Os impostos que empobrecem os mais pobres
Existe um consenso político conveniente no Brasil: o Estado protege os pobres. Programas sociais, subsídios, transferências de renda. A narrativa é sedutora. Os dados, porém, contam uma história diferente.
O mecanismo é simples: o governo gasta além do que arrecada, e o déficit é financiado com aumento da dívida, pressionando juros e exigindo mais arrecadação, para cobrir os encargos crescentes.
A carga tributária brasileira atingiu 32,4% do PIB em 2025, o maior nível da série histórica. Mas o número agregado esconde o problema real: os tributos sobre o consumo representam 14% do PIB – a maior fatia de toda a arrecadação. São os impostos embutidos no preço do arroz, do feijão e de todos os produtos do dia a dia.
Quem mais sofre com essa tributação indireta são exatamente as famílias de menor renda, que destinam proporção muito maior do orçamento ao consumo básico. Um executivo que ganha R$ 50 mil por mês e compra o mesmo quilo de arroz que um trabalhador que ganha R$ 2 mil paga o mesmo imposto embutido. Em termos relativos, o trabalhador é tributado proporcionalmente muito mais.
A inflação aprofunda esse efeito. Quando o governo expande gastos via crédito subsidiado ou transferências sem contrapartida fiscal, injeta demanda numa economia que já opera próximo da capacidade, e os preços sobem. Quando os preços sobem, a arrecadação também cresce, afinal, o imposto está atrelado aos produtos.
O paradoxo é cruel. O mesmo Estado que se apresenta como protetor dos pobres financia parte de sua expansão à custa deles. Gasta, inflaciona, tributa o consumo inflacionado e repete o ciclo. O resultado é uma transferência silenciosa de renda dos mais pobres para o Estado – repetida a cada ciclo fiscal.
Mais de dois terços da população brasileira ganham até dois salários mínimos e destinam proporção muito maior da renda ao consumo básico, no qual a carga tributária indireta é mais pesada.
A política de proteção, na realidade, está tornando os pobres cada vez mais pobres e dependentes do Estado, que, curiosamente, é sustentado por eles, por meio de tributos indiretos.
A solução não está em mais redistribuição, está em menos Estado. Gasto reduzido gera menor pressão inflacionária e baixa na tributação sobre o consumo. Um governo que respeita restrições orçamentárias não precisa cobrar o custo da sua irresponsabilidade de quem menos pode pagar.
*Gustavo Machado é economista e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).



