Napoleão I – Imperador dos franceses (segunda parte)
2) Posição de Napoleão em face da religião
Quais os sentimentos de Napoleão em face da religião? O Imperador dos Franceses foi, antes demais nada, um homem saído da Ilustração e da Revolução de 1789, apaixonado pelo ideal da igualdade burguesa e portador dos seus valores: amor ao trabalho, disciplina, cientificismo, culto à vida familiar. Mas, ao mesmo tempo, Napoleão encarna a reação romântica que aspira ao heroísmo, que recrimina aos philosophes o seu menosprezo em face da religião popular e que busca a superação da dimensão puramente utilitária num projeto de vida que ultrapassa os interesses individuais, numa gesta identificada com o espírito do tempo. Em que pese o fato de o jovem oficial (que fora promovido a primeiro-tenente de artilharia em 1791), ser um ardente defensor da Revolução de 1789, não abjurou dos princípios de uma prática religiosa herdada de seus ancestrais, o que o levou, por exemplo, a cuidar pessoalmente da preparação de seu irmão caçula, Luís, para a primeira comunhão. É bem verdade que o Imperador de 1804 terá da religião católica uma visão puramente funcional: ela é a base sobre a qual se deve enraizar a moralidade pública. Mas trata-se de uma religião galicana, quer dizer, submetida ao domínio absoluto do Poder Imperial. Essa é a interpretação que Napoleão tem da Concordata assinada com Roma. “É necessário que o clero seja, como a magistratura, um instrumento do reino”, frisava o Imperador [apud Larousse, 2002: 113].
Esse caráter instrumental refletia-se na carta que Napoleão encaminhou, de Colônia, ao Papa Pio VII, por intermédio do seu tio materno, o cardeal Joseph Fesch (1763-1839), recentemente nomeado arcebispo de Lyon. O texto da missiva era do seguinte teor: “Santíssimo Padre, o feliz efeito que experimentam a moral e o caráter do meu povo pelo restabelecimento da religião cristã, leva-me a pedir à Vossa Santidade para que me dê uma prova do interesse que manifesta pelo meu destino e pelo desta grande nação, numa das circunstâncias mais importantes que oferecem os anais do mundo. Peço a Vossa Santidade para que queira dar, no mais eminente grau, o caráter da religião à cerimônia da sagração e da coroação do primeiro imperador dos Franceses. Essa cerimônia revestir-se-á de maior lustre se for feita por Vossa Santidade mesma. Ela atrairá, sobre a minha raça e sobre o meu povo, as bênçãos de Deus, cujos decretos moldam, segundo a sua vontade, a sorte dos impérios e das famílias. Vossa Santidade conhece os sentimentos afetuosos que lhe dedico desde há muito tempo e, em virtude disso, saberá julgar acerca do prazer que me oferecerá esta circunstância de lhe oferecer novas provas”. As provas que foram oferecidas ao Papa foram, realmente, as da posição sobranceira do Imperador sobre a Igreja. O caráter instrumental das suas palavras ficou claro quando, contrariando o Cerimonial no ato da coroação, Napoleão tirou a coroa das mãos do Papa e a colocou sobre a sua cabeça, procedendo de forma semelhante na coroação da Imperatriz Josefina.
Passados os anos, quando se aproximava já o fim dos seus dias em Santa Helena, Napoleão apresentará uma concepção mais aberta do fenômeno religioso (numa espécie de meio-caminho entre o otimismo leibniziano, o imanentismo espinosano e o pietismo kantiano), como testemunha Thiers na sua obra Histoire du Consulat et de l’Empire: “Na medida em que o tédio e a inação destruíam a sua saúde, ele via a morte se aproximar e se ocupava mais freqüentemente de filosofia e de religião. Deus, dizia, é visível em todas as partes do Universo e são bem cegos ou bem fracos os olhos que não percebem isso. Do meu ponto de vista, eu o descubro na natureza inteira, sinto-me sob a sua mão todo-poderosa e não busco duvidar da sua existência, pois eu não tenho medo d’Ele. Creio que Ele é tão indulgente quanto grande e estou convencido de que, tendo regressado ao seu vasto seio, encontraremos aí confirmados todos os pressentimentos da consciência humana e que aí será bom ou ruim o que os espíritos verdadeiramente esclarecidos tiverem considerado bom ou ruim na terra. Deixo de lado os erros dos povos, que se caracterizam pelo fato de que o erro de um não é o erro de outro; mas aquilo que os grandes espíritos de todas as nações tiverem declarado bom ou mau, ficará como tal no seio de Deus. Não duvido disso e, apesar dos meus erros, aproximo-me tranqüilamente da soberana justiça. Passo a ficar menos seguro quando entro no domínio das religiões positivas. Aí eu encontro, a cada passo, a mão do homem e amiúdo ela me ofusca e me choca… Mas é preciso não ceder a este sentimento, no qual entra muito de orgulho humano. Se deixarmos de lado as tradições nacionais com as quais todos os povos têm complicado a religião, encontramos neles a noção de Deus, a noção de bem e de mal firmemente professados, e isso é o essencial. Quanto a mim, tenho estado nas mesquitas, tenho visto ali homens ajoelhados diante do poder eterno e apesar de que meus hábitos nacionais fossem às vezes melindrados, no entanto jamais experimentei o sentimento do ridículo. A calúnia, deformando os meus atos, tem dito que no Cairo eu professei o islamismo enquanto que em Paris, diante do Papa, eu me apresentava como católico. Há, no entanto, parte de verdade nessa afirmação, pois mesmo nas mesquitas eu encontrava algo respeitável e, sem me emocionar como nas igrejas católicas onde se desenvolveu a minha infância, eu via ali o homem ajoelhado, humilhando a sua fraqueza diante da majestade de Deus. Toda religião que não seja bárbara tem o direito ao nosso respeito e nós, cristãos, temos a vantagem de ver nela uma que está voltada para as fontes da moral mais pura. Se devemos respeita-las todas, temos mais razão ainda para respeitar a nossa e cada um, por princípio, deve viver e morrer naquela em que a sua mãe lhe ensinou a adorar a Deus. A religião é uma parte do destino. Ela forma com o solo, as leis, os costumes, esse todo sagrado que chamamos pátria e do qual jamais podemos desertar. No que tange a mim, quando, na época da concordata, alguns velhos revolucionários me falavam para tornar a França protestante, eu ficava revoltado, como se me tivessem proposto abdicar da minha qualidade de Francês para me tornar inglês ou alemão” [apud Larousse, 2002: 111-113].
3) Atitude crítica em relação à societyparisiense
Napoleão, proveniente de famílias corsas de pequenos gentis-homens falidos, teve uma infância e uma juventude vividas na mais estrita limitação econômica. Daí o seu pendor pelo trabalho disciplinado e pela moderação nos gastos. Irritava-o sobremaneira a falta de ordem nas despesas domésticas. Já Imperador, vemo-lo vociferando no palácio das Tuilheries contra os gastos desregrados da Imperatriz Josefina. Essa morigeração foi transferida para a administração da coisa pública. A racionalidade econômica era a virtude que mais destacava um contemporâneo seu, que o acompanhou como sub-oficial de Dragões do Exército na campanha da Itália, o desconhecido escritor Marie-Henri Bayle (que depois assinaria as suas obras com o pseudônimo de Stendhal) [cf. Stendhal, 1996]. O jovem oficial Bonaparte era avesso à vida dos salões, em decorrência da sua mediocridade econômica e do interesse pelo estudo. A respeito, escreve um dos seus biógrafos: “Os cuidados que consagra à instrução do irmão deixam-lhe muito pouca folga, e convém acrescentar que, sendo dois a viver de um mesmo soldo, não sobrava grande coisa para fazer figura nos salões. Alguns sous disponíveis eram empregados na assinatura de livros (…). E os raros momentos de distração são destinados a escrever a tese destinada ao concurso da Academia de Lyon, e cujo tema era: Determinar as verdades e os sentimentos que mais importa incutir nos homens para faze-los felizes” [Lévy, 1943: 19].
Quando o nosso herói conquista o posto de general-comandante das tropas do Diretório em Paris, vemo-lo de novo à margem da vida dos salões, embora o seu cargo o obrigue a freqüentá-los. Se dependesse dele, não compareceria às animadas reuniões e festas que neles se celebravam. Napoleão pensava, mesmo no meio do luxo citadino, no seu ofício de guerreiro. Eis o que o jovem general escreveu ao seu irmão José em 1795, relatando a vida numa capital que tentava se reerguer das desgraças do Terror jacobino: “O luxo, o prazer e as artes ressurgem aqui de maneira espantosa; ontem apresentaram a Fedra, na ópera, em benefício de uma velha atriz; a assistência era imensa desde duas horas da tarde, embora os preços fossem triplicados. As carruagens, os elegantes reaparecem, e mais do que depressa se esquecem de tudo, como de um longo sonho, em que nunca deixaram de brilhar. As mulheres aparecem em toda parte: nos espetáculos, nos passeios, nas bibliotecas. Nos gabinetes dos sábios, vêm-se belas criaturas. Entre todos os lugares da terra é somente aqui que elas merecem ter o governo; também os homens daqui são uns loucos, não pensam senão nelas e não vivem senão para e por elas. (…) Tudo está tranqüilo… Este grande povo entrega-se ao prazer: as danças, os espetáculos e as mulheres que aqui são as mais belas do mundo tornam-se a grande preocupação. A abastança, o luxo, o bom tom, tudo voltou; não se recorda mais o terror senão como um sonho. Apresentaram hoje uma peça nova chamada Fabins, que mandarei a você assim que for publicada. Vive-se aqui muito bem, com muita preocupação de alegria; dir-se-ia que cada um procura descontar o tempo de sofrimento e que a incerteza do futuro leva a nada poupar dos prazeres do presente. (…) Quanto a mim, estou satisfeito; não me falta senão poder entrar nalgum combate; é preciso que o guerreiro conquiste os louros ou morra no campo da glória. Esta cidade é sempre a mesma: tudo para o prazer, para as mulheres, os espetáculos, os bailes, os passeios, os ateliês dos artistas” [Lévy, 1943: 35].
Nesse contexto de futilidade social, Napoleão conheceu Madame de Staël, que estava na mira do Diretório pelas suas relações com membros da antiga nobreza e em decorrência, também, das suas idéias liberais. A brilhante escritora quis se aproximar do nosso herói, tentando seduzi-lo com a sua inteligência. Eis o diálogo que se passou entre a jovem senhora e o general, segundo o testemunho de um dos presentes, Arnault: “É difícil abordar-se o seu general, me disse ela, preciso que o senhor me apresente a ele. – Ela cumulou Napoleão de galanteios; mas Bonaparte, deliberadamente, deixava a palestra esfriar. Madame de Staël, desapontada, procurava todos os assuntos possíveis: – General, qual é a mulher que o senhor mais amaria? – A minha. – Isto é natural, mas qual é a que o senhor mais quereria? – A que melhor soube cuidar do lar. – Ainda estou de acordo com o senhor. – Mas, finalmente, qual é, na sua opinião, a primeira entre as mulheres? – A que produz mais filhos. Dito isto, Bonaparte deu-lhe as costas, deixando-a estarrecida” [Lévy, 1943: 262]. Anotemos um detalhe que põe de relevo, de um lado a agressiva personalidade dirigente do Imperador e, de outro, o seu especial sentido de honra que aprofundaremos no próximo item: depois de ter considerado a grande escritora “um verdadeiro corvo (…) que se multiplicou em conspiratas e loucuras” [apud Lévy, 1943: 263], depois de tê-la banido durante dez anos da França, obrigando-a a peregrinar pela Europa afora como ela própria testemunha em Dix années d’exil, depois de ter mandado destruir a edição do clássico livro dela intitulado De l’Allemagne, o outrora feroz guerreiro não deixou de reconhecer os méritos da sua pior inimiga, no retiro de Santa Helena, ao afirmar: “Madame de Staël é uma mulher de grande talento, especialmente singular, possuidora de muita força interior: ela permanecerá” [apud Las Cases, 1968: 521]. O Imperador sabia valorizar os que rivalizavam com ele!
4) Sentido da honra
Napoleão cultivou, desde a sua juventude, um particular sentido da honra, que o levava não a brigar afoitamente com aquele que o ofendesse, mas a lhe dar uma resposta à altura, no decorrer do tempo.Vejamos alguns exemplos desta peculiar forma de reagir, que denota mais a atitude de quem, cônscio do seu valor e da sua força, calcula meios e fins, daquele que não quer comprometer os planos longamente traçados por causa de uma vingança afoita em face de provocações. Às meninas que o apelidaram de “gato de botas” quando jovem segundo-tenente em La Fère, Bonaparte deu uma resposta no mínimo original. Escutemos o testemunho de um de seus biógrafos: “Obedecendo à ordem de partir, alegre como o pode ser um segundo-tenente de 16 anos, Napoleão enverga o uniforme, despido de elegância, pois suas posses lhe impõem a mais severa economia. Suas botas eram tão singularmente grandes que as pernas, muito finas, desapareciam inteiramente. Orgulhoso do novo uniforme, Napoleão vai à casa dos seus amigos Permon. Ao vê-lo, as duas filhinhas do casal, Cecília e Laura (esta última tornou-se mais tarde duquesa de Abrantes), não podem conter o riso, e o apelidam em sua presença de Gato de Botas. O jovem tenente não se aborreceu, ao que parece, pois, segundo nos diz uma delas, levou-lhe alguns dias depois o conto de Perrault e um carrinho com um gato de botas” [Lévy, 1943: 10-11]. Lembremos que o título de duquesa de Abrantes foi concedido pelo Imperador a Laura, com o que se revela uma segunda faceta de uma “vingança com luva de pelica”, praticada vinte anos depois.
Um outro exemplo da peculiar forma de Napoleão viver o seu sentido da honra. Em 1794 Robespierre, o Jovem, seu protetor, incumbiu-o de uma missão secreta na Suíça. Alguns meses depois, o mandante foi destituído e guilhotinado. O comissário Salicetti ordenou então a prisão do jovem Bonaparte, que foi encarcerado no forte Carré, perto de Antibes. O prisioneiro rejeitou a ajuda dos seus companheiros de armas para tira-lo da prisão pela força, preferindo se submeter aos aborrecimentos e riscos do processo jurídico normal. Na sua defesa, alegou apenas razões processuais e lembrou os serviços prestados à República. Eis as palavras da intervenção do oficial, cheias, aliás, de dignidade militar: “Servi em Toulon com algum mérito, e obtive no exército da Itália uma parte dos louros com que ele se cobriu durante a tomada de Saorgio, d´Oneille e de Tanaro. Por que declarar-me suspeito sem me ouvir? Declaram-me suspeito e embargam os meus documentos. Deveriam fazer o inverso: embargar os meus documentos, ouvir-me, pedir esclarecimentos, e em seguida declarar-me suspeito, se houver motivos para isso”. O comissário Dennié examinou os papéis apreendidos e, não encontrando mérito para a acusação, colocou o jovem Bonaparte em liberdade. Em 1795, um ano depois desses acontecimentos, o flamante general achava-se à frente do exército republicano da Itália e encontrou, escondido na casa dos seus amigos Permon, o famigerado Salicetti, que tinha caído em desgraça perante a Convenção. Em lugar de prende-lo, Bonaparte deixou-o fugir bem disfarçado. E como resposta à sua passada vilania enviou-lhe a seguinte nota: “Salicetti, você bem vê que eu poderia ter pago o mal que me fez e, se eu tivesse agido dessa forma, estaria apenas me vingando, ao passo que você me prejudicou sem que eu o tivesse ofendido. Vá, procure em paz um asilo em que você possa voltar a ter melhores sentimentos para com a sua pátria” [Lévy, 1943: 28].
Um outro exemplo. Em 1796, tendo sido feitas as proclamas do casamento, Napoleão, completamente feliz pela conquista, fazia visitas com a noiva Josefina. Esta, hesitante, quis visitar o tabelião Raguideau para receber um último conselho, e solicitou a Bonaparte que ficasse na sala de espera. Eis o teor do conselho do tabelião, segundo testemunho de Bourrienne: “Por que casar com um general que não tem senão a capa e a espada, e que só possui uma casinhola? Um generalzinho sem nome, sem futuro, abaixo de todos os grandes generais da República! Era melhor casar com um fornecedor do Exército!” [Lévy, 1943: 57]. Napoleão, que escutou a conversa por uma porta semi-aberta, não falou nada. Oito anos mais tarde, no entanto, na véspera da coroação, fez chamar às Tulherias o burguês Radigueau e lhe deu um lugar na primeira fila da Catedral de Notre Dame, para assistir à cerimônia, a fim de que o reles tabelião pudesse ver com os próprios olhos o lugar onde o generalzinho sem futuro tinha colocado a sua antiga consulente.
Ressalta, no comportamento de Napoleão, a gratidão para com os seus mestres e antigos servidores. O padre Dupuis, que foi professor do nosso herói quando da sua primeira formação em Brienne (de abril de 1779 a setembro de 1784), veio a ser conselheiro de Napoleão, tornando-se depois bibliotecário em Mailmason, a residência do Primeiro Cônsul. Sabedor da morte de seu velho mestre, em 1807, o Imperador escreveu de Osterode à Imperatriz: “fale-me da morte desse pobre Dupuis; mande dizer ao irmão dele que o protegerei”. O padre Carlos, capelão, e que lhe havia administrado a primeira comunhão, quando menino, jamais foi esquecido. Em 1790, Napoleão, tenente de artilharia em Auxonne, não deixa, cada vez que vai a Dôle, de visitá-lo. O velho Dupré foi professor de história sagrada de Napoleão em Brienne e apareceu um dia em Saint-Cloud para lembrar ao ilustre ex-aluno esse fato; recebeu do Imperador, imediatamente, uma pensão de 1.200 francos. O padre Patrault, seu professor de matemática, viveu em companhia de Napoleão em 1795 e foi um dos seus secretários no exército da Itália. Os próprios porteiros do colégio de Brienne, Hauté e sua mulher, tornaram-se mais tarde porteiros da residência do Primeiro Cônsul. A velha professora Madame de Montesson, que lhe colocou na cabeça a primeira coroa de prêmio escolar, é chamada pelo Imperador às Tulherias e recebe de volta todos os bens que lhe tinham sido confiscados pelos jacobinos. Seria longa a lista dos antigos mestres e servidores beneficiados pelo ilustre ex-aluno. Terminemos este relato lembrando talvez o mais importante de todos eles, o grande físico Pierre-Simon de Laplace (1749-1827), que foi professor e examinador de matemáticas do jovem Bonaparte na Escola Militar em Paris, em 1785. Laplace foi nomeado ministro do interior por Napoleão, depois senador e, finalmente, conde do Império. Bem é verdade que o sábio ficou poucos dias no gabinete (6 semanas), tendo o Imperador alegado o seguinte motivo para afastar o seu antigo mestre do ministério: “Geômetra de primeira linha, Laplace não tardou em se revelar um administrador mais do que medíocre. Desde o início percebemos que tínhamos nos enganado. Laplace não tomava decisões senão com o seguinte critério: ele procurava subtilezas em tudo, não tinha mais do que idéias problemáticas e introduzia, enfim, o espírito dos infinitamente pequenos na administração” [Unicaen, 2004: 9].
5) Etapas da formação intelectual de Napoleão
Três grandes etapas podemos distinguir na formação intelectual do nosso herói: A – Primeira formação (entre 1779 e 1785), obtida nas Escolas Militares de Brienne e do Campo de Marte, em Paris, onde deita as bases da sua formação humanística (estuda latim e lê Plutarco), e familiariza-se com os fundamentos da matemática sob a orientação de vários mestres, sendo o mais importante deles o grande sábio Laplace. B – Formação como oficial artilheiro (entre 1785 e 1789), nos regimentos de La Fère, Valence, Lyon, Douai e Auxonne, onde estuda os princípios básicos da tática militar, da história militar e da artilharia, sob a orientação do barão du Teil e onde completa a sua formação humanística e política com a leitura das obras de autores representativos da cultura antiga (Platão, Cícero, Cornélio Nepote, Tito Lívio, Tácito), bem como de escritores modernos (Rousseau, Montesquieu, Montaigne, Corneille, Maquiavel, Guibert, Mably, Voltaire, Mirabeau, Raynal, Jacques Necker, etc.). Interessa-se, neste período, outrossim, pela história de outras culturas como a dos povos Árabes, da Inglaterra, da Prússia, da Suíça, da República de Veneza, etc. Interessa-se também pelo estudo do Direito Romano. Completa a sua formação com o aprofundamento dos conhecimentos científicos nos terrenos da matemática, da física, da química e da astronomia. C – Complementação da sua formação militar como oficial revolucionário (entre 1790 e 1795), inicialmente partidário dos jacobinos (influenciado por Robespierre, o jovem), mas logo contrário a eles (sob a influência de Barras). Bonaparte teve oportunidade, nesta etapa da sua formação, de confrontar os seus conhecimentos teóricos com a ação guerreira na Córsega, onde lutou, com a patente de Coronel, na defesa dos princípios da Revolução e com o cerco e a tomada de Toulon à armada inglesa, em dezembro de 1793, tendo sido o plano militar obra do recém-formado artilheiro. Esta etapa de formação termina com a brava defesa que o jovem general faz da Convenção em Paris, em 1795, contra um levante monarquista.
As obras escritas por Napoleão são mais numerosas do que se imagina. Escreveu muito, antes de assumir o poder, escreveu muito também estando nele, e ditou muito quando saiu da atividade política. Os seus escritos cobrem uma variadíssima gama de assuntos, indo desde a história, passando pelas ciências naturais, a política, a crítica teatral, a teoria do Estado e do direito público, a crônica, a agricultura, as relações internacionais, a historiografia militar, a educação, as matemáticas, a religião, o romance e o conto, e chegando até os estudos estratégicos e de táctica guerreira que são, evidentemente, os que mais se destacam. O estilo do Imperador era claro, simples, mas pouco elaborado em decorrência, provavelmente, das circunstâncias agitadas por ele vividas, sendo o lugar de trabalho não propriamente o elegante despacho imperial em Paris, mas a improvisada tenda no front.
Dentre os vários ensaios e obras literárias que integram a produção intelectual do Imperador, podemos salientar os seguintes, em ordem cronológica de publicação [cf. Larousse, 2002: 223-228]: Memorando de um curso de mineralogia (sem data), Plano de reforma das Escolas Militares (1785), Memória acerca da educação dos jovens Maniotes (1785), Máscara vidente (conto oriental, 1786-1787), Romance Corso (obra literária, 1786-1787), O Conde de Essex (romance, 1786-1787), Pesquisas sobre a ciclóide (Auxonne, 1788), Memória sobre o cultivo da amoreira (Auxonne, 1788), Memória acerca da maneira de distribuir as peças de canhão para o lançamento das bombas (Auxonne, 1788), Dissertação sobre a autoridade real (Auxonne, 1788), Memória sobre a Córsega (1788), História da Córsega (1788), Carta acerca do juramento constitucional dos sacerdotes (1790), Manifesto do corpo municipal de Ajaccio (1790), Cartas sobre a Córsega dirigidas ao Abade Raynal (1790), Dissertação sobre o amor (Valence, 1791), Discurso sobre esta questão proposta em 1791 pela Academia de Lyon: “Determinar as verdades e os sentimentos que é necessário inculcar mais nos homens para a sua felicidade” (Lyon, 1791), Plano de organização das Milícias corsas (1792), Informe acerca da necessidade de conquistar as ilhas da Madalena (1792), Projeto para a defesa do golfo de Ajaccio, para a defesa de Mortella, etc. (1792-1793), Memória ao ministro da guerra acerca do plano de ataque de Toulon (Ollioules, 1793), Souper de Beaucaire (Avignon, 1793), Petição à Convenção Nacional (1793), Planos para a segunda operação preparatória para o início da campanha do Piemonte (Nice, 1794), Compilação de matérias históricas e militares do exército da Itália, ou Memória das operações deste exército (Colmar, 1794), Compilação sobre a história (1794-1796), Memória e itens diversos relativos à colocação em estado de defesa das costas do Mediterrâneo (Marselha, 1794), Disposições da força armada para o seu serviço em Paris (1795), Memória sobre o aperfeiçoamento da artilharia turca (1795), Nota sobre os meios de aumentar o poder da Turquia contra a invasão das monarquias européias (1795), Projeto para fechar com uma muralha dentada os fortes que dominam Marselha (1795), Entrevista de Bonaparte com muitos muftis e imãs no interior da grande pirâmide chamada de Queóps (1798), Comunicado da municipalidade de Ajaccio a Paoli (1799), Boletins da campanha de Marengo (1800), Allocuzione fatta dal primo console, dirigida aos sacerdotes de Milão (1800), Coleção geral e completa das cartas, proclamas, etc., de Napoleão o Grande, publicadas no Moniteur (Leipzig, 1808-1813, 2 volumes), Ordens-do-dia do exército da Alemanha (1809), Compilação de manifestos, proclamas, etc., extraídos do Moniteur (Londres, 1810), Boletins da Grande Armée aparecidos no Moniteur (Paris, 1812-1814), Cartas escritas em Longwood, ou Cartas do Cabo da Boa Esperança (1817), Confissões do imperador Napoleão (Londres, 1818), Correspondência inédita, oficial e confidencial de Napoleão Bonaparte com as cortes estrangeiras (organizada pelo general Beauvais, Paris, 1819-1821 7 volumes), Correspondência de Bernardotte com Napoleão, de 1810 até 1814 (Paris, 1819), Correspondência inédita de Carnot com Napoleão durante os Cem Dias (Paris, 1819), Conselhos do Imperador ao seu filho (1821), Compêndio de peças autênticas acerca do cativo de Santa Helena, de memórias e documentos escritos ou ditados pelo imperador Napoleão (Paris, 1821-1825, 12 volumes), Testamento de Napoleão (1822), Napoleão no exílio ou O Eco de Santa Helena (traduzido do inglês por Mme. Collet, Paris, 1822), Memórias para servir à história da França sob Napoleão, escritas em Santa Helena pelos generais que compartilharam do seu cativeiro e publicadas de acordo aos manuscritos corrigidos pela mão de Napoleão (Paris, 1823, 8 volumes), Os Bourbons em 1815; Manuscrito da Ilha de Elba ditado por Napoleão e publicado pelo general-conde Bertrand (Bruxelas, 1825), Discursos de Napoleão Bonaparte, oficial de artilharia, escritos em 1791 (Paris, 1826), Acerca da importância das praças fortes (1826), Máximas de guerra de Napoleão (Paris, 1830), Opiniões de Napoleão sobre diversos assuntos de política e de administração (obra organizada por Pelet de la Lozère, Paris, 1833), Napoleão, compilação em ordem cronológica de suas cartas, proclamas, etc. (organizada por Kermoysan, Paris, 1833-1853, 3 volumes), Compêndio das guerras de César (Estrasburgo, 1836), Correspondência e relatórios de J. Fiévée com Bonaparte (Paris, 1836, 3 volumes), Napoleão, as suas opiniões e julgamentos sobre os homens e sobre as coisas, organizados em ordem alfabética (obra preparada por Damas-Hinard, 1838, 2 volumes), Informe sobre a jornada de 13 vendimiário ano IV (1840), Cópia de um manuscrito da mão de Napoleão Bonaparte, com a ortografia que existe no mesmo manuscrito (Paris, 1841), Fragmentos religiosos inéditos; Sentimentos de Napoleão sobre a divindade, pensamentos recopilados em Santa Helena por Montholon e publicados pelo cavalheiro de Beauterne (Paris, 1841), Sentimentos de Napoleão sobre o cristianismo, conversações religiosas recopiladas em Santa Helena por Montholon (Paris,1843), Guerra de Oriente, campanhas de Egito e da Síria (Paris, 1847, 2 volumes), Guerras de Oriente; Campanhas do Egito e da Síria; Memórias para servir à história de Napoleão, ditadas por ele mesmo em Santa Helena e publicadas pelo general Bertrand (Paris, 1847, 2 volumes), Notas do Imperador Napoleão sobre a história da Inglaterra (Paris, 1850), Pensamentos e máximas do imperador Napoleão, recopilados das suas memórias e da sua correspondência (obra organizada por E. Alex Husson, Paris, 1852), Giulio, conto sentimental improvisado por Napoleão (Paris, 1852), Os poloneses em Somo-Sierra em 1808, seguido das opiniões de Napoleão 1o. sobre a Polônia (Paris, 1855), Máximas, pensamentos e reflexões de Napoleão 1o. (obra organizada por A. D. Mariotti, Bastia, 1857), Correspondência de Napoleão 1o. (Paris, 1858-1869, 32 volumes), Alésia (Paris, 1859), Testamento religioso de Napoleão 1o., a sua profissão de fé sobre Deus, sobre Jesus Cristo e sobre os principais dogmas do cristianismo (Paris, 1861), Regulamento interno do regimento de La Fère, composto em 1788 por Napoleão Bonaparte (1862).
As Obras Completas de Napoleão conheceram uma primeira edição entre 1822 e 1823, em Sttutgart, em 5 volumes organizados por Linder e Lebret, tendo sido editadas também em Paris, em 5 volumes, em 1822. Tratava-se, evidentemente, de edições incompletas, devido ao fato de muitos escritos do Imperador terem visto a publicidade anos mais tarde.
*Artigo publicado originalmente no site do autor.



