250 anos depois, a independência americana ainda tem algo a nos dizer

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Em 4 de julho de 2026, os Estados Unidos completaram 250 anos de sua Declaração de Independência. Mais de dois séculos depois, o modelo de sociedade construído segue de pé — com crises, contradições e correções ao longo do caminho, mas sustentado por princípios fundacionais que continuam vivos na cultura, nas instituições e no imaginário da população. Poucas nações conseguiram manter vivo, por tanto tempo, o ideal que lhes deu origem. Vale a pena, neste ano de celebração, revisitar não apenas o que os americanos conquistaram, mas também como conquistaram. Existem lições que interessam diretamente ao Brasil, especialmente às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

Há uma tentação recorrente na cultura política brasileira: a busca por um nome, uma figura heroica, capaz de resolver sozinha os problemas estruturais do país. Elegemos presidentes como se estivéssemos escolhendo um salvador e depois nos frustramos quando ele, inevitavelmente, não entrega. A Revolução Americana nos traz um contraponto importante a essa lógica. Ela não foi produto de um único líder genial, mas de um conjunto de homens com temperamentos, talentos e visões de mundo muito diferentes entre si, que encontraram formas de unir essas diferenças em torno de um projeto comum. Thomas Jefferson era capaz de traduzir ideias filosóficas em linguagem política. John Adams tinha a obstinação e o rigor jurídico para defender a causa nos debates mais difíceis do Congresso. Benjamin Franklin trazia a experiência diplomática e as conexões internacionais necessárias para garantir apoio externo. Alexander Hamilton pensava a arquitetura financeira e institucional que sustentaria a nova nação. George Washington, por sua vez, teve a humildade de devolver o poder às instituições após dois mandatos. Provavelmente, nenhum desses homens, isoladamente, teria fundado os Estados Unidos. Foi a disposição de colocar a causa acima do protagonismo individual que tornou o projeto possível.

É fácil, a 250 anos de distância, tratar os founding fathers como estátuas, mas eles eram homens reais, apostando tudo o que tinham em uma causa incerta. Ao assinar a Declaração de Independência, comprometeram-se publicamente com um ato que a Coroa britânica classificava como traição. Eles expuseram publicamente suas vidas, reputações e fortunas, apostando em algo maior do que seus interesses pessoais. E o preço foi real: ao longo dos sete anos de guerra que se seguiram, participantes do movimento morreram, foram presos pelo exército britânico, e outros perderam todo o patrimônio que possuíam. Essas consequências importam porque descontroem outro mito confortável: o de que a liberdade é uma dádiva que simplesmente acontece, ou que virá de fora, entregue por um líder providencial. A liberdade, na experiência americana, foi construída com sacrifício concreto e coletivo de cidadãos dispostos a perder patrimônio, conforto e, em muitos casos, a própria vida.

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O que torna o caso americano tão admirável não é a ausência de crises — a Guerra Civil, a Grande Depressão, os movimentos por direitos civis, as tensões políticas mais recentes mostram que o país esteve, seguidamente, à beira de romper consigo mesmo. O que chama atenção é a capacidade de a sociedade americana retornar, repetidamente, aos seus princípios fundadores: liberdade individual, limitação do poder do Estado, supremacia da lei e desconfiança estrutural em relação à concentração de autoridade em uma única pessoa ou instituição. Não por acaso, o sistema desenhado não depositou o poder em um único cargo, exatamente para que a virtude ou o vício de um único ocupante do poder não determinassem o destino de toda a nação.

É aqui que a reflexão se torna urgente para nós. O Brasil caminha para mais um ano eleitoral em que, como de costume, o debate público vai se concentrar quase inteiramente na disputa presidencial, como se a eleição de um nome resolvesse os desequilíbrios fiscais, institucionais e econômicos que o país acumula há décadas. Mas qualquer pessoa que acompanhe minimamente o funcionamento do Estado brasileiro sabe que boa parte das mudanças que realmente importam — reformas estruturais, controle de gastos, qualidade da legislação, fiscalização do Executivo — depende de um Congresso Nacional funcional. Depende de senadores e deputados comprometidos com princípios e não apenas de quem ocupa o Palácio do Planalto. Assim como a independência americana não foi obra de um homem, mas de um grupo de lideranças complementares dispostas a sacrificar interesses pessoais por um projeto comum, a reconstrução institucional brasileira também não virá de um único nome. Virá de um conjunto de parlamentares com formação, coerência e compromisso genuíno com a liberdade, a responsabilidade fiscal e o Estado de Direito. Isso não diminui a importância da eleição presidencial, que segue sendo decisiva, mas convida a uma pergunta mais ampla e talvez mais desconfortável: quantos dos candidatos ao Senado e à Câmara carregam, de fato, valores próximos aos que moveram os founding fathers?

Os 250 anos da independência americana não deveriam ser lidos somente como uma celebração distante, mas como um lembrete prático: sociedades livres não são mantidas por salvadores solitários, mas por uma cultura que forma, cobra e sustenta lideranças comprometidas com princípios em todos os níveis de poder, não apenas no topo. Se há uma lição que o Brasil pode extrair da experiência americana neste ano de celebração, é esta: parar de procurar o próximo herói e começar a exigir, de todos os candidatos, o tipo de caráter que os founding fathers demonstraram ter, mesmo sabendo, como sabiam, que a conta poderia ser alta.

*Camila Perez é líder de M&A e associada do Instituto de Estudos Empresariais.

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