Até onde a imprensa vai para atacar um desafeto como Bolsonaro?

Por esses dias, tivemos acesso a um artigo publicado no The New York Times com o título The End of the Left and the Right as We Knew Them. A tese principal do autor, o jornalista e acadêmico “liberal” (da esquerda americana) Thomas Edsall, é de que as divisões políticas tradicionais seriam insuficientes para dar conta do quadro contemporâneo, em que as principais divisões se centrariam, grosso modo, em uma espécie de nacionalismo de modos tradicionais, nalguns países majoritariamente rural, presa de um populismo avesso ao cosmopolitismo; e uma esquerda “bem-formada, educada, instruída e prafrentex”, aberta a abraçar todo tipo de causa nomeadamente progressista.

A despeito de todos os preconceitos (no sentido mais negativo do termo), da ausência mal-intencionada de nuances e do proporcional excesso de simplificações, o texto de Edsall sugere um ponto digno de reflexão: o descolamento de uma certa elite intelectual (e mesmo econômica) dos sentimentos e referenciais simbólicos, culturais e políticos da população em geral, algo que assumiu contornos de ampla alienação. Tal descolamento levou ao horror e à surpresa, por exemplo, diante da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos – mas não sem antes um dos principais canais de veiculação das agendas dessa “elite”, a grande imprensa, disseminar uma série de “notícias” de toda sorte distorcendo, exagerando ou por vezes até inventando afirmações falsas sobre o presidente.

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O mal das fake News não se limita aos Estados Unidos. Pense-se o que se queira a respeito de lideranças como Trump, a imprensa pode ser tão ou mais perigosa quanto um político à testa do Estado a partir do momento em que consideramos sua prerrogativa forjar historietas para difamar seus desafetos. Antes que certas imaginações afetadas pelas mesmas sensibilidades idiossincráticas alastradas em meio a essa “elite intelectual-econômica” nos acusem de estímulo à censura, como a histeria as tem levado a fazer em relação a certos episódios, estamos apenas apontando um fato preocupante. Considerando que para muitos, embora felizmente cada vez menos numerosos, a grande imprensa ainda detém o poder de estabelecer a verdade, e mesmo nós, pessoalmente, na pressa, já incorremos em nossos enganos graças a ela, é uma realidade gravíssima para a qual devemos estar atentos, também em nosso país.

Jair Bolsonaro, cotado para concorrer à presidência da República, esteve em Minas Gerais, onde, falando ao público, enfatizou suas conhecidas bandeiras, como o combate ao desarmamento, a “exploração das nossas riquezas” e o enfrentamento das hipocrisias dos militantes de entidades que se dizem defensoras dos “direitos humanos”. A imprensa repercutiu a sua presença por lá, mas da pior maneira possível: distorcendo e descontextualizando o que disse. Como infelizmente temos que ser muito pedagógicos e redundantes nos dias que correm, insistimos: fosse Bolsonaro, Caiado, Doria ou até mesmo o Lula o personagem envolvido, por menos apreciado ou respeitável aos nossos olhos, precisamos reagir ao embuste. Neste caso, os canais e páginas liberais e conservadores, dentro de suas possibilidades, têm o dever de retificar o que é espalhado por essas redações onde escasseia o caráter, se quiserem dar testemunho de seus valores.

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O Globo, o Yahoo, o Hoje em Dia, o Estado de Minas e, obviamente, o Brasil 247, para ficar nos exemplos que encontramos até o momento, reproduziram como notícia uma declaração de Bolsonaro dando conta de que ele prometeu aos mineiros a patética e surreal medida de criar uma abertura do estado para o mar. “Vamos explorar nossas riquezas, quem sabe até abrindo uma saída pro mar para Minas Gerais. Nós vamos satisfazer o desejo do mar de ganhar Minas, podem ter certeza disso”, teria dito o parlamentar.

Realmente, Jair Bolsonaro disse essas palavras. Porém, como poderá constatar quem assistir ao vídeo, aguardou as gargalhadas para complementar “brincadeiras à parte”. Ninguém que assista a esse registro dos fatos poderá testemunhar que Bolsonaro falava sério, a não ser que: 1) tenha seríssimas deficiências cognitivas e desconheça o conceito de “piada”; ou 2) seja desonesto. É estarrecedor que tantos jornalistas, de veículos diferentes, tenham compartilhado uma interpretação tão primariamente equivocada; o automatismo na pretensão de ridicularizar uma figura indesejável se sobrepôs, sem a menor ética, à preocupação com averiguar os acontecimentos – ou, no caso de quem esteve efetivamente no local e veiculou a informação, ficou claro que temos muitos repórteres enquadrados nos dois problemas acima mencionados, no mínimo danosos ao ofício.

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Apesar da persistência nas mentiras por parte da imprensa ser uma seríssima constatação, na experiência americana, isso acabou fortalecendo o seu alvo. Essa consequência provou que os “toscos e caipiras” aos quais sub-repticiamente se refere a análise de Edsall estão, em significativa parcela, cansados dessa fina elegância revestindo as mentiras mais sórdidas. Edsall encerrou seu artigo como que dizendo que a esquerda precisa aprender a falar um tanto mais a esse “povão” para voltar a ganhar espaço –  ou seja, basicamente lhe deu um conselho. Achamos que seria decente acrescentar que essa “esquerda iluminada” nas redações de jornal deveria simplesmente parar de mentir, principalmente porque, hoje em dia, não é mais tão difícil apanhá-la em suas travessuras.

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