O socialista Francisco ataca novamente

Já tive a oportunidade de rebater algumas diatribes do Papa Francisco acerca do capitalismo e do liberalismo (veja aqui, aqui, aqui e aqui).  Sua Santidade, no entanto, não se cansa de atacar aquilo que não conhece, em defesa de suas convicções coletivistas – aliás, não é à toa que alguns próceres tupiniquins da Teologia da […]

Já tive a oportunidade de rebater algumas diatribes do Papa Francisco acerca do capitalismo e do liberalismo (veja aqui, aqui, aqui e aqui).  Sua Santidade, no entanto, não se cansa de atacar aquilo que não conhece, em defesa de suas convicções coletivistas – aliás, não é à toa que alguns próceres tupiniquins da Teologia da Libertação, como Frei Betto e Leonardo Boff, têm verdadeira adoração por ele.  Mas vamos ao que interessa.

Num panfleto recente, Francisco resolveu apontar suas armas para o liberalismo, que, segundo ele, ao exagerar o ideal individualista desprezaria o bem comum.  Segue uma tradução livre a fala de Sua Santidade:

“Finalmente, não posso deixar de falar dos sérios riscos associados à invasão, em altos níveis de cultura e educação, tanto nas universidades como nas escolas, de posições de individualismo libertário. Uma característica comum deste paradigma falacioso é que minimiza o bem comum, ou seja, “viver bem”, uma “boa vida” no quadro comunitário, e exalta o ideal egoísta que enganosamente propõe uma “vida bela”. Se o individualismo afirma que é somente o indivíduo que dá valor às coisas e às relações interpessoais, e assim é somente o indivíduo que decide o que é bom e o que é mau, então o libertarianismo, hoje na moda, prega que para estabelecer a liberdade e a responsabilidade individual, é necessário recorrer à ideia de “autoacusação”. Portanto, o individualismo libertário rejeita a validade do bem comum porque, de um lado ele supõe que a própria ideia de “comum” implica no constrangimento de pelo menos alguns indivíduos, e de outro que a noção de “bem” reprime a liberdade em sua essência. ”

“A radicalização do individualismo nos termos libertários e, por conseguinte, anti-sociais leva à conclusão de que todos têm o “direito” de se expandir na medida em que o seu poder permite, mesmo à custa da exclusão e marginalização da maioria mais vulnerável. Os vínculos teriam de ser cortados na medida em que limitariam a liberdade. Ao confundir o conceito de “vínculo” com o de “constrangimento”, acaba-se confundindo o que pode condicionar a liberdade – as restrições – à essência da liberdade criada, isto é, vínculos ou relações, familiares e interpessoais, com os excluídos e marginalizados, com o bem comum e finalmente com Deus. ”

Nada poderia estar mais longe da verdade.  O engano do papa começa pelo seu completo desconhecimento daquilo que está atacando.  Sua ignorância o transforma num espancador de espantalhos.  Como bem definiu Jeffrey Tucker, o liberalismo “é a teoria política que prega que a liberdade e a paz servem melhor ao bem comum do que a violência e o controle do Estado, sugerindo assim uma regra normativa: as sociedades e os indivíduos devem ser deixados em paz em suas associações e negócios comerciais, desde que não ameacem os outros.”

A definição de Tucker em quase nada difere do que dizia Adam Smith quando inferiu que a prosperidade e a opulência das sociedades dependiam muito mais do esforço de cada indivíduo na busca de seus próprios interesses do que da benevolência desses mesmos homens.  Numa de suas mais famosas citações, Smith afirma que “todo indivíduo está continuamente empenhado em descobrir os mais vantajosos empregos para os capitais sob seu comando. É o próprio lucro que ele tem em vista, e não o da sociedade.  Porém, ao examinar o que melhor lhe convém, ele naturalmente, ou melhor, necessariamente, acaba preferindo aquele emprego que é mais vantajoso para o bem geral”.

São diversos os trechos em “A riqueza das nações” onde se encontram citações semelhantes, sempre enfatizando que é pela busca dos próprios interesses, e não pela desejável, porém nem sempre presente, virtude da benevolência, que os empreendedores contribuem para a prosperidade das nações.

Como todo coletivista, Francisco “confunde” individualismo filosófico com egoísmo. De fato, a palavra “individualismo” pode ser empregada de duas maneiras diferentes.  A primeira – e mais importante – não tem sinonímia e é geralmente utilizada em oposição a “coletivismo”. De acordo com o Dicionário Houaiss, individualismo é a “doutrina moral, econômica ou política que valoriza a autonomia individual, em detrimento da hegemonia da coletividade despersonalizada, na busca da liberdade e satisfação das inclinações naturais”.  O outro significado é meramente lexical, sem qualquer conotação filosófica, política ou econômica, e diz respeito a certa “tendência, atitude de quem revela pouca ou nenhuma solidariedade e busca viver exclusivamente para si; egoísmo”.

A simples existência desta segunda acepção é suficiente para provocar inúmeras confusões terminológicas e dificultar o correto entendimento filosófico do individualismo, além de fornecer aos coletivistas material precioso para seus ataques e sofismas, invariavelmente calcados num suposto dualismo entre “individualismo” e “altruísmo”, o que, como veremos, é um completo disparate.

Toda a confusão começa com Platão, para quem o individualismo altruísta não seria possível.  De acordo com o mais famoso discípulo de Sócrates, a única alternativa ao coletivismo por ele idealizado em sua República era o egoísmo.  Esse dualismo platônico forneceu aos coletivistas uma arma retórica poderosíssima, pois vincula todo e qualquer oponente doutrinário ao defeito moral do egoísmo, enquanto eles próprios alardeiam para si um pretenso humanitarismo.

Como bem assinalou Karl Popper em sua crítica a Platão, entretanto, “Foi justamente o individualismo altruísta, cuja existência era rejeitada por Platão, que formou a doutrina central do Cristianismo e tornou-se a base da civilização ocidental e o âmago de todas as doutrinas éticas que dela originaram”.  Talvez o Papa não saiba, mas é o individualismo altruísta que está na base da doutrina cristã, não o coletivismo socialista.

Mas voltemos a Adam Smith, considerado o pai do liberalismo clássico.  Tanto na “Riqueza das Nações”, quanto na “Teoria dos sentimentos Morais”, o Escocês sempre fez questão de enaltecer os valores do altruísmo, da benevolência e da caridade.  Na TSM, por exemplo, ele nos diz que “todos os membros de uma sociedade humana necessitam de mútua assistência, assim como estão expostos às injúrias mútuas.  Onde quer que a necessária assistência seja reciprocamente mantida pelo amor, pela gratidão, pela amizade e pela estima, a sociedade florescerá e será feliz”.  Num outro trecho, ele descarta qualquer forma de maniqueísmo relacionado aos sentimentos, virtudes e vícios humanos, quando afirma:  “Por mais egoísta que um homem supostamente possa ser, existem, evidentemente, alguns princípios em sua natureza que o fazem importar-se com a sorte dos demais, tornando a felicidade destes necessária a ele, embora ele não lucre nada com isto, exceto o prazer de assisti-lo. ”

Apelando novamente a Jeffrey Tucker e ao contrário do que diz o Papa, “o liberalismo busca um mundo mais livre, um mundo de direitos universais, a construção de instituições que deem à ascensão da dignidade humana a melhor vantagem possível sobre interesses poderosos, principalmente associados a estados, que buscam violar esses direitos e diminuir essa dignidade [vide o que ocorre atualmente na Venezuela]. A liberdade não pode garantir uma “vida bela”, mas tal vida seria impossível de imaginar ou conseguir sem liberdade. ”

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