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A Mente Revolucionária (parte III): Stalin

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1- A formação de Stalin: da infância à Revolução
Quando nasceu na Geórgia em 1878, Stalin recebeu o apelido de Sosso (“delicado”), pois era considerado frágil. Tinha uma deficiência em um dos pés. Morava num casebre, em Cáucaso. Desde menino, Stalin apanhava do pai alcoólatra. Sua mãe também sofria agressões diárias do marido. Stalin chegou a ser atropelado duas vezes por carruagens. Aos 16 anos, foi para o seminário; lá, o jovem recebeu castigos corporais. Em 1895, ainda no seminário, Stalin aproximou-se de grupos clandestinos revolucionários. De 1896 a 1898, liderou círculos marxistas e estudou as obras de Marx e Engels e de Lenin, até ser expulso do seminário. Em 1903, Joseph Djugashvili, que adotara o nome “Koba” no seminário, ingressou nos bolcheviques, oriundos do Congresso que dividira o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em duas correntes (os mencheviques eram liderados por Julius Martov [1873 – 1923]). Tomou emprestado o pseudônimo ‘Stalin’ em 1912.
O fato histórico preponderante para delimitarmos o início da observação do comportamento de Stalin é a morte de nosso personagem do último texto: Lenin. Sem o líder da Revolução Bolchevique, ato contínuo, Stalin tornou-se soberano e passa a praticar as mais execráveis barbáries ao longo de seu governo na União Soviética, que durou até sua morte, em 1953. Stalin fora Secretário Geral do Partido Comunista de 1922 a 1952. O jornalista e escritor alemão Emil Ludwig (1881 – 1948), que entrevistou Stalin em 1930, afirmou: “[Stalin] como soldado no exército de Lenin, que entre 1900 e 1919 transmitia suas ordens do estrangeiro e preparava todas as campanhas, adquiriu importância lentamente durante esses anos; e até à Revolução nem uma vez apareceu no primeiro plano”.
 2- A tomada de poder
O Partido Comunista tornou-se o único partido legal na URSS após o final da Guerra Civil (1921). Assim sendo, o partido controlava o poder no país. O partido, por sua vez, era comandado pelo Secretário-geral, posição ocupada por Stalin de 1924 até sua morte.
Stalin, desde seu ingresso junto aos bolcheviques em 1903, almejou o topo. Com a morte de Lenin, retirar os opositores, principalmente Trotsky, do caminho foi questão de tempo. Não importa que tenham lutado outrora no mesmo lado da trincheira. Para a tomada de poder, “fidelidade” é irrelevante para os revolucionários. Em qualquer outro tipo de regime ou ideologia isso também ocorre, é verdade. A diferença é que no socialismo essa característica de licenciosidade é parte de uma cartilha.
Dos líderes bolcheviques que militaram na Revolução de Outubro de 1917, somente Yankel Sverdlov, Lenin e o próprio Stalin morreram de forma natural. Os demais foram assassinados, a mando do próprio Stalin. Acredita-se que o motivo de Trotsky não ter sido assassinado em solo soviético, por exemplo, foi a prevenção contra um possível e provável processo de martírio, visto que Leon era aclamado por parcela importante dos revolucionários e do povo. Daí a opção pelo momentâneo expurgo, até seu assassinato em agosto de 1940, no México. No entanto, em entrevista a Emil Ludwid em 1930, antes dos julgamentos de Moscou (1931), Stalin diz: “Se consultar os operários em atividade, nove décimos falam com acrimônia em Trotsky”. “Trotsky era um homem de grande autoridade, embora não em posição tão elevada quanto Plekhanov, e agora está esquecido. Se é relembrado, ocasionalmente, é com um sentimento de irritação”. Há um perceptível contrassenso entre a realidade e a narrativa de Stalin sobre o tema.
No XV Congresso do Partido Comunista, que ocorreu de 2 a 19 de dezembro de 1927, havia 1169 delegados. Desses, 898 tinham direito a voto. A oposição não tinha nenhum representante com direito a voto nesse que foi o maior congresso até então na URSS, ou seja, já não havia qualquer resistência efetiva a Stalin nem fora do partido nem dentro. O Kremlin era Stalin; Stalin era o Kremlin. O ditador que lutou pela derrubada do último Czar sob alegação de terminar com o absolutismo tornara-se ditador absoluto e violento.
 3 – A loucura de Stalin
O historiador alemão Jörg Baberowski (1961-), da Universidade Humboldt de Berlim, considera Stalin um sádico-psicopata, que ordenava execuções não apenas por fins políticos, mas também pelo prazer de ver o sofrimento das vítimas.
O leitor, com isso, pode se perguntar: “se Stalin era psicopata, logo os genocídios na URSS foram causados devido à psicopatia, não à ideologia”. Esse é, no entanto – e justamente -, o grande problema do socialismo marxista: suas ideias revolucionárias e totalitárias servem como luva a psicopatas sádicos como Stalin. Basta observar que o comportamento de Stalin é semelhante ao dos principais ditadores comunistas no mundo, entre eles Mao Tsé-Tung e Pol Pot (1925 – 1998). Aliás, o comportamento deles é que é semelhante ao de Stalin.
De acordo com o historiador alemão, que concedeu entrevista ao O Globo, Stalin ordenava execuções por motivos banais, com intuito de intimidar as pessoas. Para Baberowski, Stalin era mais violento que Hitler: “[…] ficava satisfeito ao ver o sofrimento das suas vítimas, dos inimigos que mandava eliminar.”
Em seu testamento, Lenin demonstrou preocupação com a personalidade de Stalin: “O camarada Stalin, tendo se tornado secretário-geral, tem autoridade ilimitada concentrada em suas mãos, e não tenho certeza de que sempre irá utilizá-la com prudência”. Para Lenin, era Trotsky quem deveria governar. Lenin estava certo. Além das mais de 40 milhões de mortes causadas por seu governo (podendo chegar a 60 milhões), Stalin teria cometido, a próprio punho, mais de 40 mil assassinatos.
Estudos atuais relacionam traumas de infância, como exposição a violências, abusos físicos, psicológicos e punições excessivas, a uma predisposição ao desenvolvimento de psicopatias. Aí, talvez – ou provavelmente -, encontra-se uma resposta para a psicopatia de um Stalin que presenciou – e sofreu – agressões do pai em sua infância, além das punições físicas que recebeu no seminário. Stalin também desenvolveu um transtorno de personalidade paranoide. Sentia-se perseguido e prejudicado a todo momento, por todos.
Em um sistema democrático saudável, o surgimento de déspotas é mais difícil. Em regimes totalitários, todavia, como bem manda a cartilha de Marx, psicopatas como Stalin servem como uma luva. É verdade que a psicopatia pode surgir em qualquer regime ou sistema de governo, mas é no marxismo que ela é regra. O poeta comunista russo Vladimir  Maiakovski (1893 – 1930) que o diga:
 “Da parede Marx observa
E de repente
Escancara a boca,
Começa a gritar:
A Revolução está emaranhada em fios filisteus
Mais terrível do que Wrangel (líder dos exércitos brancos durante a Guerra Civil russa) é o byt (modo de vida) burguês
Melhor
Arrancar a cabeça dos canários –
Para que o comunismo
Não seja derrubado por canários.”
Referências
Figes, Orlando. Uma história cultural da Rússia/ Orlando Figes; tradução de Maria Beatriz de Medina . – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2018.*
Kotkin, Stephen. Stálin: Vol. 1: Paradoxos do poder, 1878 – 1928/Stephen Kotkin: tradução Pedro Maia Soares. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.*
 Ludwig, Emil. Stalin. Editorial Calvino, 1943.*

https://oglobo.globo.com/brasil/historia/stalin-considerado-como-sadico-mas-adorado-por-boa-parte-dos-russos-7984691*

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.