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A mente revolucionária (parte I): O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung

Retorno a meu espaço após um breve período na caverna – e retomo as críticas reflexivas de praxe. Neste brevíssimo texto, dou início a um raso mergulho na história das mentes revolucionárias. Começamos com o maior açougueiro da esquerda mundial em todos os tempos: o ditador que conseguiu matar mais que Stalin, Mao Tsé-Tung. Já falei sobre a Grande Fome chinesa noutros artigos e ensaios aqui publicados. Agora, como forma de instigar ainda mais nosso faro antitotalitário, mergulhá-lo-emos num passeio histórico em O Livro Vermelho, coletânea de citações do comandante Mao organizada pelo então ministro da Defesa chinês, Lin Piao. Desse modo, a proposta do – já dito – brevíssimo texto é, aviso de hipérbole!, entrar na mente do tirano comunista.

Mao Tsé-Tung (1893 – 1976), também conhecido como “Mao Zedong”, nasceu em Shaoshan, na província chinesa de Hunan, na China, e era filho de Mao Yichang, seu pai, e Wen Qimei, sua mãe. A família, como a de muitos revolucionários, era bem-sucedida financeiramente. Mao, à frente do Partido Comunista Chinês, foi proclamado presidente (ditador-mor) da “Nova República Popular da China” em dezembro de 1949 e governou o país até 1959, porém seguiu no comando do Partido Comunista Chinês e influente até 1976, ano de sua morte.

Aqui não vou tratar dos genocídios provocados por suas políticas de governo – causadoras de mais de 50 milhões de vidas ceifadas -, mas sim de suas ideias de revolução cultural (o que conseguintemente, claro, levou a China à barbárie).

Mao escreveu diversos livros sobre teoria marxista e sobre a Revolução Chinesa, mas é em O Livro Vermelho que o tirano responsável pela maior fome da história mundial, além de uma série de barbáries, execuções, torturas e terror, expressa de forma clara suas ideias revolucionárias. Conquanto o arcabouço geral de pensamento dos revolucionários não escape de uma linha básica, que compreende coletivismo, estatismo, controle, revolução proletária violenta e fim das liberdades, conhecer as idiossincrasias ou meandros intelectuais do maior de todos os genocidas comunistas é importante, sobretudo porque a China atual segue um modelo de cerceamento de liberdades individuais, com controle absoluto do Estado, num contrassenso intrigante, haja vista seu mercado capitalista aberto (em parte). Ademais, estudar comportamentos totalitários é sempre instrutivo. Faz-se necessário refletir sobre o tema a todo momento.

Em discurso proferido na abertura da I Sessão da I Legislatura da Assembleia Popular Nacional da República Popular da China, em 15 de setembro de 1954, Mao deixa claro a máxima que rege seu governo: “A força-núcleo que dirige a nossa causa é o Partido Comunista da China. A base teórica que guia o nosso pensamento é o marxismo-leninismo”. Em análise dessas duas sentenças, é possível compreender duas coisas: 1) fica claro que o partido comunista tem poder absoluto, o que explica o a influência de Mao no governo chinês, mesmo após deixar o comando (como exposto acima). Como líder do Partido Comunista da China, portanto, ditava as regras; 2) a matriz ideológica do maior genocídio de todos os tempos é o marxismo-leninismo. As ideias revolucionárias – como a luta de classes e a eliminação dos burgueses – do prussiano Marx corriam nas artérias de Mao. Leiamos: “[…] o movimento de retificação é um ‘movimento geral de educação marxista'” (“retificação”, para Mao, significa o partido inteiro voltado ao estudo do marxismo).

Aqui há espaço para uma analogia com o lulopetismo, que, malgrado não possa ser enquadrado como arquétipo comunista, tem na raiz do Partido dos Trabalhadores o marxismo. A maneira como o lulopetismo governou o Brasil de 2003 a 2016, outrossim, é, guardadas as proporções, semelhante ao modelo do comunismo de Mao: o partido comanda! Nesse sentido, pode-se sim comparar o lulopetismo aos expoentes do comunismo no mundo.

Em 1957, no III Congresso Nacional da Liga da Juventude de Democracia Nova da China, Mao profere: “O Partido Comunista da China é o núcleo dirigente do povo chinês. Sem esse núcleo, a causa do socialismo não pode triunfar”.

Anos antes, em 1938, aquele que seria o responsável pela Grande Fome escreve sobre o papel do Partido Comunista da China (Tomo II): “Um partido político que dirige um grande movimento revolucionário não pode conquistar a vitória sem dominar a teoria revolucionária, sem possuir um conhecimento da História e sem compreender profundamente o movimento prático”. É clarividente a importância que Mao destina ao estudo da história cultural para o triunfo de uma revolução.

Mao, a luta de classes e a guerra cultural

A expressão “luta de classes” consta amiúde nas cartilhas de qualquer revolucionário que se preze. O motivo é óbvio: ela é o eixo-mestre da obra de Marx, tanto grafada em O Manifesto Comunista como nos volumes de O Capital. É sob esse guarda-chuvas da divisão de classes que o materialismo dialético histórico de Marx se estabelece. Mao Tsé-Tung, por sua vez, vai fundo nesse entendimento. Em 1949, escreve no Tomo IV de Abandonai ilusões e preparai-vos para a luta: “Luta de classes, umas classes triunfam e outras são eliminadas. Assim é a história, assim é a história da civilização, desde há milhares de anos”. Antes, em 1937, escreve em Sobre a Prática, (Tomo I): “Numa sociedade de classes, cada indivíduo existe como membro de uma classe […], e cada forma de pensamento está […] marcada com o selo de uma classe”. No trecho, Mao define a inserção do indivíduo na sociedade com o olhar mais marxista possível, ou seja, é a classe, e não o indivíduo em si, o agente determinante.

No Brasil, os movimentos de esquerda vão além da estratégica luta de classes para atingir seus objetivos, visto que esse método demonstra-se ultrapassado. Causar divisão, como ensina o velho pensamento leninista, é meio para a tomada de poder. Logo, estando defasada e incompleta para a tomada de poder a luta de classes, a divisão por gêneros, cor e raças é o caminho. Assim, portanto, trava-se uma guerra cultural. Abordaremos esse tema nos próximos textos, onde mais especificamente trataremos da hegemonia cultural do filósofo italiano Antonio Gramsci (1891 -1937).

Sob o aspecto do conceito, assim sendo – sejam classes, gêneros, raças ou cor -, prevalece a divisão como método de difusão política e ideológica das esquerdas, que se apropria de causas genuínas com fins políticos. É evidente que o racismo ainda é uma chaga no Brasil. É lógico que as mulheres em pleno século XXI precisam remar contra uma maré machista para conseguir buscar espaços. Não vou aqui falar sobre gênero, tema que não me compete discutir. O fato é que as esquerdas sequestram determinadas pautas de algumas minorias, contorcem e distorcem as narrativas de modo que lhes convém politicamente e difundem-nas. Em síntese, quando a luta de classe não é suficiente para as esquerdas, a guerra cultural é estabelecida.

Como pensa um revolucionário: eis o âmago do texto. A mente revolucionária é paralela ao mundo real. Falar sobre Mao Tsé-Tung em pleno 2022 pode parecer tema ultrapassado, mas não é. De quando em quando, ao longo das décadas, vemos no grande livro da História revolucionários passando a perna nas massas e se apropriando do poder, com os já mencionados discursos de divisão, além de populismo barato e engodo. Há alguns anos, no auge da crise na Venezuela, li uma pesquisa que apontava forte rejeição dos venezuelanos ao tiranete Nicolas Maduro; todavia a mesma rejeição ocorre quanto ao chavismo, amplamente defendido pela população. Aqui tratamos, é verdade, de um caso peculiar: um país com mais de duas décadas de doutrinação ideológica bolivariana. Não se reverte um estrago social-cultural como esse de um dia para o outro. O fato é que países com tendências populistas são presas fáceis para tiranos totalitários. Voltemos a Mao…

O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung permite-nos compreender o pensamento revolucionário e totalitário do socialismo, que arrasou e arrasa nações no mundo desde a Revolução dos Bolcheviques em 1917.

Na próxima parte do texto, seguimos com o pensamento do genocida Mao Tsé-Tung.

Referências:

Coleção Obra-prima de cada autor. O Livro Vermelho. Mao Tsé-Tung. Martin Claret: São Paulo, 2002.

Moniz Bandeira, Luiz Alberto. Lenin: vida e obra/Luiz Alberto Moniz Bandeira. 4° ed. rev. e ampl. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. 224 o.; il.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.