O eterno golpe e o desespero de um narcisista em queda

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Como o país teve ocasião de ver, diante dos amplos indícios de que mantinha uma relação promíscua e ilícita com Daniel Vorcaro, a defesa de Alexandre de Moraes consiste em se dizer vítima, não de um golpe, mas “do” golpe, do eterno golpe, nunca vencido, sempre carecendo da perpétua salvação da democracia.

Moraes argumenta, tanto na peça ridícula que encaminhou ao ministro Fachin quanto em sua leviana fala no julgamento no qual figura como potencial investigado e julgador (um dos papeis que lhe faltava para gabaritar as esferas do direito, sendo o outro, que assim seja, o de réu), que o dito “golpe” não se encerrou com o 8 de janeiro ou com as centenas de condenações (em julgamentos de exceção), mas seria um complô ativo do qual o ministro André Mendonça seria figura elementar. Para salvar a pele, Moraes não hesita em arguir que essa delirante conspiração teria se infiltrado na própria corte por meio de um colega.

A narrativa, tão lunática quanto desesperada, não merece maior análise, pois quem dela se convence já está perdido. Moraes, tão supostamente cioso da cruzada contra a tal desinformação, age como verdadeiro conspiracionista, uma ironia que não surpreende àqueles que sabem que cedo ou tarde os radicais acabam se assemelhando àqueles que atacam. O que esperar de alguém que, literalmente, já se definiu como “herói”? O que estamos vendo é o desespero de um narcisista, até ontem incensado por diversos setores da opinião pública como um salvador da democracia, em queda.

O que precisa ficar claro é que a narrativa do golpe como escudo contra a crítica e até mesmo como licença para cometer possíveis ilícitos não é uma novidade. Não aceitem a narrativa de que houve de fato uma tentativa de golpe, que o STF o impediu, tendo nessa seara o ministro Alexandre de Moraes primazia, mas que eventualmente ele se perdeu no caminho. Não. Não houve golpe ou tentativa com chances de sucesso no 8 de janeiro; o STF não impediu nem mesmo “atentados” contra relógios, estátuas ou vidraças, quanto mais golpe de Estado; Moraes sempre foi este ser truculento que viu na suposta defesa da democracia uma forma de abocanhar mais poder e influência (bem vemos agora para que essa influência pode ter servido). Junto com Moraes, deve cair a farsa do golpe que, como não resta migalha de dúvida, serviu desde a primeira hora aos interesses dos donos do poder.

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A podridão que habita o STF não é de agora. Vamos lembrar aos seletivamente amnésicos que com um mês, apenas um mês, após a abertura do Inquérito das Fake News, o Antagonista e a Revista Crusoé foram previamente censurados por Moraes por publicar a informação, absolutamente verídica, de que Dias Toffoli, então presidente da corte, teve o nome mencionado na delação de Marcelo Odebrecht. Isso não impediu a banda podre de imprensa de servir de sustentáculo para o regime nos anos que se seguiram. Desde sua gênese, a censura esteve a serviço do patrimonialismo. Ironicamente, Toffoli e Moraes, os arquitetos do famigerado inquérito (sem que isso isente a responsabilidade dos demais ministros, com a exceção de Marco Aurélio de Mello), são também os dois ministros do STF mais implicados no escândalo do Master.

Contemplem o quão baixo chega o nefando narcisista e vislumbrem o que nos reserva o futuro caso ele continue na corte. Se Moraes assumir a presidência da suprema corte em setembro de 2027, os últimos sete anos e meio parecerão um passeio no parque; se o fizer estando Lula na presidência, indicando mais quatro Dinos ou Mendes para serem acólitos do ignóbil déspota, o país já era. Se Alexandre de Moraes fez o que fez como ministro relator, imaginem o que fará como chefe do Poder Judiciário.

Ora, se, para ele, o “golpe” segue ativo, estejamos certos de que a rede do arbítrio capturará todos os críticos, sejam dele, da juristocracia ou do governo, transformando-os (ou transformando-nos) em “golpistas”. Como o regime atual dispensa o nexo casual ou provas, estaremos todos sob risco de sermos apontados como integrantes dessa elaborada “conspiração” que começou com idosos, manicures e vendedores ambulantes. Como agravante, consideremos que Moraes, com sangue nos olhos, terá seu habitual ódio alimentado por um cego desejo de vingança por conta da humilhação que está sofrendo. Seria, meus caros, a conversão da atual juristocracia em ditadura aberta. Ao povo compete impedir que isso aconteça.

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Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

Graduado em Música e Economia, atua como articulista político nas horas vagas. Atuou como colunista do Jornal em Foco de 2017 a meados de 2019. Colunista do Instituto Liberal desde agosto de 2019.

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