Heroísmo, vitimização e memória

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A Plataforma Europeia da Memória e da Consciência foi criada em 2011 em resposta a uma resolução do Parlamento Europeu que pedia que a memória das vítimas do totalitarismo fosse mantida viva. Eu apoio sua missão: em 2009, traduzi o Livro Negro do Comunismo para o islandês e, em 2011, publiquei uma história do movimento comunista islandês. Desde 2012, participei de quase todas as reuniões da Plataforma. A reunião anual de 2026 foi realizada em Katowice, na Polônia, juntamente com uma conferência de um dia sobre heroísmo e memória. O totalitarismo não gerou apenas vítimas, mas também heróis. Um deles foi o oficial da cavalaria polonesa Witold Pilecki. Em 1940, aos 39 anos, ele se deixou capturar voluntariamente pelos nazistas, usando uma identidade falsa. Sua missão era descobrir o que acontecia no campo de concentração de Auschwitz, no sul da Polônia, perto de Katowice. Durante os dois anos e meio seguintes, submetido ao mesmo tratamento que os demais prisioneiros, reuniu informações sobre o campo, as torturas e os assassinatos e as fez chegar ao exterior, enquanto organizava ações de sabotagem dentro do campo. No entanto, os Aliados nada fizeram para impedir as atrocidades.

A Revolta de Varsóvia

Na primavera de 1943, Pilecki fugiu do campo e se juntou à resistência polonesa. A Alemanha estava perdendo a guerra e, em agosto de 1944, quando o Exército Vermelho de Stalin se aproximava rapidamente de Varsóvia, Pilecki participou de uma revolta contra os nazistas. Varsóvia fica a oeste do rio Vístula. Quando os poloneses se revoltaram contra os nazistas, porém, o Exército Vermelho, em vez de ajudá-los, interrompeu seu avanço na margem oriental do rio e deixou que os nazistas reprimissem brutalmente a revolta. Stalin chegou até a impedir que seus aliados ocidentais enviassem suprimentos aos combatentes por via aérea. Pilecki acabou capturado pelos nazistas, mas foi libertado alguns meses depois, quando saiu do campo de prisioneiros de guerra onde estava na Alemanha. Ele voltou à Polônia depois da guerra, quando os comunistas, apoiados por Stalin, estavam tomando o poder. Por ser um forte opositor do comunismo, Pilecki foi preso em 1947 e executado em 1948.

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A Guerra Fria

O principal tema em Katowice foi como transmitir à geração mais jovem, para quem esses acontecimentos parecem distantes e quase irreais, os crimes dos regimes totalitários e os atos de heroísmo, por meio de depoimentos de sobreviventes, livros didáticos de história, redes sociais, museus e outros meios. Com frequência, por exemplo, a Guerra Fria é apresentada nos livros didáticos como um jogo disputado por duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. Quando eu fui pesquisador visitante na Hoover Institution, em Stanford, há quarenta anos, conversei muitas vezes sobre essa questão com o filósofo americano Sidney Hook. Segundo ele, a Guerra Fria girava essencialmente em torno de uma única questão: o gulag seria estendido ao mundo inteiro?

Números e nomes

A história não se resume a números. Ela também é feita de nomes. É claro que os números são importantes: os nazistas assassinaram seis milhões de judeus, e o comunismo custou cerca de cem milhões de vidas. Mas esses números só ganham vida quando associados a pessoas de carne e osso. Algumas vítimas tiveram a oportunidade de contar suas histórias na conferência de Katowice. Kordian Borejko, que foi deportado pelos soviéticos para o Cazaquistão em 1940, quando tinha apenas um ano de idade, junto com seus pais, e retornou à Polônia em 1946, fez um relato comovente. Antoine Arjakovsky, historiador francês e moderador de um dos painéis, contou que seu avô, um padre ortodoxo russo que vivia na França, havia morrido em um campo nazista e que vários de seus parentes russos haviam perecido no gulag soviético.

Perpetradores, cúmplices e colaboradores

Outro tema abordado na conferência foi a distinção entre perpetradores, cúmplices e colaboradores. Arjakovsky mencionou a prisão em massa de mais de 13 mil judeus em Paris, nos dias 16 e 17 de julho de 1942 (sobre a qual também escrevi). A operação foi realizada pela polícia francesa por iniciativa dos ocupantes nazistas. As vítimas foram confinadas no Vélodrome d’Hiver, uma arena esportiva, e posteriormente deportadas para Auschwitz e outros campos de concentração nazistas. Nenhuma das 3.900 crianças sobreviveu. Mais tarde, o presidente francês François Mitterrand se recusou a pedir desculpas por essa ação, mas seu sucessor, Jacques Chirac, o fez em 1995.

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Hannes Gissurarson

Hannes Gissurarson

É professor emérito de ciência política na Universidade da Islândia e comentarista frequente sobre assuntos atuais na mídia islandesa, além de membro da Sociedade Mont Pêlerin. Ele é mais conhecido como um ferrenho porta-voz das políticas de livre mercado ou liberalismo clássico. É bacharel em Filosofia e História e mestre em História pela Universidade da Islândia, além de PHD em Política na Universidade de Oxford.

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