Eu tenho dúvidas! Eu tenho tantas dúvidas!

Print Friendly, PDF & Email

Assisti Doubt, pela primeira vez, numa peça off-Broadway, com Dame Eileen Atkins no papel da irmã Aloysius. Eu não estava preparado. A história me comoveu profundamente — não pelo escândalo insinuado, mas pela atmosfera que antecede qualquer prova: aquela sensação de que a virtude pode se tornar inquisitória quando perde a paciência com a incerteza.

Anos depois, em 2009, vi o filme no Brasil, com Meryl Streep no mesmo papel. A impressão foi a mesma. Não se tratava, propriamente, de culpa ou inocência. Tratava-se de método. Do que fazemos quando não sabemos — e, ainda assim, decidimos agir.

Com os acontecimentos recentes no Brasil — do inquérito das Fake News à última eleição, dos casos do 8 de janeiro, do julgamento de Bolsonaro ao caso Master — eu vinha tentando rever o filme. Não o encontrava nos streamings. Ontem, apareceu na Netflix. Foi como reencontrar uma pergunta antiga. A primeira cena é um sermão que termina com uma frase desconcertante: “Doubt can be a bond as powerful and sustaining as certainty. When you are lost, you are not alone.” A dúvida pode unir tanto quanto a certeza. Quando estamos perdidos, não estamos sozinhos.

É uma abertura quase irônica. Porque o que se segue é a história de alguém que não suporta a dúvida.

A irmã Aloysius desconfia do padre Flynn. A peça — e o filme — jamais nos oferecem prova conclusiva. O espectador é deixado na ambiguidade. Não sabemos. Não saberemos. E essa recusa do roteiro em resolver o enigma é o que lhe dá força: somos obrigados a habitar a incerteza. Aloysius, porém, não habita. Ela avança.

Assume, sem hesitação, o papel de investigadora, promotora e julgadora. O tom é acusatório desde o início. A suspeita antecede a prova; a convicção antecede o contraditório. A investigação não busca esclarecer, mas confirmar. E quando a confirmação não se impõe pelos fatos, ela se impõe pelo expediente.

No diálogo final, a irmã James pergunta se ela provou alguma coisa. A resposta é direta: não. Não provou a ninguém além de si mesma. Para forçar a saída do padre, mentiu. Disse que havia ligado para uma freira da paróquia anterior e descoberto um histórico comprometedor. A ligação nunca existiu.

A mentira funciona. E, para Aloysius, o fato de funcionar parece confirmar sua convicção. Se ele não tivesse culpa, pensa ela, o ardil não teria surtido efeito. A lógica é circular, mas suficiente para produzir o resultado desejado.

A peça, no entanto, não termina com a vitória. Termina com o colapso. “I have doubts! I have such doubts!

A mulher que atravessou todos os limites em nome da certeza termina dobrada pela dúvida. Não é absolvida pelo roteiro, mas humanizada por ele. Reconhece, tarde demais, que na perseguição do suposto mal pode ter ultrapassado a fronteira que dizia defender.

É difícil assistir a essa cena sem pensar no Brasil recente.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

Não nas paixões partidárias em si, mas no modo como o poder tem sido exercido. No tom acusatório que precede a instrução. Na convicção que parece anteceder o processo. Na elasticidade interpretativa que transforma texto em instrumento.

Entre nós, o drama assume contornos mais sutis. Não se mente; interpreta-se. O texto não é abandonado; é reconstruído. A regra não é negada; é lida à luz de princípios suficientemente amplos para permitir quase qualquer conclusão. A exceção não se declara; emerge sob a linguagem da necessidade. A toga não falsifica; ela constrói.

A diferença é relevante. A irmã Aloysius sabe que mentiu. Sabe que instrumentalizou um expediente ilegítimo. Por isso, no fim, desaba.

No Brasil contemporâneo, o problema raramente é a mentira deliberada. É algo mais sofisticado: a transformação da interpretação em construção sem fronteiras claras. A norma deixa de operar como limite e passa a servir de ponto de partida. O sentido público do texto cede espaço a finalidades consideradas superiores. O método se ajusta ao propósito.

Quando isso ocorre, não há ruptura ostensiva com a Constituição. Há algo mais delicado — e mais perigoso: a sua reconfiguração silenciosa.

Os réus do 8 de janeiro, culpados ou não conforme as particularidades de cada caso, tornaram-se para muitos símbolos de um mal político. E quando alguém se converte em símbolo, o processo deixa de ser apenas jurídico. Passa a carregar expectativas morais. A tentação, então, é moldar o Direito à narrativa, e não a narrativa ao Direito.

O Estado de Direito, porém, não foi concebido para os momentos em que estamos confortáveis com o réu. Ele foi desenhado precisamente para conter o impulso de julgar quando a certeza moral parece evidente. Sua função é impor ao julgador o desconforto da dúvida antes de autorizar o exercício do poder.

O que torna o final de Doubt tão perturbador não é a indefinição sobre o padre, mas a confissão da personagem. Ao reconhecer sua própria incerteza, Aloysius revela algo que ultrapassa o drama individual: a consciência de que julgar é um ato grave, e que a convicção não elimina a responsabilidade.

Talvez o traço mais inquietante do nosso tempo não seja o excesso de convicção política, mas a ausência visível de hesitação institucional. Não vemos confissões públicas de dúvida. Não percebemos o peso da responsabilidade transparecer nas decisões que redefinem limites, ampliam competências e moldam destinos. Vemos segurança. E a segurança absoluta, quando associada ao poder, raramente é virtude republicana.

A irmã Aloysius termina curvada pela dúvida. Entre nós, a certeza parece ter se tornado método. Uma República, contudo, não se sustenta sobre métodos voluntaristas, mas sobre limites linguísticos, institucionais e morais — e sobre a disposição de reconhecer que interpretar não é reinventar.

A ausência de dúvida no exercício do poder nunca foi um bom sinal.

*Leonardo Corrêa — sócio de 3C LAW | Corrêa & Conforti Advogados, com LL.M pela University of Pennsylvania, Cofundador e Presidente da Lexum e autor do livro A República e o Intérprete — Notas para um Constitucionalismo Republicano em Tempos de Juízes Legisladores.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Lexum

Lexum

A Lexum é uma associação dedicada à defesa da liberdade e do Estado de Direito no Brasil. Fundamentamos nossa atuação em três princípios essenciais: (1) o Estado existe para preservar a liberdade; (2) A separação de poderes é essencial para a nossa Constituição Federal; e, (3) A função do Judiciário é dizer o que a lei é, não o que ela deveria ser. Promovemos um espaço para advogados liberais clássicos, libertários e conservadores, estimulando o livre debate e o intercâmbio de ideias.

Deixe uma resposta

Pular para o conteúdo