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A Mente Revolucionária (parte V): Hermann Göring e o falsário de Vermeer

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Hermann Göring (1892 – 1946) foi provavelmente o homem mais imponente e influente do Partido Nacional-SOCIALISTA dos TRABALHADORES Alemães (NSDAP) depois de Hitler. Göring fundou a Gestapo (polícia secreta nazista de Hitler), comandou a Luftwaffe (a força área nazista) e, de 30 de agosto de 1932 até 24 de abril de 1945, foi presidente do Reichstag (parlamento alemão, conhecido como Bundestag). Também foi ministro da Aviação e da Economia alemã. Chegou a ser nomeado por Adolf Hitler como seu sucessor e tinha poder para representar o Führer em todos os gabinetes do governo nazista.

Göring perdeu força no governo nazista a partir de 1942 por causa dos sucessivos fracassos da Luftwaffe na missão de proteger a Alemanha dos ataques aéreos dos Aliados, e também por não conseguir reabastecer as tropas nazistas que estavam cercadas por Stalin em Stalingrado. Assim, em 1945 Göring foi expulso do partido por Hitler. Fora do cenário político, aquele que fora braço direito de Hitler agora passa a se dedicar à compra de obras de arte – a maioria furtadas de judeus mortos no Holocausto.

Havia, entretanto, uma obra em especial que Göring, que tornou-se dependente de morfina após ser ferido em 1923, cobiçava, e que o Führer tinha: uma pintura do holandês Johannes Vermeer (1632 – 1675). Eis que o também holandês Henricus Antonius “Han” van Meegeren (1889 – 1947) tinha a obra e vendeu-a a Göring, que realiza seu sonho. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, não obstante, Göring é condenado e preso por crimes de guerra e crimes contra a humanidade nos Julgamentos de Nurembergue. Recebeu a sentença de morte por enforcamento.

Nesse período, autoridades vão a Van Meegeren e prendem-no sob acusação de roubar/furtar obras de judeus vítimas do nazismo e comercializá-las. Na prisão, o holandês solicita um pincel e papel/tela. Eis que ele pinta uma peça idêntica à vendida a Göring. Com isso, ele prova que era falsificador, não ladrão – o que abrandaria sua pena. Göring é informado de que seu “Vermeer” é uma falsificação. Acredita-se que esse desgosto possa ter levado o ex-chefe da poderosa Luftwaffe a cometer suicídio na prisão ao ingerir cianeto.

A pintura era idêntica, mas a ciência comprova que o prazer do ser humano é influenciado por aquilo que ele pensa estar presenciando. O conteúdo da pintura era o mesmo, mas não havia a essência da originalidade de Vermeer. Grosso modo, comparando, alguém que está comendo um bife suculento pode estar gostando muito. Mas se essa pessoa for informada de que o bife é de carne de cachorro, certamente ela vai agir com repugnância. O bife é o mesmo, com a mesma suculência e sabor, mas como o cérebro humano associa valores externos ao prazer, conforme estudos do pesquisador canadense Paul Bloom, a descoberta da origem da carne tem maior grau de importância na degustação do que o próprio sabor. Daí o desgosto de Göring ao descobrir que a tela, mesmo sendo idêntica à original, era falsa.

Iniciei este texto com uma proposta de construir uma analogia entre a associação que o cérebro humano faz dos valores externos ao prazer e a projeção de ideal dos revolucionários, abordando o real versus o imaginário/utópico. Confesso que, no entanto, ao terminar de escrever sobre o caso de um dos mais influentes nazistas, como foi Göring, senti um prazer real ao relembrar que esse nazista do Partido SOCIALISTA dos TRABALHADORES, que ceifou a vida de milhares de inocentes e, como se não “bastasse”, saqueou os pertences artísticos das vítimas, foi feito de trouxa, enganado por um farsante, fato provável que ato contínuo levou-o a cometer suicídio.

Certamente o leitor percebeu no texto palavras rudes, brutas, com as quais tratei de Hermann Göring, mais um produto totalitário oriundo das ideias revolucionárias. Usar de eufemismos e florear um texto que fala de um verdadeiro churrasqueiro do inferno que ajudou a matar milhões, contudo, não é preocupação minha. Se fosse, ela seria tão original quanto o Vermeer, de Van Meegeren.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).