O tucanismo agudo de Alckmin no “combate às Fake News”

Primeiro, o nome do PSDB e do “Centrão” ao Planalto, Geraldo Alckmin, se portou de maneira vaga e inconclusiva sobre a questão do financiamento sindical, pedido pelo Solidariedade de Paulinho da Força. O assunto já foi abordado aqui, antes e depois de sua entrevista ao programa Roda Viva.

A dubiedade a respeito dessa pauta tão importante permaneceu, por mais que se tente colocar panos quentes sobre isso. Porém, o que aconteceu nesta segunda-feira (30) foi ainda mais grave.

O PSDB é desde o nome uma legenda social democrata que, no entanto, apresenta ao longo de sua história um nível maior de plasticidade ideológica, com alguns fundadores simpáticos à democracia cristã e outros membros mais ao centro. Não é possível esquecer, por exemplo, que, até pouco tempo atrás, o liberal conservador monarquista Paulo Eduardo Martins estava no partido, o que não poderia acontecer, por exemplo, no PT.

O ex-governador de São Paulo que hoje tenta mais uma vez ser presidente da República sempre foi visto como um dos nomes “menos à esquerda” entre os principais quadros do PSDB e, de fato, conta com nomes mais liberais como Pérsio Arida em sua atual equipe. No entanto, depois de cortejar, por exemplo, o movimento “Esquerda Pra Valer”, ele demonstrou ser capaz de cometer o pecado do “tucanismo agudo” ao, em sua postura de “bom moço” e sua falta de firmeza, características tão típicas de seu partido, apoiar a histeria da caça às Fake News – e mais, usando como argumento positivo a atitude do Facebook de excluir as contas de cerca de duzentas páginas e perfis à direita na rede social.

Isso mesmo. Alckmin resolveu endossar toda a patifaria de “combate às Fake News” que vem sendo empregada, estamos carecas de saber, por ativistas e militantes de esquerda na grande imprensa para justificar medidas de controle de informação e combate às mídias alternativas.

O blogueiro Luciano Ayan, pseudônimo de Carlos Augusto Afonso, demonstrou cabalmente, em vídeo recentemente divulgado, que os grandes veículos são os primeiros a publicar mentiras das quais jamais se retrataram, e nunca houve “checadores oficiais” para repreendê-los, nem suas contas foram suspensas da rede social até hoje. Notícias falsas sempre existiram; a Internet permite que elas se alastrem mais facilmente, como permite que qualquer coisa se alastre mais facilmente. O que é melhor? Controlar e suspender perfis ou páginas para atender aos anseios de quem é tão ou mais culpado do crime que deseja fiscalizar ou permitir que as pessoas, livremente, consultem o maior número possível de fontes e cheguem a suas conclusões?

Pois muito bem. A “inocência”, a “ingenuidade” de Alckmin, já que não nos permitimos presumir nada além disso sem provas, passa do limite do moralmente aceitável ao simplesmente cerrar fileiras ao lado dessa agenda, atestando desconhecer totalmente o que está acontecendo. Pior: tratando como mais um detalhe, um supérfluo, até como uma prova de que esse é mesmo o caminho, a exclusão sumária e sem justificativa dos perfis, muitos deles ligados ao MBL, que o Facebook empreendeu na última semana.

Em seu post, Alckmin diz que nem tudo que se vê na Internet é verdade e que “eleições em diversos lugares mundo afora já foram afetadas por boatos infundados”. É, por certo, mais um dos que sustentariam que Donald Trump, por exemplo, foi eleito com base em mentiras a seu favor nas redes sociais. Reduz-se assim todo o eleitorado do Republicano a uma manada de manipulados imbecis e toda uma gama de fatores e motivos a algumas Fake News – que, decerto, no caso do presidente americano, foram produzidas, ao menos na mesma quantidade, quiçá muito mais, para prejudicá-lo. Um acompanhamento ponderado do processo eleitoral dos EUA em 2016 atestará isso.

Alckmin oferece então um espaço em seu site para seus seguidores denunciarem notícias falsas sobre o candidato. Claro que não contestaríamos o seu direito de ter uma equipe dedicada ao esforço de desmentir as falsidades que circulam e circularão a seu respeito, como de todos os demais presidenciáveis; muito embora, é claro, ressalve-se, o ex-governador não há de esperar que o julgaríamos suficiente para determinar o que é falso ou verdadeiro a seu próprio respeito, já que ele seria o primeiro suspeito de esconder ou rotular de “falsas” algumas verdades desagradáveis.

O problema é que ele acrescenta: “Facebook excluiu 196 páginas e 87 contas por divulgação de Fake News”. Em primeiro lugar, o próprio Leonardo Sakamoto, apoiando a atitude, declarou que o problema não foi espalhar “Fake News” e sim “manipular o debate público” – seja lá o que possa ser isso além de mero pretexto vil para a prática da censura de opiniões políticas alternativas.

Em segundo lugar, ao citar esse “fato” como exemplo de que está certo em se juntar a essa bandeira mal-intencionada, Alckmin está se ladeando, com a mesma retórica vazia, de ilustres figuras como Gilberto Dimenstein, Carina Vitral, Guilherme Boulos e todos os demais que celebraram o “triunfo da verdade sobre a mentira” que foi o gesto parcial e irresponsável da empresa de Zuckerberg.

Um candidato incapaz de perceber o que está por trás de uma questão tão importante é do que precisamos neste momento para o nosso Brasil? Vagueza, pusilanimidade, lá vai. Tratar como normal uma atitude tão perigosa apenas para parecer antenado à “pauta lacradora e moderna” da vez, ah, isso já nos faz chegar a um outro nível…  

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