É censura! Foi golpe! A dramaturgia do desespero da esquerda

Somente um grupo capaz de classificar como censura o repúdio natural a uma exposição artística abjeta poderia considerar golpe um impeachment.

Por definição, golpe é a substituição da estrutura governamental por outra não amparada pela lei e pelos métodos legítimos da troca de poder. Classicamente, golpes de Estado se caracterizam pela alteração da constituição, dissolução do parlamento, substituição completa do aparato governamental e intervenção da força através do exército ou uma milícia revolucionária. Quando um presidente é deposto por votação regulamentar do congresso com base em uma interpretação que cabe apenas aos congressistas, deixando em seu lugar o vice-presidente e todo o restante da estrutura de seu partido intacta no poder, falar em golpe evidencia um apego personalista, ideológico ou partidário que contraria a lógica corrente das relações democráticas.

Não tenho dúvidas, no entanto, de que houve um tipo de golpe; um golpe interno dos atores que até então dividiam amigavelmente o poder. É legítimo falar em uma “traição” de Michel Temer. Uma traição privada, diga-se de passagem, pois o sujeito há de ter feito qualquer acordo mais sério do que apenas o de aparecer nas fotos ao lado de Dilma Rousseff. Seria de se esperar até algum grau de simpatia ou limite pudico após prolongada convivência como aliados. Afinal, quem escolhe para possível sucessor um inimigo, alguém antipático à causa e ao grupo?

O que mais impressiona no desenrolar dos fatos, à medida que as narrativas – única ferramenta conhecida pelos relativistas, que não suportam viver ao som da palavra ‘verdade’, ou fato, ou direito… –  tentam com algum sucesso emplacar construções imaginativas de uma Lava-jato maligna, subserviente aos interesses da CIA, de um “golpe” orquestrado e aplicado impecavelmente por agentes agora presos, como Eduardo Cunha, e de atos de censura a peças teatrais e exposições artísticas perfeitamente normais, como diversas financiadas com dinheiro público para o delírio sexual mais pervertido de acadêmicos, artistas e celebridades “progressistas”, a esquerda brasileira parece estranhamente perder terreno na opinião pública e projeções eleitorais.

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Como compreender que uma exposição cujo único propósito compreensível é isentar um banco muito lucrativo de seu compromisso com a sociedade possa ter se tornado a trincheira final da esquerda brasileira? É fácil! Basta observar que o atacante primário da exposição foi o MBL, ou ao menos declarado como, e que a vítima inocente visava tão somente defender minorias de uma visão hegemônica e normativa de sexualidade. A narrativa deveria ser convincente o bastante, se não tivessem pesado a mão. Se não fosse pelas imagens religiosas, a zoofilia, a insinuação de crianças sexualmente ativas, as instalações e “jogos” feitos para que crianças “explorassem” a sexualidade uns dos outros, esse teria sido um capítulo razoavelmente normal e aceitável na saga narrada por nossos compatriotas socialistas.

Com certa surpresa, para os amadores, alas “liberais” da direita também se manifestaram contra as supostas censuras. Trata-se do núcleo duro do libertarianismo comportamental, o qual, no Brasil, costuma vir desvinculado de qualquer noção ética, cultural e filosófica mais ampla. A stronghold libertária não imagina que seu dogma da liberdade de expressão possa admitir exceções, como quando um maníaco entra em um espaço público e grita “fogo!”, “isto é um assalto!” e coisas semelhantes, ou quando o direito de se expressar é usado para agredir, humilhar, perseguir… Nada disso parece constar na cartilha libertária, embora sejam os exemplos típicos de qualquer livro sobre os limites da liberdade e a essência responsável de todo ato de liberdade.

Nossa dificuldade, a partir de agora, não é desmascarar o padrão moral por trás das propostas ideológicas do militante médio da esquerda brasileira. Ele o fez de modo tão escancarado, tão francamente virulento, que só nos resta meditar sobre como conviver com pessoas de tal lavra. Como encarar o amigo, o colega, o familiar que substituiu seu senso moral, esse órgão mais sagrado da consciência, por critérios de filiação política e ideológica? Como lidar com quem não conhece ou aceita mais critério algum de dignidade, que julga todo e qualquer mérito e demérito com base na fonte ideológica, nunca com base nos termos da questão, nunca com base em um senso de decência e autorrespeito mais elementar e natural? Que esperar destes quando novamente imbuídos de maiores poderes?

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A dramaturgia do desespero revela apenas superficialmente a despreocupação com a verdade. Em sentido mais profundo, revela também uma sede de domínio tão grande que nenhum entrave sentimental ou racional será capaz de refrear.

Perguntamo-nos, em nossa consciência, se os defensores de maior liberdade para vilipêndio de objetos de culto e manipulação de crianças defenderam as mesmas liberdades irrestritas para os fuzilados de Cuba, da URSS e do leste asiático? Onde estavam eles a bradar por liberdade irrestrita quando gestos muito mais equilibrados e legítimos, às vezes banais, foram empenhados por jornalistas, artistas, intelectuais e religiosos torturados e exterminados por seus modelos políticos, pelos heróis de suas camisetas? Uma rápida conversa revelará que a liberdade, embora sagrada, deve ser menos sagrada do que o belo ato de retirar da Terra um reacionário, um fascista, títulos que cada vez mais se aplica para qualquer um situado no espectro do centro para a direita. Afinal, as ações de repressão e censura em qualquer regime socialista sobre o globo nunca se limitaram a declarar repúdio. Calaram à força, proibiram, destruíram material, desapropriaram igrejas e templos, chagando ao ponto de matarem sem rodeios meros discordantes, e até mesmo suspeitos de antipatia para com seus regimes, seus partidos. Como imaginar que em sã consciência um sujeito que apoia modelos de partido único possa agora falar em liberdade de expressão? Essas perguntas restam sem resposta, pois as falácias que as acompanham não nos permitem considerá-las respostas legítimas.

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Todo este trágico episódio, contudo, serviu para polarizar ainda mais a sensibilidade popular, jogando para o terreno dúbio da anti-civilização e da barbárie o projeto da esquerda brasileira. Agora sabemos o que esperar deles. Absolutamente qualquer coisa. Qualquer coisa, numa guerra total contra o inimigo que sua narrativa desesperadamente tenta pintar como monstro fascista, ameaça conservadora. Restar-lhes-á uma esperança de revolução, cada vez com menos devotos, pois o tudo ou nada em que mergulharam só os afasta da possibilidade de vitórias democráticas.

A consciência do brasileiro comum vê com ojeriza ilimitada a doutrinação escolar, a fabricação de militantes por parte de professores universitários, que fazem de tudo menos lecionar as matérias para as quais foram contratados, o jornalismo e os programas de tv devotados às causas sociais mais demagógicas. Tudo isso deixou de ser invisível a pais agora munidos de whatsapp, facebook e youtube, chocados com a vileza de quem coopta suas crianças ainda em fase de formação de valores e concepções de mundo.

Pesaram a mão, e dificilmente a memória coletiva esquecerá o dia em que a esquerda defendeu a depravação contra o direito dos pais de protegerem seus filhos dela.

Sobre o autor: Marco Catão é filósofo e analista político. 

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