A tradição sueca da liberdade
Em sua Germania, escrita em 98 d.C., o cronista romano Tacitus descreveu o autogoverno germânico por meio de assembleias, nas quais disputas eram resolvidas, infratores eram condenados, reis eram escolhidos (e depostos) e, mais importante, a lei era definida e revisada. Por exemplo, em 852, o missionário Ansgar, bispo de Hamburgo, retornou à Suécia após uma viagem anterior. Ele foi informado pelo rei sueco Olof de que, em seu país, o controle dos assuntos públicos cabia a todo o povo e não ao rei. Assim, Ansgar solicitou e obteve permissão de uma assembleia para pregar, como retratado na pintura acima de Wenzel Tornøe. De fato, os suecos podem orgulhar-se de uma longa tradição de governo limitado e democracia representativa. Os reis estavam submetidos à lei como o resto da população e precisavam buscar o consentimento de assembleias populares para todas as decisões importantes.
Democracia camponesa
Outro exemplo dessa tradição germânica é um discurso do lawman sueco Torgny em uma assembleia regional em 1018. O rei sueco Olof era hostil ao seu homônimo, o rei Olav da Noruega. Mas, se ele decidisse declarar guerra à Noruega, disse Torgny, os camponeses o matariam. Ele lembrou que alguns reis anteriores haviam sido mortos por ilegalidade e arrogância. O rei Olof recuou imediatamente. Quando os suecos elegeram um rei em uma reunião em 1319, adotaram uma carta que limitava seu poder: nenhum novo imposto poderia ser cobrado sem o consentimento do povo, e nenhum homem poderia ser punido a menos que tivesse violado a lei. Em 1397, porém, o monarca dinamarquês adquiriu a coroa sueca. Mas o domínio dinamarquês era impopular e, em 1434, o proprietário de uma mina, Engelbrekt Engelbrektsson, liderou uma rebelião contra os dinamarqueses. Em 1435, em uma reunião em Arboga, ele foi eleito Líder do Reino. Essa é tradicionalmente considerada a primeira reunião do Riksdag sueco, uma Dieta de quatro Estados: a nobreza, o clero, os burgueses e os camponeses. A Suécia foi o único país europeu em que os camponeses estavam representados no parlamento (embora na Noruega e na Suíça também houvesse alguma representação em assembleias populares). No entanto, Engelbrekt foi logo assassinado.
Liberalização na Suécia
Após a Suécia recuperar sua independência em 1523, os reis buscaram ampliar seus poderes. Eles impuseram o absolutismo em 1680, embora a Dieta dos Quatro Estados continuasse a existir. Mas, quando a Suécia foi derrotada na Grande Guerra do Norte de 1700–1721, o monarca teve de transferir poderes significativos ao Parlamento, onde se formaram dois partidos, semelhantes aos Whigs e Tories na Inglaterra. Sob a influência de um delegado finlandês do Estado do Clero, Anders Chydenius, a Suécia adotou, em 1765, uma Lei de Liberdade de Informação, a primeira do tipo na Europa. Ela também aboliu alguns monopólios comerciais. Em 1809, um rei autoritário foi deposto em uma rebelião liderada pelo conde Georg Adlersparre, que havia traduzido partes de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, para o sueco. Adlersparre foi provavelmente o primeiro a usar a palavra “liberal” para descrever suas próprias ideias. Mas foi o barão Johan August Gripenstedt, ministro do governo em 1848-1866 e discípulo fervoroso do defensor francês do livre comércio Frédéric Bastiat, quem transformou a economia da Suécia por meio de um programa abrangente de liberalização. Consequentemente, entre 1870 e 1930, a Suécia tornou-se um dos países mais ricos do mundo.
Uma forte tradição
No início do século XX, dois economistas suecos mundialmente conhecidos, Gustav Cassel e Eli F. Heckscher, tornaram-se críticos eloquentes e eficazes do socialismo. Foi em grande parte por causa da influência deles que os social-democratas, que chegaram ao poder em 1932 e governaram continuamente até 1976, tiveram de recuar de suas posições mais extremas. Nas últimas décadas do século XX, a longa tradição sueca de liberdade foi reforçada, tanto na teoria quanto na prática. Ela demonstra bem sua força e raízes profundas ao resistir tanto ao ataque de reis que afirmavam reinar pela graça de Deus quanto ao de sociais-democratas que afirmavam governar em nome do povo. A Suécia deveria ser uma inspiração não para sociais-democratas, mas tanto para conservadores quanto para liberais.



