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A Mente Revolucionária (parte IV): o legado de Trotsky

Certa vez, o jornalista Paulo Francis, naquele momento já considerado um ex-esquerdista, foi questionado a respeito de sua relação com o trotskismo. Francis respondeu que não mais nutria admiração por Leon Trotsky enquanto político e revolucionário, apenas pelo “intelectual” Trotsky. De fato, Leon foi o grande cérebro da Revolução Russa ao lado de Lenin, além de grande orador, e dele surgiu uma das mais importantes correntes do comunismo soviético no mundo: o trotskismo. O intelectual e teórico virou teoria. No Brasil do regime militar, por exemplo, era comum – e cool – se autodenominar trotskista nos círculos revolucionários. Ser trotskista equivalia a ser intelectual.

A série russa “Trotsky” (2017), dirigida por Alexander Kott e Konstantin Statsky, apresenta uma cena curiosa: um suposto encontro de Trotsky com Sigmund Freud (1856 – 1939). Na ocasião, Trotsky enquadra o pai da psicanálise durante uma de suas palestras, diante da própria plateia. Ora vejamos: desafiar Freud é tarefa para pessoas com intelecto avantajado, como fora o de Carl Jung (1865 – 1971), por exemplo. O suposto encontro com Freud, no entanto, não consta, ao menos, nas principais biografias sobre Trotsky. Remete-nos, entretanto, à visão que os russos têm sobre o intelecto de Trotsky. Muito mais que braço direito de Lenin, é possível afirmar, Trotsky foi o arquiteto da revolução.

O seriado de oito episódios recebeu muitas críticas de trotskistas na Rússia e no mundo – isso porque mostra verdades inconvenientes, como o fato de Trotsky ter sido um assassino frio e calculista. Na película, o líder do temível Exército Vermelho admite que matava pela revolução, enquanto Stalin ceifava vidas por puro prazer. Não é raro encontrar marxistas na defensiva sustentando o argumento de que Stalin “deturpou” Marx. Logo, de acordo com a narrativa de tais marxistas, Trotsky representa o marxismo ortodoxo e bom. Daí a revolta dos socialistas ao verem seu mocinho sendo apresentado como bandido na série russa.

O teórico e intelectual Trotsky defendia uma revolução também nos países fora da URSS, o que ia de encontro ao projeto de “Socialismo em Um Só País” de Stalin. Ambos também tinham discrepância na visão econômica a ser adotada na URSS. Stalin pretendia manter a NEP de Lenin, enquanto Trotsky propusera uma industrialização mais aguda; menos gradual, portanto. Essas diferenças, aliadas à popularidade de Trotsky (um risco a Stalin), ocasionaram sua expulsão do Partido Comunista em 12 de novembro de 1927. Partiu, assim, para o exílio no Cazaquistão. Em 1929, entretanto, Trotsky foi obrigado a deixar a antiga União Soviética de forma definitiva, conseguintemente teve que partir do Casaquistão.

Trotsky, conquanto declarado inimigo do partido por Stalin na URSS, não abandona sua ideologia. Sai de cena no campo político, mas a figura de Trotsky assombra Stalin, tanto que é assassinado no México em 1940. Se Stalin evitou fomentar o cultivo de uma lenda ao expurgar Trotsky, ao encomendar sua morte em 1940, o efeito foi contrário: Trotsky torna-se um herói mundial das esquerdas.

Trotsky, com isso, serviu para os marxistas como uma válvula de escape narrativa, visto que os principais líderes comunistas no mundo ocasionaram genocídios e barbárie e têm na paleta um rótulo de açougueiros violentos. É preciso levar em conta, no entanto, dois aspectos históricos: 1) Trotsky matou sim – e muito, sobretudo enquanto líder do Exército Vermelho; 2) somente não foi responsável por ainda mais mortes porque foi expurgado e, como já lemos, morto pelo – ou a mando do – próprio ex-camarada de revolução, Stalin.

Leon Trotsky, e novamente inicio parágrafo citando nosso personagem, é o arquétipo do que entende-se por uma mente revolucionária comunista: frio, calculista e obstinado. Seus seguidores não são diferentes. Teu foco determina tua realidade, enunciou o personagem Qui-Gon Jinn, de Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma, interpretado por Liam Neeson. Se teu espelho moral, ideológico e intelectual é Trostky, portanto, tu não és diferente dele.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.