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A Mente Revolucionária (parte II) – Marx, Lenin e a licenciosidade comunista

Para ler o primeiro texto, clique aqui. 

No primeiro texto, usamos o Livro Vermelho, do líder comunista chinês Mao Tsé-Tung, como objeto de estudo para melhor compreendermos a mente de um revolucionário. Agora, nosso personagem é Vladimir Ilyich Ulianov, mais conhecido no Ocidente por seu pseudônimo “Lenin”. O mentor da Revolução Bolchevique, junto de Trotski (sobre quem falaremos em texto subsequente), incorporou uma ideia fundante do marxismo: a relativização e a destruição da moral como meios para a revolução socialista. Somente mediante tal licenciosidade as bases do capitalismo poderiam ser implodidas para, a partir disso, haver a imposição da ditadura do proletariado até a chegada ao almejado comunismo utópico de Marx.

Lenin nasceu em Simbirsk em 22 de abril de 1870. Ainda menino, já ouvia de seu irmão, Aleksandr Ulianov, que morreu enforcado após ser condenado por atentado contra o czar, as primeiras ideias do socialismo científico de Marx. Era leitor voraz. Daí fez-se o grande intelectual e teórico que escreveu em vida aproximadamente 10 milhões de palavras. Orador nato, era douto de um poder persuasivo agudo e venenoso. Apesar de meu tácito sentimento repugnante ante à ideologia socialista, não sou néscio a ponto de ignorar que as mentes comunistas foram sim geniais. E Lenin foi um exemplo delas. Suas ideias, de fato, revolucionaram o mundo ao levar à risca a dialética do prussiano Karl Marx.

Em sua obra, Marx prega a destruição da moral e dos valores tradicionais, para ele, pilares do capitalismo. Seria impossível, segundo entendemos em Marx, chegar ao comunismo sem destruir os valores da sociedade capitalista: a moral, a família, a igreja, as tradições. Ou seja, o “establishment social-moral”. Assim entendemos por que a mentalidade dos revolucionários caminha na contramão da lógica. A dinâmica da revolução funda-se na desconstrução do normal, na antítese aos padrões.

“Meu irmão mais velho iluminou o caminho”, disse Lenin aos 17 anos quando estava preso. O enunciado evidencia a influência que Aleksandr, que pertencia ao grupo terrorista revolucionário Narodnaia Volia até ser preso e morto pelo atentado ao Czar, exerceu em Lenin, fomentando sua sede de revolução. Mais tarde, o líder menchevique Pavel Axelrod (1850 – 1928) chegou a afirmar que Lenin passava a plenitude dos dias absorvido pela ideia da revolução, só pensava na revolução e, até mesmo quando dormia, sonhava com a revolução.

As ideias socialistas são um contrassenso com seus próprios pressupostos. A discrepância de pensamento que gerou a divisão de mencheviques (minoria) e bolcheviques (maioria) é uma prova disso. Enquanto os mencheviques queriam tomar o poder na Rússia de forma gradual, deixando o capitalismo se desenvolver (e gerar riqueza) para, só após isso, implantar o socialismo, de acordo com o marxismo ortodoxo, com a ditadura do proletariado, Lenin e os bolcheviques optaram pela tomada de poder de forma radical, imediata, pela força. Ou seja, o próprio Marx sabia que só com o capitalismo a riqueza podia ser gerada, por isso essa tomada de poder gradativa até chegar ao comunismo utópico. Mesmo Lenin, que optou por pular as etapas do socialismo científico de Marx e partir para uma tomada de poder radical, teve que abrir o mercado soviético para retomar a economia. Por isso, declarou em 1921: “vamos dar um passo atrás para posteriormente dar dois à frente”. A Nova Política Econômica, reconheceu Lenin, significava voltar ao capitalismo numa “extensão considerável”, incalculável.

É somente com o capitalismo e por meio dele que as riquezas são geradas. De forma desigual, é verdade – e como bem reconheceu Winston Churchill. Os socialistas, de forma geral, sabem disso, e, por essa razão, quando tomam o poder, fazem uso dos benefícios capitalistas. É por isso que este breve ensaio trabalha o pensamento revolucionário na questão da moral. Não há como tomar o poder na revolução sem deturpar a moral da sociedade, visto que a matriz socialista é baseada em engodo, falácias e contradições.

Para Marx, a solução proposta para evitar a “mais-valia” (excedente de produção não remunerado ao trabalhador) encontra-se no confisco dos meios de produção (empresas) da burguesia para repassá-los aos operários, com a finalidade de permitir a estes receber a integralidade de sua força de trabalho. Aqui jaz outra falácia marxista, visto que nos países comunistas os meios de produção são controlados pelo estado. O que, na prática, mostra que o comunismo é uma espécie de fake news de Marx, pois, quando o socialismo é estabelecido, o estado comanda e jamais avança-se à última etapa, que seria um “paraíso” sem estado autorregulado por um comunismo “livre”. Em nenhum país em que o socialismo foi implementado, houve o avanço a esta etapa, o que refuta Marx. Os próprios ditadores socialistas sabem, portanto, que a última etapa do marxismo científico é inviável – e, claro, uma vez no poder, o ditador não vai querer abrir mão de um estado cada vez mais forte e de sua cadeira de ditador.

Não há moral, portanto, no socialismo. Daí a necessidade de uma lavagem cerebral revolucionária. Por obviedade, a classe burguesa não cederia a isso. Marx tinha esse conhecimento e, por isso, em O Manifesto Comunista, determina a extinção da classe burguesa – leia-se extinção dos burgueses. Eis o precedente teórico marxista para os genocídios da esquerda no século XX. Se, em parte, as mortes nos regimes socialistas foram causadas mediante violência, como no stalinismo, por exemplo, com tiros na nuca e gulags, também o foram pela própria falência do regime, ou seja, pela miséria, como na Grande Fome Chinesa de Mao Tsé-Tung, citada no texto anterior.

Para o revolucionário, portanto, os fins justificam os meios. Esse tipo de pensamento, disseminado pelo poeta romano Ovídio (43 a.C. – 18 d.C) em sua obra Heroides (embora Maquiavel não o tenha proferido, seus escritos em O Príncipe nos permitem afirmar que a obra do filósofo renascentista florentino é moldada pela ideia de Ovídio), constitui-se em anulação da moral. Se para a tomada de poder for preciso derramar sangue inocente, assim sendo, logo faz-se necessário destruir as bases de moralidade da civilização. Daí o trabalho de Marx em incitar a implosão da moral burguesa. Lenin entendeu esse conceito e o aplicou. Não por acaso o biógrafo Luiz Alberto Moniz Bandeira escreveu que em Lenin “a teoria e a prática se fundem”.

*Referências:*

*MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. Lenin: vida e obra/Luiz Alberto Moniz Bandeira l. – 4° ed. rev. e ampl. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.*

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.