Uma introdução à filosofia libertária — disponível em 60 idiomas

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Poucos livros — com exceção da Bíblia — foram traduzidos para mais idiomas do que As Aventuras de Jonas, o Ingênuo: Uma odisseia rumo ao conhecimento, de Ken Schoolland. Atualmente, ele existe em 60 idiomas, aproximadamente o mesmo número que O Capital, de Karl Marx. O interesse pelo livro cresceu à medida que as ideias libertárias ganharam maior atenção em todo o mundo, especialmente devido a Javier Milei. A força de muitos libertários está na teoria e na abstração, mas isso também tem sido uma fraqueza, impedindo que suas ideias se tornem mais populares.

Uma exceção é a obra de Ayn Rand, que escreveu principalmente romances de ficção. Seus livros venderam mais de 37 milhões de exemplares e foram traduzidos para 38 idiomas. Somente seu romance A Revolta de Atlas vendeu mais de dez milhões de cópias. Em comparação, o best-seller de Friedrich August von Hayek, O Caminho da Servidão, vendeu mais de dois milhões de exemplares. Os romances apelam às emoções das pessoas; a não ficção se dirige principalmente ao intelecto.

Ken Schoolland, autor de Jonas, o Ingênuo, é uma das figuras mais conhecidas do movimento libertário global e faz parte do conselho da Liberty International. Seu livro trata de economia e representa uma combinação incomum de romance satírico e não ficção. Acima de tudo, é a história de um jovem chamado Jonas, que sofre um naufrágio e fica preso em uma ilha estrangeira.
O apelo do livro está na forma como ele ensina os leitores a questionar muitas coisas que consideramos garantidas. A história começa com Jonas encontrando pescadores, mas o lago onde eles pescam oficialmente não pertence a ninguém. Ainda assim, ele é administrado pelo “Conselho dos Lordes”, que governa a ilha. Cada episódio é seguido por perguntas aos leitores e por um comentário — neste caso, sobre as vantagens da propriedade privada em relação à propriedade estatal.

Em outro capítulo, Jonas aprende sobre as consequências prejudiciais do protecionismo, enquanto outro explora, de forma satírica, os efeitos de políticas tributárias igualitárias. Ele fica intrigado ao ver alguns habitantes da ilha andando de joelhos em vez de usarem os pés. A razão é um “Imposto da Altura”, que obriga pessoas mais altas a pagarem impostos mais elevados por violarem a igualdade. A justificativa do governo é que indivíduos altos desfrutam de vantagens no trabalho, nos esportes e até nos relacionamentos amorosos, e que essa injustiça deve ser compensada por meio da tributação. Jonas é informado de que apenas pessoas fora do juízo normal ficariam de pé e pagariam os impostos mais altos; os habitantes sensatos da ilha se locomovem de joelhos.

Outro capítulo aborda a regulamentação governamental na construção civil e o controle de aluguéis. Formalmente, os habitantes da ilha são donos de suas casas, mas o Estado determina como elas devem ser construídas e pode até ordenar que sejam demolidas caso não cumpram as exigências. Jonas se pergunta por que algumas casas ficam vazias enquanto outras estão em ruínas e descobre que os tetos legais para os aluguéis são os responsáveis. Ele também descobre que as pessoas não conseguem encontrar trabalho porque os salários mínimos impostos pelo governo impedem isso.

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O sistema estatal de aposentadoria, criado pelo “Alto Lorde Ponzi”, revela-se um esquema de pirâmide. As pessoas confiam nesse sistema em vez de se prepararem por conta própria e acabam sendo enganadas. Tudo isso parece absurdo para Jonas — e, ainda assim, familiar para a maioria dos leitores. Os políticos não são retratados de forma positiva no livro. Eles cobram impostos dos cidadãos, desviam parte do dinheiro para seus próprios bolsos e para a burocracia estatal, e usam uma parte dele para comprar votos. Os recursos também são usados para subsidiar teatros e galerias de arte, levando Jonas a perguntar por que o Estado deveria decidir quais formas de arte têm valor em vez dos próprios cidadãos.

Uma idosa lhe conta a história de uma corrida entre uma lebre e uma tartaruga pela concessão do direito de entregar correspondências. A lebre é diligente e rápida, sempre atenta às necessidades dos clientes. Já a tartaruga dedica-se ao lobby e o rei a nomeia “Diretora-Geral dos Correios”, concedendo-lhe o monopólio da entrega de correspondências. Os efeitos prejudiciais do lobby em defesa de interesses específicos são um tema recorrente ao longo de todo o livro.

Nesta parábola, muitos serviços prestados pelo Estado são postos em questão — serviços tão tidos como certos que as pessoas se esqueceram de considerar alternativas, como o monopólio estatal da educação. Jonas acredita que tudo o que não prejudica outras pessoas deveria ser permitido, incluindo a compra voluntária de serviços sexuais, bem como a compra e a venda de drogas.

O livro incentiva os leitores, de maneira divertida, a questionar pressupostos ao exagerar satiricamente as contradições da nossa sociedade. Eu concordo com o autor na maior parte dos pontos, embora não em todos: ele se opõe à proteção estatal das patentes e às restrições à migração. Continuo cético em relação a visões utópicas que buscam transformar completamente o mundo. Ainda assim, não é preciso abraçar a utopia libertária para apreciar o livro, que apresenta caricaturas vívidas e questiona, com razão, muitos excessos do Estado de bem-estar social — como a regulamentação excessiva, a elevada carga tributária, os salários mínimos, o controle de aluguéis e as restrições à construção.

Percebe-se que o livro foi escrito por um americano; hoje, na Europa, provavelmente seria dada maior ênfase à liberdade de expressão, uma das áreas em que a intervenção do Estado é mais prejudicial. Na minha opinião, não há ideia mais perigosa do que a de um governo que começa a decidir quais opiniões seus cidadãos podem expressar e quais não podem. Tenho certeza de que o autor concordaria.

É benéfico que o livro seja constantemente atualizado. Os princípios básicos da liberdade permanecem constantes, mas a criatividade dos políticos em restringi-los é ilimitada. Poucos livros apresentam as ideias de liberdade e autodeterminação individual de uma maneira tão envolvente e, ao mesmo tempo, instrutiva — e poucas parábolas oferecem tantas sugestões de leituras adicionais. Embora seja voltado para adultos, o livro é especialmente valioso para estudantes e jovens.

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Rainer Zitelmann

Rainer Zitelmann

É doutor em História e Sociologia. Ele é autor de 26 livros, lecionou na Universidade Livre de Berlim e foi chefe de seção de um grande jornal da Alemanha. No Brasil, publicou, em parceria com o IL, O Capitalismo não é o problema, é a solução e Em defesa do capitalismo - Desmascarando mitos.

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