Globalização, sim! Globalismo, não!

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Globalização é outra palavra para a expansão do livre comércio em escala mundial. Ela é desejável porque incentiva a concorrência e possibilita a divisão do trabalho, que, como Adam Smith argumentou de forma convincente, gera riqueza. Se nós dois estivermos presos em uma ilha deserta, tendo apenas peixes e cocos para comer, e se eu for melhor em pescar peixes enquanto você for melhor em colher cocos, a produção total da ilha será maior se eu pescar todos os peixes para nós dois e você colher todos os cocos. Da mesma forma, se o Japão produz carros a um custo menor do que a Islândia, e a Islândia produz frutos do mar a um custo menor do que o Japão, ambos os países se beneficiam da troca de carros e frutos do mar. É o livre comércio internacional e a divisão internacional do trabalho que explicam o enorme crescimento econômico dos últimos duzentos anos, praticamente erradicando a pobreza nos países ocidentais e reduzindo-a significativamente em outras partes do mundo.

As dimensões morais do comércio

Existem três maneiras de obter dos outros os bens que você deseja: persuadi-los a lhe dar esses bens; tomá-los à força; ou oferecer um pagamento que estejam dispostos a aceitar. A primeira abordagem só é prática dentro da família ou de uma sociedade muito pequena baseada em relações diretas entre as pessoas. Restam, então, as outras duas abordagens, relevantes nas interações entre estranhos: lutar ou comerciar. O livre mercado é um espaço de cooperação voluntária e não um campo de batalha. Portanto, ele possui uma dimensão moral. Além disso, o comércio é um processo dinâmico e não estático. Você é incentivado a identificar e desenvolver as habilidades mais demandadas pelos outros. Embora exista em toda vida um elemento de sorte, o livre mercado recompensa e, portanto, estimula o trabalho árduo, a ambição, a adaptabilidade, a confiabilidade, a cortesia e a pontualidade. Você é motivado a servir aos outros da maneira mais eficiente possível.

A ideologia de uma elite global

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O apoio à globalização não implica, porém, apoio a um fenômeno mais recente: o globalismo, a rejeição das identidades nacionais. Trata-se da ideologia de uma elite global que ocupa bancos centrais, grandes instituições financeiras, organizações internacionais, a burocracia de Bruxelas, a maior parte das universidades e a mídia. São pessoas que amam todos os países, exceto o próprio. Bem instruídas e frequentemente bem articuladas, conhecem vários idiomas e não têm nada de significativo a dizer em nenhum deles. Acreditam firmemente que devem deter o poder por causa de sua educação e inteligência superiores, olhando com desprezo para os “deploráveis”, como Hillary Clinton chamou aqueles que não votaram nela. Geralmente se autodenominam liberais, mas não apoiariam plenamente a liberdade de escolha dos cidadãos comuns — o homem comum, por assim dizer. Seu ideal é o capitalismo de compadrio, uma aliança profana entre grandes empresas e o Estado.

Socorro aos bancos

Não acredito em um “Estado profundo” (deep state) nem em outras teorias da conspiração, mas certamente essa elite global exerce muito poder invisível. Isso ficou evidente durante a crise financeira de 2007–2009. Pode-se argumentar que os bancos centrais devem fornecer liquidez às instituições financeiras em períodos de tensão para evitar pânico e corridas bancárias. Mas isso é diferente da ideia de que, durante os períodos de prosperidade, os banqueiros podem se apropriar de todos os lucros, enquanto, durante as crises, podem repassar suas perdas aos contribuintes. Na Islândia, o governo se recusou a socorrer os bancos em 2008. Isso não levou a nenhum desastre. Em 2012, quatro anos depois, a economia já havia se recuperado.

Juízes ativistas

Segundo um provérbio islandês, o rato que se esgueira não é melhor do que o rato que salta. Talvez os globalistas menos óbvios sejam os juízes ativistas, que procuram não defender a lei, mas promover a ideologia globalista. Um exemplo disso foi quando a Suprema Corte do Reino Unido bloqueou, em 2023, o plano do governo britânico de transferir solicitantes de asilo para Ruanda, onde seus pedidos seriam analisados. Outro exemplo foi a decisão de 2024 do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos de que o governo suíço havia violado o direito de mulheres idosas à proteção adequada contra as mudanças climáticas. Ambas as decisões foram criações absurdas de reivindicações contra governos, em última instância contra os contribuintes, disfarçadas de direitos globais.

*Hannes Gissurarson é professor emérito de ciência política na Universidade da Islândia e comentarista frequente sobre assuntos atuais na mídia islandesa. Autor de diversas obras, é membro da Sociedade Mont Pèlerin.

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