Contra o chamado da tribo: o que os mestres liberais de Mario Vargas Llosa ensinam sobre a liberdade
Introdução
Poucos escritores do século XX viveram tão intensamente as paixões políticas de seu tempo quanto Mario Vargas Llosa. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, e morto em 2025, o romancista foi na juventude entusiasta da Revolução Cubana e leitor fervoroso de Jean-Paul Sartre. Décadas depois, tornou-se um dos defensores mais conhecidos do liberalismo no mundo de língua espanhola.
O chamado da tribo, publicado na Espanha em 2018 e lançado no Brasil no ano seguinte, é o relato dessa mudança (VARGAS LLOSA, 2019). O livro não se apresenta como tratado de filosofia política. É uma espécie de autobiografia intelectual, construída a partir dos sete pensadores que ajudaram o autor a abandonar o marxismo e a formular uma nova visão do indivíduo, da sociedade e do Estado.
O título condensa a ideia que percorre toda a obra. Vargas Llosa toma de Karl Popper a ideia de que o ser humano conserva uma nostalgia da tribo, isto é, da sociedade fechada em que cada um tem seu lugar definido, as decisões são tomadas pelo chefe ou pela tradição e o indivíduo se dissolve no grupo. Esse chamado, porém, nunca desaparece inteiramente. Ressurge no nacionalismo, no fanatismo religioso, nas ideologias que prometem o paraíso na Terra e nos caudilhos que oferecem certezas em troca de obediência.
À primeira vista, o livro poderia ser lido apenas como galeria de retratos intelectuais, útil para quem deseja uma introdução aos autores liberais. Essa leitura, porém, me parece insuficiente. Cada um dos sete pensadores ilumina uma dimensão da liberdade. Reunidas, essas perspectivas permitem compreender o liberalismo como tradição plural, cujos autores divergem entre si, mas compartilham a defesa do indivíduo diante da tribo, da nação, da classe ou do partido.
Por isso, este artigo não reconstrói os autores na forma de verbetes sucessivos. Em cada seção, pergunta-se que aspecto da liberdade o pensador acrescenta à visão de Vargas Llosa e que risco esse aspecto ajuda a identificar, inclusive dentro do próprio campo liberal. Defendo a hipótese de que o mérito central do livro está em apresentar o liberalismo como cultura de liberdade e não como simples receita econômica, e que essa distinção é decisiva para que as ideias liberais conquistem legitimidade duradoura.
Convém explicitar, desde já, uma convenção que percorre todo o texto. Quando o artigo descreve a interpretação que Vargas Llosa oferece de cada pensador, a mediação é indicada de forma expressa (“na leitura de Vargas Llosa”, “Vargas Llosa destaca”), com remissão ao livro. Quando o artigo assume diretamente a responsabilidade por uma interpretação, remete à obra original do pensador. Os juízos sobre a aplicação dessas ideias ao Brasil são do autor deste artigo e aparecem como tais.
2 Do fascínio revolucionário à descoberta da liberdade
Vargas Llosa abre o livro com o próprio percurso. Na juventude, em Lima, participou de um grupo de estudos marxistas e acreditou que o socialismo seria o caminho para superar a injustiça e o atraso da América Latina. O afastamento foi gradual e teve como marco a ruptura com o regime cubano em 1971, por ocasião do caso do poeta Heberto Padilla, preso e obrigado a uma autocrítica pública. A partir de então, o escritor passou a ser tratado como traidor por boa parte da esquerda latino-americana (VARGAS LLOSA, 2019).
A leitura dos autores examinados no livro foi, aos poucos, preenchendo o vazio deixado pelo marxismo. A experiência política também teve peso nessa mudança. Em 1990, Vargas Llosa disputou a Presidência do Peru e foi derrotado por Alberto Fujimori, que mais tarde fecharia o Congresso e governaria de forma autoritária.
Essa trajetória ajuda a compreender a passagem central da introdução do livro. Para Vargas Llosa, o liberalismo não é uma ideologia, entendida como religião laica que pretende ter resposta para tudo. É uma doutrina que admite divergências internas e se corrige diante da experiência.
O autor faz ainda uma advertência dirigida ao próprio campo. Critica os que reduzem o liberalismo à economia de mercado e se mostram dispostos a tolerar ditaduras desde que estas adotem políticas favoráveis à livre iniciativa. Para ele, a liberdade econômica e a liberdade política são inseparáveis, e um regime que abre mercados enquanto prende opositores não pode ser chamado de liberal (VARGAS LLOSA, 2019).
Essa advertência serve de fio condutor para o restante do artigo. Uma defesa da liberdade que se limita aos números da economia perde a autoridade moral para criticar o autoritarismo de quem pensa diferente. A tolerância seletiva com regimes autoritários, quando estes são simpáticos a determinadas políticas econômicas, é a primeira forma pela qual o chamado da tribo se manifesta dentro do próprio liberalismo.
Adam Smith: a liberdade como cooperação sob regras
Adam Smith introduz a primeira dimensão da liberdade examinada aqui. Vargas Llosa insiste num ponto frequentemente esquecido: antes de escrever A riqueza das nações, de 1776, Smith foi professor de filosofia moral e autor de A teoria dos sentimentos morais, de 1759. Na leitura de Vargas Llosa, isso basta para afastar a caricatura de Smith como apologista da cobiça (VARGAS LLOSA, 2019).
Na obra de 1759, Smith descreveu a simpatia como a capacidade de se colocar no lugar do outro e imaginou um espectador imparcial, interno a cada consciência, que julga a própria conduta (SMITH, 1999). Nessa perspectiva, o interesse próprio nunca atua isoladamente. Opera dentro de instituições, normas de justiça e limites morais que tornam possível a confiança entre desconhecidos.
É a partir desse quadro que deve ser lida a célebre imagem da mão invisível. Ela não constitui garantia universal de que todo interesse privado produz benefício social. Descreve, antes, uma coordenação não planejada capaz de gerar benefícios recíprocos quando as trocas são voluntárias e as regras de justiça são respeitadas. Retirado esse quadro institucional, o mesmo interesse próprio pode se converter em fraude, em conluio ou na busca de favores do Estado.
Vargas Llosa destaca, aliás, que Smith desconfiava dos comerciantes que se reuniam para combinar preços e obter privilégios. Nessa leitura, o pai da economia moderna não defendia privilégios empresariais. Foi crítico deles.
O aspecto da liberdade que Smith acrescenta, portanto, é a cooperação sob regras impessoais. Disso decorre uma exigência para o campo liberal brasileiro. Em um país marcado por subsídios setoriais, reservas de mercado e proximidade entre grandes grupos econômicos e o poder público, defender o livre mercado não pode significar defender privilégios quando beneficiam aliados e condená-los apenas quando beneficiam adversários. A regra impessoal vale para todos ou deixa de ser regra e passa a ser estandarte de grupo.
José Ortega y Gasset: a liberdade como responsabilidade individual
Se Smith mostra que a liberdade depende de regras compartilhadas, Ortega y Gasset mostra que ela depende também de um certo tipo de indivíduo. Vargas Llosa considera o filósofo espanhol um dos pensadores mais inteligentes e elegantes da língua espanhola, e lamenta que tenha sido tratado como figura menor no mundo hispânico (VARGAS LLOSA, 2019).
Na leitura de Vargas Llosa, a contribuição central de A rebelião das massas, de 1930, é a descrição do homem-massa. A expressão não designa uma classe social, mas um tipo humano encontrável em qualquer camada da sociedade: aquele que se sente plenamente satisfeito consigo mesmo não reconhece nenhuma instância superior a seus desejos e exige direitos sem admitir deveres. Para Ortega, esse tipo humano seria terreno fértil para os movimentos totalitários que então se formavam na Europa.
O aspecto da liberdade que Ortega acrescenta é a responsabilidade individual. A sociedade livre não se sustenta apenas com boas instituições. Exige pessoas dispostas a pensar por conta própria, a reconhecer o próprio erro e a aceitar que seus desejos encontram limites nos direitos dos outros.
A lição ultrapassa o contexto em que foi formulada. Em tempos de redes sociais, a satisfação com as próprias certezas encontrou instrumentos de difusão que o filósofo não poderia imaginar. Nenhum campo político está imune a esse fenômeno. Também entre liberais, a adesão a um líder pode substituir a reflexão, e a pertença ao grupo pode dispensar o esforço de julgar cada questão pelos próprios méritos. Quando isso ocorre, o culto ao líder ocupa o lugar que deveria pertencer às ideias.
Friedrich Hayek: a liberdade como reconhecimento dos limites do conhecimento
Hayek ocupa lugar central no livro e é o ponto em que a visão de Vargas Llosa mais se aproxima da Escola Austríaca. Vargas Llosa o apresenta como o pensador que mais radicalmente defendeu a liberdade econômica no século XX e acompanha sua longa oposição ao planejamento centralizado, que lhe custou anos de isolamento intelectual antes do Prêmio Nobel de Economia, recebido em 1974 (VARGAS LLOSA, 2019).
Convém, porém, formular o argumento de Hayek com precisão. Em O caminho da servidão, de 1944, Hayek não sustentou que todo planejamento conduz de modo inevitável à tirania. Sustentou que o planejamento econômico abrangente cria pressões e incentivos que ameaçam a liberdade, pois exige concentrar decisões que nenhuma maioria democrática consegue tomar por consenso, e tende a transferir poder para quem se dispõe a impor uma única hierarquia de fins (HAYEK, 2010). Trata-se de uma tendência, e não de uma lei histórica.
O fundamento desse argumento está no problema do conhecimento. Hayek demonstrou que o conhecimento relevante para a vida econômica está disperso entre milhões de pessoas, em circunstâncias particulares de tempo e lugar, e que o sistema de preços permite coordenar esse conhecimento sem que alguém precise reuni-lo por inteiro (HAYEK, 1945). Antes dele, Ludwig von Mises havia mostrado que, sem preços de mercado formados a partir da propriedade e da troca, o cálculo econômico racional se torna impossível (MISES, 2010). Israel Kirzner completou essa tradição ao descrever o mercado como processo de descoberta, no qual erros são percebidos e corrigidos pela ação empresarial (KIRZNER, 2012).
Daí deriva a ideia de ordem espontânea. Instituições como a linguagem, o direito, a moeda e o mercado, em seus elementos centrais, não resultaram de um único desenho deliberado e incorporam conhecimento que excede a capacidade de qualquer planejador. Isso não equivale a que nelas não haja nada de deliberado. Na história concreta, elementos espontâneos e decisões conscientes frequentemente convivem. O ponto de Hayek é que a pretensão de substituir integralmente essas ordens por um projeto racional constitui o que ele chamou de presunção fatal.
O aspecto da liberdade que Hayek acrescenta é a humildade epistêmica. Essa lição não se dirige apenas aos adversários do mercado. Também liberais podem ceder à tentação de reformas concebidas como engenharia social de sinal trocado, desenhadas no gabinete e indiferentes aos incentivos reais das pessoas. No Brasil, onde mudanças institucionais costumam ser anunciadas como soluções definitivas, reformar com prudência não equivale a deixar de reformar. Significa reconhecer os limites do conhecimento de quem reforma, inclusive quando quem reforma pertence ao próprio campo.
Karl Popper: a liberdade como possibilidade de corrigir erros
Karl Popper é o autor que dá nome ao livro. Vargas Llosa o considera o maior filósofo da liberdade do século XX e reconhece nele a fonte da ideia que organiza toda a obra (VARGAS LLOSA, 2019).
Em A sociedade aberta e seus inimigos, de 1945, Popper examinou as raízes intelectuais do totalitarismo e identificou nelas o historicismo, isto é, a crença de que a história obedece a leis que podem ser conhecidas e de que esse conhecimento autoriza alguém a conduzir a sociedade ao seu destino (POPPER, 1945). Contra essa pretensão, propôs a sociedade aberta, na qual nenhuma verdade política é definitiva, as instituições podem ser criticadas e os governantes podem ser substituídos sem violência.
Popper observou também que a passagem da sociedade fechada para a aberta impõe ao indivíduo um peso: o de decidir por si mesmo, assumir responsabilidades e conviver com a incerteza. A nostalgia da tribo, em que tudo estava decidido, nunca desaparece por completo, e os movimentos que prometem devolver essa segurança encontram sempre ouvintes dispostos.
A expressão “chamado da tribo” não constitui definição técnica, mas analogia que traduz um fenômeno recorrente: a disposição de trocar a liberdade pela sensação de pertencimento e de proteção. Esse fenômeno não é restrito a um campo político. Pode ser ouvido à esquerda e à direita, e também entre os que se declaram liberais.
O aspecto da liberdade que Popper acrescenta é a corrigibilidade. Uma sociedade é aberta não porque acerta sempre, mas porque dispõe de meios para reconhecer e corrigir seus erros. Disso decorre uma exigência de coerência. Quem defende a sociedade aberta não pode aceitar ataques à imprensa, aos tribunais ou à alternância de poder apenas porque partem de aliados. A tolerância seletiva com o autoritarismo, mencionada na advertência de Vargas Llosa, é justamente a recusa de aplicar ao próprio grupo o critério que se aplica aos outros.
Raymond Aron: a liberdade como lucidez diante das paixões políticas
Se Popper oferece o critério, Raymond Aron oferece o exemplo de conduta. Vargas Llosa narra o contraste entre Aron e Sartre, colegas de juventude que seguiram caminhos opostos. Enquanto Sartre se tornava o intelectual mais celebrado da França e oscilava entre o apoio ao comunismo e a exaltação das revoluções, Aron analisava os fatos com sobriedade, defendia a democracia liberal e denunciava os crimes do totalitarismo soviético (VARGAS LLOSA, 2019).
A diferença de tratamento entre os dois tornou-se proverbial. Circulava em Paris a frase segundo a qual era preferível errar com Sartre a acertar com Aron. Vargas Llosa admite que, na juventude, pertenceu ao grupo que pensava assim.
Na leitura de Vargas Llosa, O ópio dos intelectuais, de 1955, explica por que tantos homens cultos aderiam a uma doutrina que justificava a supressão das liberdades: o marxismo funcionava como religião secular, que oferecia uma explicação total da história e um lugar de destaque para quem a professava.
O aspecto da liberdade que Aron acrescenta é a lucidez. A frase sobre Sartre e Aron resume, na verdade, o próprio chamado da tribo: preferir o erro compartilhado com os seus ao acerto solitário. Esse mecanismo não pertence a uma época nem a uma corrente. Sempre que um grupo político prefere defender um aliado que errou a reconhecer a razão de um adversário, repete a lógica que Aron combateu. A firmeza das convicções não exige agressividade, e a moderação no tom não equivale a fraqueza nos princípios.
Isaiah Berlin: a liberdade como convivência entre valores em conflito
Isaiah Berlin acrescenta à visão de Vargas Llosa uma dimensão que protege o liberalismo de seus próprios excessos. Vargas Llosa o descreve como pensador de extraordinária erudição, que preferia o ensaio ao tratado e a conversa à doutrina (VARGAS LLOSA, 2019).
Em conferência proferida em Oxford em 1958, Berlin distinguiu a liberdade negativa, entendida como ausência de coerção, da liberdade positiva, entendida como autogoverno (BERLIN, 2002). Reconhecia valor em ambas, mas advertia que a segunda, levada ao extremo, pode justificar a opressão: em nome de um suposto eu verdadeiro e esclarecido, governos e partidos passam a decidir o que as pessoas deveriam querer.
A outra grande tese de Berlin é o pluralismo dos valores. Liberdade, igualdade, justiça, segurança e misericórdia são valores autênticos, mas nem sempre compatíveis entre si, e não existe fórmula capaz de harmonizá-los de uma vez por todas. As sociedades livres são aquelas que aceitam esse conflito e o administram por meio de compromissos, em vez de sacrificar todos os valores a um único.
O aspecto da liberdade que Berlin acrescenta é a convivência com o desacordo. A lição vale também para os liberais. A própria liberdade, quando transformada em doutrina total e aplicada sem atenção a outros valores legítimos, corre o risco de se tornar um novo dogma, e o liberal que se recusa a reconhecer qualquer mérito no argumento alheio já começou a responder ao chamado da tribo.
Jean-François Revel: a liberdade como compromisso com a verdade
O último pensador examinado é Jean-François Revel, filósofo de formação e jornalista por vocação, a quem Vargas Llosa esteve ligado por longa amizade. Vargas Llosa admira nele sobretudo a independência: Revel criticou a esquerda francesa, mas também a direita, e manteve desconfiança constante em relação a qualquer poder que pretendesse controlar a informação (VARGAS LLOSA, 2019).
Na leitura de Vargas Llosa, a obra central de Revel para o argumento do livro é O conhecimento inútil, de 1988. Revel sustentou ali que a força que mais move o mundo contemporâneo não é a ignorância, mas a mentira: mesmo quando a informação verdadeira está disponível, muitas pessoas preferem as versões que confirmam suas crenças.
A tese ganhou, nas últimas décadas, uma atualidade que o próprio Revel talvez não previsse. A abundância de informação não produziu automaticamente cidadãos mais bem informados. Produziu, em muitos casos, bolhas em que cada grupo consome apenas aquilo que reforça suas certezas.
O aspecto da liberdade que Revel acrescenta é o compromisso com a verdade. Sem ele, os demais se desfazem, pois não há correção de erros, nem descoberta de mercado, nem debate plural quando os fatos deixam de importar. Também os liberais precisam se perguntar se procuram os fatos ou apenas os argumentos que lhes convêm. A desinformação conveniente, compartilhada porque favorece o próprio lado, é tão incompatível com a sociedade aberta quanto a censura.
Por que resistir ao chamado da tribo
Reunidos os elementos discutidos até aqui, é possível comparar o que cada pensador acrescenta à visão de Vargas Llosa. Smith oferece a cooperação sob regras impessoais; Ortega, a responsabilidade individual; Hayek, a humildade diante dos limites do conhecimento; Popper, a corrigibilidade das instituições; Aron, a lucidez diante das paixões de grupo; Berlin, a convivência com valores em conflito; Revel, o compromisso com a verdade.
Essas dimensões não são independentes. A ordem espontânea de Hayek só funciona sob as regras de justiça que Smith pressupunha. A sociedade aberta de Popper depende da disposição individual que Ortega exigia e da honestidade intelectual que Aron e Revel praticaram. O pluralismo de Berlin impede que qualquer uma delas seja convertida em dogma. O que une os sete autores, segundo Vargas Llosa, é a convicção de que o indivíduo não deve ser sacrificado a nenhuma entidade coletiva, por mais nobre que pareça (VARGAS LLOSA, 2019).
A mesma comparação revela as formas pelas quais o chamado da tribo pode alcançar o próprio liberalismo: a defesa de privilégios quando beneficiam aliados, o culto a líderes, a engenharia social de sinal trocado, a tolerância seletiva com o autoritarismo, a preferência pelo erro compartilhado, a transformação da liberdade em dogma e a desinformação conveniente. Não é necessário apontar partidos ou personagens. Basta reconhecer o mecanismo.
Defender o liberalismo não equivale a defender apenas o mercado. Significa defender, ao mesmo tempo, a liberdade de empreender, de opinar, de crer e de discordar.
Defender o liberalismo não equivale a aceitar qualquer governo que adote boas políticas econômicas. Significa exigir que a liberdade econômica venha acompanhada de democracia, de imprensa livre e de limites ao poder.
Defender o liberalismo não equivale a adotar um dogma. Significa admitir que a verdade é provisória, que os erros devem ser corrigidos e que o adversário pode ter razão em algum ponto.
Defender o liberalismo não equivale a desprezar o pertencimento. Significa impedir que o pertencimento se converta em instrumento de submissão do indivíduo ao grupo.
Em síntese, o liberalismo só conquista legitimidade quando é coerente: quando defende para os adversários as mesmas liberdades que reivindica para si.
Considerações finais
O chamado da tribo percorre a obra de sete pensadores para explicar como um escritor latino-americano, formado no entusiasmo revolucionário, chegou à defesa da sociedade aberta. Este artigo procurou mostrar que esses autores não compõem apenas uma galeria de retratos, mas um argumento integrado, no qual cada um acrescenta uma dimensão à mesma ideia de liberdade.
Retoma-se, ao final, a hipótese que orientou o texto: o mérito central da obra está em apresentar o liberalismo como cultura de liberdade e não como simples receita econômica. Essa visão não diminui a importância da economia de mercado, que a tradição austríaca fundamenta de modo particularmente sólido ao demonstrar os limites do conhecimento de qualquer planejador. Ao contrário, situa o mercado dentro de um conjunto mais amplo de instituições e valores, sem o qual ele perde legitimidade.
Convém reconhecer também os limites do livro. Por se tratar de uma autobiografia intelectual, a escolha dos autores reflete as leituras de Vargas Llosa e não um panorama completo da tradição liberal. Pensadores como John Locke, Alexis de Tocqueville, John Stuart Mill e Ludwig von Mises aparecem apenas de passagem ou estão ausentes, e o tom é frequentemente de admiração. A obra deve ser lida, portanto, como porta de entrada para os autores e não como substituta de sua leitura direta.
Para o Brasil, a lição é clara. O liberalismo ganhou espaço no debate nacional nos últimos anos, mas poderá ser reduzido a uma agenda econômica ou a uma identidade de grupo caso deixe de cobrar de si mesmo a coerência que cobra dos outros. Se isso ocorrer, ele próprio passará a responder ao chamado da tribo que pretendia combater.
Por fim, a obra lembra que a liberdade não é um estado natural, mas uma conquista frágil, que precisa ser defendida a cada geração. A sociedade aberta não se resume à possibilidade de cada um decidir o próprio destino. Depende também de instituições corrigíveis, de pluralismo, de imprensa livre, de alternância de poder, de Estado de Direito e da capacidade de conviver com conflitos de valores.
A tribo promete pertencimento por meio da submissão. A sociedade aberta oferece liberdade sem prometer unanimidade, e por isso exige instituições que tornem possível discordar sem transformar o adversário em inimigo.
Se o leitor sair do livro mais disposto a pensar por conta própria e menos inclinado a buscar abrigo nas certezas do grupo, Vargas Llosa terá alcançado seu objetivo e terá mostrado que a liberdade, apesar de exigente, continua sendo a mais humana das escolhas.
Referências
BERLIN, Isaiah. Dois conceitos de liberdade. In: BERLIN, Isaiah. Estudos sobre a humanidade: uma antologia de ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
HAYEK, Friedrich A. O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
HAYEK, Friedrich A. The use of knowledge in society. The American Economic Review, v. 35, n. 4, p. 519-530, 1945.
KIRZNER, Israel M. Competição e atividade empresarial. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2012.
MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
POPPER, Karl R. The open society and its enemies. London: Routledge, 1945.
SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
VARGAS LLOSA, Mario. O chamado da tribo: grandes pensadores para o nosso tempo. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.
*Elias Lopes é empresário, administrador de empresas, CEO da Target Mecânica e associado ao IFL-BH. Atua nos setores industrial e de investimentos, com foco em estratégia, gestão e desenvolvimento de negócios.



