O tamanho do Estado e a corrupção sob uma perspectiva liberal

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A corrupção costuma ser explicada como consequência da falta de caráter de determinados indivíduos ou como um traço cultural de certas sociedades. Embora fatores éticos e culturais possam influenciar esse fenômeno, uma tradição importante do pensamento liberal sustenta que sua intensidade depende, sobretudo, da forma como o poder político é organizado. A corrupção prospera quando agentes públicos concentram poder discricionário para conceder benefícios, distribuir recursos, autorizar atividades ou criar exceções às regras gerais. Mais do que o tamanho do Estado em si, são a opacidade institucional, os privilégios seletivos e a baixa responsabilização que ampliam as oportunidades de captura e abuso.

Essa distinção é fundamental. Não existe uma relação automática entre Estados de grande dimensão e altos níveis de corrupção. Diversos países mantêm elevados gastos públicos e, ao mesmo tempo, apresentam baixos índices de corrupção graças a instituições robustas, elevada transparência, burocracias profissionais e mecanismos eficazes de controle. Da mesma forma, Estados relativamente pequenos podem tornar-se profundamente corruptos quando predominam o clientelismo, a fragilidade institucional e ausência de fiscalização. A crítica liberal dirige-se menos ao volume do gasto público e mais à concentração de poder discricionário, à falta de regras gerais e ao uso político da máquina estatal.

Essa preocupação acompanha o liberalismo desde o século XIX. Lord Acton observava que o poder tende a corromper, advertindo para os riscos da concentração excessiva de autoridade. A questão central, entretanto, não é apenas moral. Quanto maior a capacidade do Estado de conceder privilégios, criar exceções, distribuir subsídios, controlar mercados ou decidir quem recebe determinados benefícios, maior se torna o incentivo para que indivíduos e empresas direcionem esforços à conquista de influência política em vez de competir por eficiência econômica.

Sob essa perspectiva, a corrupção deixa de ser apenas um desvio individual e passa a refletir os incentivos criados pelas instituições. Quando licenças dependem de decisões pouco transparentes, contratos públicos são excessivamente discricionários ou benefícios fiscais são concedidos de maneira seletiva, o acesso ao poder político passa a ter elevado valor econômico. Empresas deixam de competir exclusivamente por produtividade e inovação para disputar a proximidade com autoridades capazes de conceder vantagens. O mercado, então, perde espaço para relações de influência.

Friedrich Hayek desenvolveu argumento semelhante ao defender que sociedades livres dependem da predominância de regras gerais, aplicáveis igualmente a todos, em vez de decisões casuísticas tomadas por autoridades públicas. Quanto mais previsíveis e impessoais forem as normas, menor será o espaço para negociações particulares, favorecimentos e arbitrariedades. A corrupção encontra terreno fértil justamente quando regras são substituídas por exceções.

Essa lógica ajuda a compreender por que determinados ambientes regulatórios favorecem práticas ilícitas. Não é a existência de regulação que produz corrupção, mas sua complexidade excessiva, sua opacidade ou a ampla margem de discricionariedade concedida aos agentes públicos. Quanto mais difícil for compreender ou cumprir determinada norma, maior tende a ser o valor econômico da influência política e da intermediação informal.

Nesse sentido, é importante distinguir o tamanho do Estado de sua qualidade institucional. Um governo pode administrar extensas políticas públicas com elevado grau de transparência, prestação de contas e profissionalização administrativa. Outro pode ter uma estrutura relativamente menor, mas funcionar de maneira patrimonialista, ser capturado por interesses privados ou distribuir privilégios de forma sistemática. O problema central, portanto, não é simplesmente quanto o Estado faz, mas como exerce suas funções e sob quais mecanismos de controle.

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Uma perspectiva liberal também reconhece que reduzir determinadas formas de intervenção estatal pode diminuir oportunidades de captura. Mercados mais abertos, menor complexidade regulatória, sistemas tributários mais simples e procedimentos administrativos objetivos reduzem os pontos de contato em que decisões discricionárias podem gerar favorecimentos. Entretanto, isso não significa que um Estado limitado elimine completamente a corrupção.

Mesmo governos com funções restritas continuam responsáveis por contratar obras e serviços, administrar recursos públicos, fiscalizar atividades econômicas, exercer poder policial e aplicar a legislação. Todas essas funções permanecem sujeitas a riscos de corrupção. O desafio, portanto, não consiste apenas em reduzir atribuições estatais, mas em organizar essas atribuições sob critérios de transparência, concorrência, controle institucional e responsabilização permanente.

Talvez a contribuição mais importante da tradição liberal esteja justamente na defesa de instituições capazes de limitar o exercício arbitrário do poder. Quando regras são claras, decisões públicas são transparentes e agentes estatais respondem por seus atos, reduz-se o espaço para conluios e favorecimentos.

Essa preocupação conduz naturalmente ao papel da sociedade civil. Alexis de Tocqueville observava que democracias sólidas dependem menos da vigilância exercida exclusivamente pelo governo e mais da capacidade de os cidadãos livres se organizarem para controlar o próprio poder político. Imprensa independente, associações civis, universidades, entidades empresariais, organizações comunitárias e mecanismos locais de participação funcionam como importantes instrumentos de fiscalização.

A liberdade, sob essa perspectiva, não significa passividade diante do Estado, mas vigilância constante sobre quem exerce autoridade. Transparência de dados públicos, liberdade de imprensa, acesso à informação, fiscalização parlamentar, tribunais independentes e responsabilização eleitoral são elementos complementares na prevenção da corrupção. Quanto maior a capacidade da sociedade de acompanhar decisões públicas, menor tende a ser o espaço para práticas ilícitas ocultas.

Essa visão também modifica a forma de compreender o combate à corrupção. Multiplicar órgãos de controle ou criar novas normas pode ser necessário em determinadas circunstâncias, mas dificilmente produzirá resultados duradouros se permanecer intacta a estrutura de incentivos que favorece o uso privado do poder público. Combater a corrupção exige reduzir a dependência de decisões discricionárias, fortalecer a impessoalidade das instituições e ampliar mecanismos permanentes de prestação de contas.

Sob uma perspectiva liberal, portanto, o enfrentamento da corrupção não se resume a discutir o tamanho do Estado. Trata-se, sobretudo, de construir instituições em que o poder seja limitado por regras gerais, exercido com transparência e permanentemente submetido ao controle da sociedade.

Em vez de simplesmente defender “menos Estado”, a tradição liberal propõe algo mais específico e institucionalmente consistente: menos poder discricionário, menos privilégios, menos opacidade e menos oportunidades para captura política. Em seu lugar, defende mais concorrência, mais transparência, mais responsabilização e maior submissão de governantes e governados às mesmas regras jurídicas.

A corrupção dificilmente desaparecerá por completo. Contudo, quanto mais impessoais forem as instituições, quanto menor for o espaço para favores seletivos e quanto maior for a capacidade da sociedade de fiscalizar o exercício do poder, menores serão também os incentivos para transformar a autoridade pública em instrumento de interesses privados. É nesse equilíbrio entre liberdade, Estado de Direito e controle institucional que o liberalismo encontra sua principal contribuição para o combate à corrupção.

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Isaías Fonseca

Isaías Fonseca

É pecuarista e empresário, associado 2 do IFL-BH, estudioso e adepto do liberalismo clássico.

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