Cristianismo e comunismo: nada a ver!

Uma frase infeliz do Papa Francisco vem causando certo alvoroço dentro da Igreja Católica e no meio político em geral.  Em entrevista publicada na última sexta-feira no jornal italiano “La Repubblica”, e respondendo a uma pergunta sobre supostas semelhanças entre as doutrinas cristã e socialista, Francisco foi enfático: “São os comunistas os que pensam como os […]

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Uma frase infeliz do Papa Francisco vem causando certo alvoroço dentro da Igreja Católica e no meio político em geral.  Em entrevista publicada na última sexta-feira no jornal italiano “La Repubblica”, e respondendo a uma pergunta sobre supostas semelhanças entre as doutrinas cristã e socialista, Francisco foi enfático: “São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade”.

Tal afirmação é, no mínimo, controversa, e deixa margem para interpretações as mais variadas.  Alguns afirmam que a frase foi tirada do contexto e que, de fato, o Papa estaria querendo dizer que os socialistas apenas copiam os cristãos.  O problema de Bergoglio, entretanto, é o seu histórico (sem falar da veneração com que algumas figuras de proa da dita Teologia da Libertação o tratam).

Desde os primeiros dias do seu pontificado, o atual pontífice deixou claras as suas tendências políticas e econômicas . Em sua exortação apostólica de 2013, Evangelii Gaudium, por exemplo, Francisco critica a ideia de que a redução da carga fiscal sobre os rendimentos “desproporcionalmente altos” poderia estimular o investimento e o crescimento econômico. Em suas próprias palavras, tais políticas soam como uma “crua e ingênua confiança na bondade daqueles detentores do poder econômico e no poder sacralizado do sistema econômico vigente”. Traduzindo: impostos altos e mais poder aos Estados é o caminho.  Ainda segundo o Santo Padre, a desigualdade é a “raiz dos males sociais”, embora não explique exatamente por que uma sociedade de riqueza desigual, mas com níveis de vida relativamente altos, seria de menos reflexiva dos valores do Evangelho do que uma sociedade que partilha igualmente a pobreza, como Cuba, por exemplo. Indo ainda mais longe, a exortação papal exige uma transformação estrutural que “restauraria aos pobres o que lhes pertence”. Reparem que ele não fala em ajudar os pobres, o que seria normal de acordo com a caridade cristã, mas em restaurar a eles o que lhes pertence.  Se isso não é socialismo…

Já a encíclica ‘Laudato Si’, de 2015, caminha em linhas semelhantes, protestando contra a busca do lucro e implicando que a criação intencional de riqueza oprime e rebaixa os mais necessitados (marxismo na veia).  Além de aconselhar os “Movimentos Populares”, o Papa Francisco tem exigido direitos sobre terra, o trabalho e a habitação. imagine quão expansivo teria de ser o aparelho do Estado para garantir todos estes direitos e certamente você concluirá que ele deixaria pouco espaço à iniciativa individual.  O chamado do Papa para uma “comunidade verdadeiramente comunitária” faz crer que ele sonha realmente com uma revolução socialista.  Se isso não é verdade, então ele anda se comunicando muito mal.  Jamais se leu ou ouviu algo semelhante dos dois papas que o antecederam, por exemplo.

Francisco parece esquecer que a sua Igreja tem, tradicionalmente, encarado os grandes planos para remodelar as organizações humanas com ceticismo e preocupação, particularmente quando envolvem o poder coercitivo do Estado.  Talvez nenhum documento ponha em questão a cosmovisão do Papa Francisco em assuntos econômicas como a Rerum Novarum, a encíclica seminal do Papa Leão XIII “Sobre Capital e Trabalho”. Elaborada em 1891 para abordar a industrialização, o progresso científico e as ideologias revolucionárias que acompanharam a Revolução Industrial, ela continua a constituir o principal fundamento do ensino da justiça social católica.

A Rerum Novarum pondera os “direitos relativos e deveres mútuos dos ricos e dos pobres, do capital e do trabalho”, e rejeita a noção de guerra de classes como uma manobra destinada a afastar as pessoas. O socialismo alimenta a inveja da classe por meio da confiscação da riqueza e busca “reduzir a sociedade civil a um nível morto”. Na verdade, os socialistas propagam uma ideologia “enfaticamente injusta, porque rouba propriedade do detentor legítimo, distorce as funções do Estado e cria confusão social”. Socialismo, em outras palavras, é problemático na sua raiz, porque desumaniza e rouba dos indivíduos a escolha moral. Outra encíclica famosa sobre o tema, Centesimus Annus, emitida por João Paulo II, diz que o socialismo considera o indivíduo “simplesmente como um elemento, uma molécula dentro do organismo social, de modo que o bem do indivíduo é completamente subordinado ao funcionamento do Mecanismo socioeconômico”.

Além disso, a Rerum Novarum faz uma defesa contundente da propriedade privada, como parte da ordem natural das coisas, observando ainda que dela dependem importantes aspectos de liberdade que devem ser defendidos. Diz Leão XIII: “O objetivo primordial de todo ser humano que se dedica a algum ofício, bem como o de qualquer operário na lida diária, não é outro senão a busca de algum benefício próprio, além da preservação para si, como um direito legítimo, dos frutos desse trabalho. Em outras palavras, alguém que empresta suas forças ou suas habilidades a outrem adquire o perfeito e inalienável direito não só de exigir um salário (remuneração), mas também de utilizá-lo como bem entenda. Conseqüentemente, quaisquer bens adquiridos com os frutos do trabalho são, em última instância, o próprio salário revestido de outra aparência. Daí que esses mesmos bens devem manter-se em seu domínio, como o salário conseguido com o trabalho. Isto é, precisamente, em que consiste, como facilmente se conclui, a propriedade privada.” Não seria exagero afirmar que a defesa enfática da propriedade privada contida na Encíclica Rerum Novarum foi, em sentido amplo, uma reação à inveja, à confusão e à natureza escravista que o Papa Leão XIII identificou no movimento socialista.

Mas o assunto não se esgota na doutrina católica. A ciência econômica, como nos lembra James D. Gwartney, também ensina que o capitalismo recompensa e reforça a prestação de serviço ao próximo. Sob o capitalismo, a renda de uma pessoa está diretamente relacionada à sua capacidade de fornecer bens e serviços que melhoram o bem-estar dos outros. Os vencedores são aqueles que conseguem antecipar o que os consumidores desejam e lhes oferecem um negócio melhor do que podem obter na concorrência.  Naturalmente, os empresários não estão preocupados com o próximo, como os cristãos são instados a fazer. Mas se querem ter sucesso, eles devem servir os seus clientes melhor do que a concorrência. Em essência, a concorrência força os empresários a agir em benefício do próximo, vendendo mercadorias e serviços mais baratos e de melhor quantidade

Não bastasse isso, só o capitalismo proporciona oportunidades para uma vasta mobilidade na escala sócio-econômica. Não é por acaso que os pobres em todo o mundo fluem para os países capitalistas e não para os socialistas. Pobres trabalhadores mexicanos arriscam suas vidas por oportunidades de trabalho nos EUA. Na Europa, os soviéticos construíram um muro para manter as pessoas longe do Ocidente capitalista. No sudeste da Ásia, as pessoas são atraídas para Hong Kong, Taiwan, Cingapura e outros países capitalistas. Por quê? Porque o capitalismo oferece oportunidade para aqueles que querem alcançar o sucesso, enquanto o socialismo as mantêm eternamente na pobreza e dependentes do Estado.

Francisco também deveria ponderar que somente o capitalismo respeita as minorias. Quando as decisões são tomadas politicamente, as opiniões minoritárias são muitas vezes desrespeitadas. Por exemplo, em um sistema de ensino público, a maioria decide se a religião será permitida ou não, se a educação sexual será ensinada ou não, e quanta ênfase se dará às habilidades básicas. Nos países comunistas da antiga Cortina de Ferro ou de Cuba, o ensino religioso, bem como qualquer profissão de fé foram liminarmente banidos.  Já num sistema de mercado, cada minoria pode escolher seu caminho. Por exemplo, sem interferir com a liberdade dos outros, alguns pais podem enviar seus filhos para escolas religiosas, sem despertar rancor ou levantar conflitos.

Francisco, assim como muitos cristãos equivocadamente argumentam que o capitalismo promove a desigualdade, beneficiando os mais ricos. Não atentam que a desigualdade está presente em todos os sistemas econômicos. Assim  como em um sistema de mercado as pessoas com melhores idéias, mentes mais criativas e mais energia tendem a se destacar, em uma burocracia socialista os mais espertos e politicamente conectados alcançarão o topo.  A diferença é que, as elites em um sistema capitalista têm muito menos poder do que as elites em um sistema socialista. Mesmo em uma democracia, os políticos eleitos e os burocratas têm mais poder sobre as vidas dos outros do que os indivíduos mais ricos. Os membros do governo têm o poder de tomar uma parte dos nossos ganhos à força, algo que nenhum Bill Gates ou Rockefeller pode fazer, não importa quão rico eles sejam.

Naturalmente, o capitalismo não impõe as mesmas exigências morais que o cristianismo. Entretanto, como Jorge Bergoglio deveria saber, todos os sistemas coletivistas que se propuseram a aperfeiçoar a natureza humana levaram à tirania – e não lograram melhorar os homens.  Se o Papa deseja um modelo que reforce as virtudes cristãs, melhore os padrões de vida e ofereça liberdade escolha às minorias, deveria voltar os olhos para o capitalismo de livre mercado, não para o socialismo.  Ademais, maldizer a propriedade privada, a busca pelo lucro, a liberdade de empreender, entre outras instituições liberais é algo que, muito dificilmente, será compatível com o Evangelho autêntico.

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