não mediram

As pesquisas de véspera acertaram, com razoável precisão, a votação de Lula. Erraram a de seu adversário. A última pesquisa do Datafolha atribuía 45% ao presidente e 42% a Flávio Bolsonaro; a Quaest indicava 46% e 45%; a AtlasIntel, 47% e 44,1% (MATAIS, 2026). Somente um de seis institutos apontava o candidato do PL numericamente à frente (GAZETA DO POVO, 2026b).

Há pelo menos quatro explicações possíveis para essa diferença. A primeira, e a mais difundida, é o voto útil: eleitores de Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema teriam migrado para Flávio Bolsonaro no último fim de semana (MATAIS, 2026). A segunda é a mudança de decisão de última hora entre eleitores indecisos. A terceira é o erro amostral ou de ponderação, que afeta de modo desigual segmentos do eleitorado mais difíceis de alcançar. A quarta é a falsificação de preferências.

O economista Timur Kuran demonstrou que, em ambientes nos quais a expressão de determinadas preferências envolve custo social, os indivíduos tendem a declarar publicamente posições diferentes das que mantêm em privado (KURAN, 1995). O padrão observado em 4 de outubro, com acerto na votação de um candidato e subestimação do outro, é compatível com esse mecanismo. É igualmente compatível, contudo, com as três explicações anteriores, e nenhum dado disponível permite, por ora, distinguir entre elas.

A hipótese de Kuran merece, portanto, figurar como explicação concorrente, e não como demonstração de um eleitorado oculto. Sua relevância está em lembrar que aquilo que o cidadão declara a um entrevistador e aquilo que decide na urna nem sempre coincidem.

Friedrich Hayek advertia contra a pretensão de conhecimento: a tentação de tratar como mensurável e controlável aquilo que depende de informações dispersas, tácitas e, muitas vezes, inacessíveis ao observador externo (HAYEK, 1974). Pesquisas eleitorais são instrumentos indispensáveis. Medem, porém, aquilo que o eleitor está disposto a declarar em determinado momento.
A primeira pesquisa Datafolha do segundo turno, realizada em 6 e 7 de outubro, indicou Flávio Bolsonaro com 52% dos votos válidos e Lula com 48%, diferença no limite da margem de erro de dois pontos percentuais (GAZETA DO POVO, 2026c). A narrativa de que a reeleição era provável foi, ao menos por ora, desmentida pela realidade.

O que os preços disseram

Se as pesquisas registram o que o eleitor declara, os preços registram o que os agentes econômicos estão dispostos a arriscar. No pregão de 5 de outubro, o Ibovespa encerrou próximo de 206,9 mil pontos, depois de alcançar a máxima de 209,6 mil pontos, com volume negociado superior a R$ 100 bilhões. O dólar recuou de cerca de R$ 5,21 para R$ 5,00 (INFOMONEY, 2026). Na sexta-feira seguinte, o índice fechou em 209.067 pontos, e o dólar, em R$ 4,985 (PORTAL DE PREFEITURA, 2026). O movimento não se desfez nos dias posteriores.

Friedrich Hayek demonstrou que o sistema de preços funciona como um mecanismo de transmissão de conhecimento (HAYEK, 1945). Nenhum indivíduo isolado reúne as informações necessárias para avaliar o significado de um acontecimento, mas decisões descentralizadas, ao se refletirem nos preços, sintetizam conhecimentos que nenhuma autoridade central seria capaz de reunir.

Convém, porém, delimitar o alcance dessa ideia. Preços financeiros sintetizam não apenas avaliações sobre o futuro, mas também posições previamente montadas, necessidades de proteção, alavancagem, liquidez e o encerramento de apostas defensivas feitas antes da eleição. Parte da alta de 5 de outubro, por exemplo, refletiu o retorno do capital estrangeiro, como observou Rafael Pastorello, do Banco Sofisa (INFOMONEY, 2026).

A própria tradição austríaca oferece o limite necessário. Ludwig Lachmann sustentava que as expectativas são subjetivas, divergentes entre os agentes e permanentemente revistas à luz de novas informações, de modo que os preços de mercado não expressam um conhecimento seguro do futuro, mas o estado provisório de avaliações em conflito (LACHMANN, 1976). Israel Kirzner, por outro lado, mostrou que o mercado é um processo de descoberta: os agentes erram, percebem os próprios erros e os corrigem (KIRZNER, 2012).

Disso decorre uma conclusão importante para este artigo. O mercado não é infalível, e a teoria liberal dos preços não exige que o seja. Os preços de 5 de outubro contêm informação valiosa porque resultam de avaliações feitas por quem arrisca capital. Não constituem, entretanto, um plebiscito sobre o interesse social nem uma previsão garantida.

Mais revelador do que a intensidade do movimento é a sua composição. O contrato de juros futuros com vencimento em janeiro de 2027 recuou apenas 0,12 ponto percentual na abertura. Os contratos de vencimento mais longo, entre 2029 e 2035, recuaram cerca de 0,9 ponto percentual (INFOMONEY, 2026). A diferença é compatível com uma redução do prêmio de risco fiscal. Os juros de curto prazo refletem sobretudo as expectativas sobre a política monetária dos próximos meses. Os juros longos incorporam expectativas de inflação e de política monetária, juros internacionais, prêmio de prazo, liquidez e riscos políticos. Entre esses componentes, a trajetória fiscal é um dos determinantes centrais, especialmente em um país cuja dívida bruta alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto de 2026 (FELICIO, 2026).

Analistas do JPMorgan associaram o movimento à maior probabilidade de uma política orientada à consolidação fiscal, coerente com o achatamento da curva de juros e com a redução dos prêmios de risco (DUARTE, 2026). O Citi interpretou a reação como sinal de maior confiança em políticas favoráveis ao mercado e fiscalmente conservadoras (INFOMONEY, 2026).
Em síntese, o mercado precificou maior probabilidade de um regime fiscal considerado mais favorável. Os preços não substituem o voto, mas indicam o que os agentes econômicos esperam que o voto possa produzir.

O mercado não vota, mas precifica

A reação dos mercados costuma despertar uma objeção recorrente: o mercado financeiro representaria os interesses de uma minoria, e sua euforia nada diria sobre o bem-estar da maioria da população. Essa objeção contém um elemento válido. Investidores possuem interesses próprios, e a valorização de ativos não constitui mandato democrático. Entretanto, a objeção incorre em um equívoco que Frédéric Bastiat descreveu com precisão há mais de um século e meio. Bastiat distinguia entre o que se vê e o que não se vê: os efeitos imediatos e visíveis de um acontecimento e os efeitos indiretos, dispersos e frequentemente mais importantes (BASTIAT, 2010).

O que se vê, no dia 5 de outubro, é o ganho dos investidores. O que não se vê são os canais pelos quais câmbio e juros alcançam o restante da economia. Um dólar mais baixo tende a reduzir o custo do trigo, dos fertilizantes, dos combustíveis, dos medicamentos, das peças industriais e de todos os bens que dependem de insumos importados, aliviando a pressão sobre os preços que pesam mais no orçamento das famílias de menor renda.

A queda dos juros longos abre outro canal. Se mantida, poderá reduzir gradualmente o custo do financiamento imobiliário, do crédito às empresas e da emissão de nova dívida pública. Esses efeitos não são imediatos: a prestação já contratada não muda no dia seguinte, e a dívida pública anteriormente emitida continua a pagar as taxas da época em que foi vendida. O benefício depende de que a redução se sustente no tempo.

Ludwig von Mises demonstrou que as alterações no valor da moeda não se propagam de forma uniforme nem simultânea pela economia, beneficiando alguns grupos e prejudicando outros conforme a posição de cada um na cadeia de trocas, fenômeno identificado originalmente por Richard Cantillon (MISES, 1981). A lição vale nos dois sentidos. Assim como a desvalorização do real transfere renda de quem vive de salário para quem possui ativos protegidos, a sua valorização tende a devolver poder de compra a quem não tem meios de dolarizar o patrimônio.

Há, contudo, contrapartidas que não devem ser omitidas. O câmbio mais valorizado reduz a receita em reais dos exportadores e a competitividade de setores que concorrem com produtos importados, o que pode afetar emprego e investimento nessas atividades. O resultado líquido para os trabalhadores dependerá do equilíbrio entre esses canais, e não pode ser dado como conhecido de antemão.

Como se sustentou no artigo anterior, a inflação funciona, na prática, como uma forma de tributação não autorizada, cujos efeitos recaem com maior intensidade sobre os assalariados e os aposentados (SOUSA, 2026). A estabilidade da moeda é, por consequência, uma política social, ainda que raramente seja apresentada dessa forma.

Para o setor produtivo, o ganho mais relevante não é apenas o nível do câmbio, mas a sua previsibilidade. O empresário que não sabe quanto custará sua matéria-prima no trimestre seguinte adia investimentos, contratações e expansões. A redução do risco percebido devolve ao empreendedor a capacidade de planejar. O mercado não vota, mas o preço que ele forma chega, mais cedo ou mais tarde, à mesa de quem vota.

A aritmética da confiança

Ludwig von Mises demonstrou que toda ação econômica é orientada para um futuro incerto e que o empreendedor é, em essência, alguém que avalia condições que ainda não existem e age com base nessa avaliação (MISES, 2010). Os preços de hoje são julgamentos sobre o amanhã. A pergunta decisiva é se o julgamento de 5 de outubro possui fundamento.

Thomas Sargent, ao estudar o fim de quatro hiperinflações europeias no século XX, mostrou que as expectativas podem mudar rapidamente quando os agentes passam a acreditar em uma mudança efetiva do regime fiscal, sustentada por compromissos institucionais (SARGENT, 1982). A credibilidade, porém, não nasce de intenções. Nasce de regras e de números que fecham.
O programa de governo de Flávio Bolsonaro, intitulado Para o Brasil Vencer o Atraso, aponta na direção correta. Propõe a extinção de ao menos dez ministérios, a redução de cargos comissionados, a retomada do programa de desestatização, a revisão da reforma tributária para reduzir exceções, a eliminação gradual do IOF, a geração de superávits primários e a estabilização da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (FORBES BRASIL, 2026). A coordenação econômica da campanha está a cargo de Adolfo Sachsida, com participação de Daniella Marques, ambos com experiência no governo anterior (JUNQUEIRA, 2026; REUTERS, 2026c).

Eugen von Böhm-Bawerk demonstrou, em ensaio clássico, que o poder político não é capaz de revogar as leis econômicas: pode deslocar custos no tempo e entre grupos, mas não pode fazê-los desaparecer (BÖHM-BAWERK, 1962). A agenda fiscal de qualquer governo está sujeita a essa restrição. Por isso, a direção do programa precisa ser confrontada com a sua aritmética.

O ponto de partida é exigente. A dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto de 2026, e as despesas obrigatórias correspondem a cerca de 92% do limite de despesas primárias previsto para 2027 (FELICIO, 2026). A Instituição Fiscal Independente projeta déficit primário de R$ 86,1 bilhões para 2027, enquanto o governo projeta superávit de R$ 18,6 bilhões (FELICIO, 2026).

Em coluna publicada na Reuters Breakingviews no dia seguinte à votação, Sebastian Pellejero reconheceu as razões do otimismo dos investidores, mas qualificou de miragem fiscal a expectativa de que o ajuste prometido seja suficiente diante da rigidez do orçamento brasileiro (PELLEJERO, 2026). O argumento merece resposta e não apenas discordância. Os números disponíveis permitem formulá-la. Os cortes discutidos pela campanha somariam até R$ 200 bilhões no primeiro ano, cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto, pouco acima do déficit estrutural estimado em 1,4% (VIEIRA, 2026). Estimativas divulgadas posteriormente pela imprensa, não confirmadas pela campanha, mencionam medidas de contenção de despesas obrigatórias capazes de gerar R$ 250 bilhões, o equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (REUTERS, 2026c).

O superávit primário necessário para estabilizar a dívida depende, contudo, da taxa de juros real. Com crescimento econômico de 2% ao ano e juros reais próximos de 7%, seria necessário um superávit de aproximadamente 3,25% do Produto Interno Bruto. Com juros reais entre 4% e 5%, a exigência cairia para algo entre 1,6% e 2,5%. Com juros reais de 3%, patamar observado no período de Michel Temer, bastaria cerca de 0,8% (VIEIRA, 2026).

A conclusão é dupla. Um ajuste entre 1,5% e 2% do Produto Interno Bruto, por si só, seria insuficiente para estabilizar a dívida com os juros reais atuais, e nesse ponto a crítica de Pellejero procede. Entretanto, o mesmo ajuste poderá tornar-se suficiente se a credibilidade conquistada reduzir os juros reais, porque a confiança diminui o tamanho do esforço necessário. A redução observada nos juros longos em 5 de outubro é precisamente o primeiro sinal desse mecanismo.

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Há, porém, uma condição temporal. No governo Temer, a queda dos juros reais levou de dois a três anos para se consolidar (VIEIRA, 2026). E o mecanismo só funciona se o ajuste for crível desde o início. Também há tensões no próprio programa. Em 8 de outubro, Flávio Bolsonaro comprometeu-se a manter reajustes de aposentadorias acima da inflação, e a coordenação da campanha reafirmou a intenção de preservar todos os programas sociais e reduzir tributos (REUTERS, 2026c). Cada um desses compromissos pode ser defensável isoladamente. Somados, ampliam o esforço de corte exigido nas demais despesas.

Douglass North demonstrou que o desenvolvimento depende de instituições capazes de tornar críveis os compromissos do poder político, limitando sua discricionariedade (NORTH, 1990). O governo que instituiu o arcabouço fiscal multiplicou as exceções às suas próprias regras. A oportunidade que se abre é substituir a lógica das exceções pela lógica das regras, mas essa substituição exige que o novo governo apresente metas quantificadas, cronograma de cortes e regras de desindexação capazes de sobreviver às pressões do calendário político.

Um governo liberal não pede um cheque em branco. Apresenta a conta e demonstra como ela fecha. Se o fizer, terá razões concretas para esperar que o crédito concedido pelo mercado seja confirmado.

O Congresso de 2027 e a oportunidade das reformas

A composição da Câmara dos Deputados eleita em 4 de outubro confirmou a projeção de crescimento do Partido Liberal apresentada por Arruda (2026). O PL passou de 99 para 121 deputados. A federação liderada pelo Partido dos Trabalhadores elegeu 88; a federação formada por União Brasil e Progressistas, 87; o PSD, 44; o Republicanos, 40; e o MDB, 36 (CORREIO DA MANHÃ, 2026).

Nenhum partido havia obtido bancada tão numerosa desde a promulgação da Constituição de 1988. No Senado, o PL deverá contar com 28 das 81 cadeiras, também a maior representação da Casa (CORREIO DA MANHÃ, 2026). Nenhum partido possui, isoladamente, maioria. A aprovação de uma emenda constitucional exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos. As forças tradicionalmente associadas ao centro, isto é, a federação União Brasil e Progressistas, o PSD, o Republicanos e o MDB, somam 207 deputados.

O dado mais relevante dos dias seguintes à eleição foi o movimento dessas forças. Em 6 de outubro, as executivas nacionais do Progressistas e do União Brasil declararam, por unanimidade, apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, sendo as primeiras legendas da base do atual governo a abandonar a neutralidade (CONGRESSO EM FOCO, 2026). Somadas ao PL, as duas legendas reúnem 208 deputados.

Apoio eleitoral, contudo, não equivale a adesão programática. James Buchanan e Gordon Tullock demonstraram que os agentes políticos respondem a incentivos e que as decisões coletivas resultam de negociações entre interesses e não da simples agregação de preferências ideológicas (BUCHANAN; TULLOCK, 1999). Parlamentares que apoiam um candidato no segundo turno não estão, por isso, comprometidos com cortes que atinjam suas emendas ou suas bases regionais.

Essa constatação, frequentemente invocada para explicar a dificuldade das reformas, pode também explicar sua viabilidade. Um presidente eleito com a maior bancada partidária desde 1988, com apoio formal de parte do centro e em ambiente econômico favorável, dispõe de instrumentos e incentivos relevantes para negociar com o Congresso. Na interpretação deste artigo, esse é um ponto de partida mais sólido do que o de qualquer governo recente, embora a conversão de apoio eleitoral em votos para reformas constitucionais permaneça a etapa mais difícil.

Caso Lula seja reeleito, deverá governar com um Congresso mais conservador, no qual parte de sua antiga base já declarou apoio ao adversário. O custo de formação de maiorias tende a ser ainda mais elevado. Bancada não é base. Mas é o ponto de partida para construí-la.

Minas Gerais, abstenção e o segundo turno

No artigo anterior, sustentou-se a hipótese de que Minas Gerais exerceria papel determinante na eleição por reunir em seu território uma representação aproximada da diversidade brasileira (SOUSA, 2026). O primeiro turno ofereceu indícios favoráveis a essa leitura. Flávio Bolsonaro venceu no estado, que havia dado maioria a Lula em 2022 (GAZETA DO POVO, 2026a). Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito governador ainda no primeiro turno, com 55,40% dos votos válidos, contra 26,34% de Patrus Ananias (PT). Para o Senado, os mineiros elegeram Domingos Sávio (PL), com 24,21%, e Marília Campos (PT), com 19,44% (TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE MINAS GERAIS, 2026).

A eleição de senadores de campos opostos indica que o eleitor mineiro não se alinhou integralmente a nenhum dos polos. Ainda assim, deu vitória à direita tanto na disputa presidencial quanto na estadual. Historicamente, o candidato vitorioso em Minas tem coincidido com o vencedor nacional, o que torna o resultado no estado um sinal relevante para o segundo turno.

O segundo turno exigirá atenção a um eleitorado que ainda não se manifestou. A abstenção alcançou 21,08% do eleitorado, o equivalente a mais de 33 milhões de pessoas. Somados os votos brancos e nulos, cerca de 39,4 milhões de eleitores não escolheram nenhum candidato (CIDADE DE NITERÓI, 2026). Não é possível saber como votariam. Na leitura deste artigo, contudo, esse contingente representa a principal oportunidade da direita nas próximas semanas, hipótese já formulada no texto anterior (SOUSA, 2026).

O quadro de apoios também se alterou. Ronaldo Caiado e Romeu Zema anunciaram apoio a Flávio Bolsonaro já em 5 de outubro; Zema declarou que não ficaria em cima do muro, e Caiado formalizou a decisão no dia seguinte (REUTERS, 2026b). Augusto Cury afirmou que permaneceria em silêncio, e Renan Santos recusou-se a orientar seus eleitores (JORNAL GRANDE BAHIA, 2026).

A adesão de Caiado e Zema não transfere votos automaticamente, mas confirma a tendência de reagrupamento da centro-direita observada no próprio primeiro turno. Karl Popper sustentava que a principal virtude da democracia reside em permitir que os governantes sejam substituídos sem derramamento de sangue (POPPER, 1974). A alternância no poder, quando conduzida pelo voto e pelo respeito às instituições, é a expressão mais legítima da soberania popular, e o compromisso liberal com ela não depende de quem vença em 25 de outubro.

O primeiro turno colocou a direita na frente. O segundo dirá se essa vantagem se confirma.

Por que o mercado antecipa dias melhores

Reunidos os elementos discutidos até aqui, é possível sustentar que o primeiro turno de 2026 revelou duas realidades convergentes. A primeira é eleitoral: a direita chega ao segundo turno na liderança, com vitória em estados decisivos, a maior bancada partidária desde 1988 e o apoio de parte expressiva do centro. A segunda é econômica: a maior probabilidade de uma mudança no regime fiscal foi suficiente para reduzir o dólar, os juros longos e o custo do capital, e esse movimento se sustentou ao longo da semana.

A segunda realidade é, talvez, a mais importante. Ela sugere que parte relevante dos juros elevados e do câmbio pressionado que o Brasil enfrenta decorre da desconfiança sobre as escolhas fiscais do próprio Estado e não apenas de fatores externos. A reação de 5 de outubro mostrou quanto o país pode ganhar com a credibilidade. A aritmética da seção anterior mostrou quanto ainda falta para conquistá-la.

Se a credibilidade se confirmar em regras, metas e cortes efetivos, o círculo pode tornar-se virtuoso: juros reais menores reduzem o superávit necessário, o que torna o ajuste mais factível, o que reforça a credibilidade. O que o mercado antecipou em um dia é a possibilidade desse círculo e não a sua garantia.

Defender a responsabilidade fiscal não equivale a obedecer ao mercado. Significa reconhecer que juros e inflação elevados são a forma mais regressiva de financiar o Estado. Celebrar a queda do dólar não equivale a celebrar o lucro de poucos. Significa reconhecer que a moeda estável protege justamente quem não possui meios de se proteger. Cobrar números do próprio campo não equivale a enfraquecê-lo. Significa transformar a confiança do mercado em credibilidade duradoura.

Defender a alternância no poder não equivale a desprezar as instituições. Significa confiar nelas como instrumento legítimo da vontade popular. Em síntese, a reação de 5 de outubro não foi uma euforia sem causa. Foi um prenúncio do país que pode surgir quando a confiança substitui a desconfiança, desde que a confiança seja sustentada por números.

Considerações finais

O primeiro turno das eleições de 2026 contrariou as pesquisas, inverteu a posição dos candidatos em relação a 2022 e produziu uma das reações mais intensas do mercado financeiro brasileiro nos últimos anos. Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos, o apoio de parte do centro político e a liderança na primeira pesquisa Datafolha da nova etapa (EXAME, 2026; CONGRESSO EM FOCO, 2026; GAZETA DO POVO, 2026c).

A valorização da bolsa, a queda do dólar e a redução dos juros longos indicaram que o mercado passou a atribuir maior probabilidade a um regime fiscal considerado mais favorável. Os preços contêm informação valiosa, mas não são infalíveis, e a própria tradição austríaca ensina que expectativas são revistas e erros são corrigidos.

O benefício dessa reação para o cidadão comum existe, mas depende de canais que precisam de tempo e de continuidade: o dólar mais baixo pode aliviar o preço de alimentos, combustíveis e medicamentos; os juros menores podem tornar o crédito mais acessível; e um Estado financiado a custo menor pode transferir menos recursos do contribuinte para o pagamento de juros.

Caberá à direita transformar o prenúncio em realidade. Será necessário mobilizar os eleitores que não compareceram às urnas, consolidar o apoio recebido e, sobretudo, apresentar a aritmética que o programa ainda não explicitou: quanto cortar, onde cortar, em que prazo e com quais regras. A crítica de que o ajuste anunciado seria insuficiente só será respondida de forma definitiva por números.

Retoma-se, ao final, a hipótese que orientou este artigo: a reação positiva do mercado constitui um prenúncio dos benefícios que uma mudança no regime fiscal poderá produzir, e a direita reúne condições eleitorais, parlamentares e econômicas favoráveis para realizá-la, desde que converta promessas em compromissos verificáveis.

A decisão final pertence ao eleitor, e nenhum resultado está assegurado antes de 25 de outubro. Entretanto, os sinais emitidos pelas urnas e pelos preços apontam na mesma direção: há no país disposição para mudar e há na economia disposição para recompensar essa mudança, se ela vier acompanhada de responsabilidade. O mercado comprou uma expectativa. Há boas razões para acreditar que ela poderá ser confirmada, se a política souber pagar o preço que a credibilidade exige.

Referências

ARRUDA, Juan Carlos. Análise do cenário político e eleitoral brasileiro para 2026. Palestra proferida no Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte (IFL-BH), Belo Horizonte, 17 ago. 2026.
BASTIAT, Frédéric. O que se vê e o que não se vê. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
BÖHM-BAWERK, Eugen von. Control or economic law? In: BÖHM-BAWERK, Eugen von. Shorter classics of Eugen von Böhm-Bawerk. South Holland: Libertarian Press, 1962. v. 1.
BUCHANAN, James M.; TULLOCK, Gordon. The calculus of consent: logical foundations of constitutional democracy. Indianapolis: Liberty Fund, 1999.
CIDADE DE NITERÓI. Abstenções, brancos e nulos somam 39,4 milhões na eleição presidencial de 2026. Cidade de Niterói, Niterói, out. 2026. Disponível em: https://cidadedeniteroi.com/politica/abstencoes-brancos-e-nulos-somam-394-milhoes-na-eleicao-presidencial-de-2026/. Acesso em: 5 out. 2026.
CONGRESSO EM FOCO. PP e União Brasil declaram apoio a Flávio no segundo turno. Congresso em Foco, Brasília, 6 out. 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/123048/pp-e-uniao-brasil-declaram-apoio-a-flavio-no-segundo-turno. Acesso em: 13 out. 2026.
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*Elias Lopes é empresário, administrador de empresas, CEO da Target Mecânica e associado ao IFL-BH. Atua nos setores industrial e de investimentos, com foco em estratégia, gestão e desenvolvimento de negócios.

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