Grécia, austeridade e ideologia

Syriza: a extrema esquerda chega ao poder
Syriza: a extrema esquerda chega ao poder

É incrível a capacidade que as pessoas têm de fazer confusão até mesmo com coisas bem simples de entender. A Grécia está numa situação financeira complicada. Muito complicada. De quem é a culpa? Do governo grego, das políticas de austeridade, dos bancos internacionais, do capitalismo de espoliação ou de sei lá de quem. Vamos tentar compreender.

Suponhamos que Joaquim (um sujeito comum) entre em uma agência bancária e faça um empréstimo para comprar uma bicicleta. Depois de pagar algumas prestações, Joaquim conclui que não tem como pagar o que deve, está quebrado. De quem é a culpa? De Joaquim, do banco, do capitalismo ou da bicicleta? Acho que todos concordamos que a culpa é de Joaquim. Ninguém o obrigou a entrar na agência e fazer o empréstimo. Contudo, vou um pouco adiante. Eu diria que, além de Joaquim, o banco teve parte da responsabilidade, pois avaliou mal a capacidade de pagamento de seu cliente.

Se Joaquim der calote, quem sai perdendo e quem sai ganhando? Joaquim sai perdendo, pois não terá mais acesso a crédito em nenhuma instituição financeira. O banco também sai perdendo pois teve prejuízo na operação. Como ambos perdem e ninguém ganha nada, o melhor, tanto para Joaquim como para o banco, seria renegociar a dívida. Esse mesmo raciocínio pode ser estendido para uma empresa. Acho que todos vão concordar que sim. O que eu gostaria de entender é por que, quando o agente que contrai a dívida passa a ser o governo, algumas pessoas entram em um delírio esquizofrênico e começam a desenvolver teorias conspiratórias para explicar o mesmo problema.

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Quando as nações da zona do euro passaram a utilizar uma mesma moeda, ocorreram dois erros de percepção. Os países mais pobres passaram a se sentir ricos e começaram a gastar além da conta. Por outro lado, os agentes financeiros também erraram em suas avaliações. Por exemplo, títulos públicos emitidos pela Alemanha e pela Grécia passaram a pagar remunerações muito próximas, como se os riscos fossem quase iguais. Porém a situação fiscal na Alemanha era muito melhor que a da Grécia. Resumindo a história, a Grécia contraiu uma dívida gigantesca e agora não tem como pagar. Não vejo outra saída que não seja a renegociação.

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Onde está a questão ideológica nessa confusão em que a Grécia se meteu? Por mais que eu me esforce, não consigo enxergar. Por outro lado, o filósofo e colunista da Folha de São Paulo, Vladimir Safatle, parece estar saltitando de alegria com a vitória do partido de extrema esquerda Syriza nas eleições gregas, ocorridas no último domingo, 25 de janeiro. Segundo Safatle, a vitória do Syriza é a expressão do sentimento de recusa ao capitalismo de espoliação e à acumulação rentista. O colunista argumenta ainda que bancos internacionais extorquem países que entram em rota de falência (Luzes, enfim – 27/01/2015).

Voltando ao caso de Joaquim e da bicicleta. Teria algum resquício de lógica se eu dissesse que a dívida impagável de Joaquim é de responsabilidade do capitalismo de espoliação e da acumulação rentista? Tem algum sentido eu dizer que bancos extorquem pessoas que entram em rota de falência? Por que esses argumentos que não fazem nenhum sentido quando nos referimos a pessoas (ou empresas) teria sentido ao nos referirmos a países? Acho que somente o colunista da Folha e seus seguidores conseguem enxergar alguma lógica nessa sandice toda.

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Intelectuais de esquerda têm o vício de enxergar qualquer fato pela lente da ideologia. Responsabilidade fiscal não tem viés ideológico. Um governo que gasta além da sua capacidade de pagamento vai se endividar. Não importa se o governo é de esquerda ou de direita. Governos endividados têm de apertar o cinto e fazer um esforço proporcional ao tamanho da dívida. Quando a dívida é impagável, melhor tentar uma renegociação. Nada disso tem a ver com ideologia. Porém a esquerda acéfala do nosso país consegue enxergar ideologia, luta de classes, espoliação capitalista até assistindo aos Teletubbies. E é com essa esquerda que temos de tentar dialogar. Que triste sina a nossa.

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Ivan Dauchas

Ivan Dauchas

Ivan Dauchas é economista formado pela Universidade de São Paulo e professor de Economia Política e História Econômica.

6 comentários em “Grécia, austeridade e ideologia

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    17/02/2015 em 1:09 pm
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    Banco nenhum jamais emprestou dinheiro à força a ninguém; quem pede emprestado, principalmente sendo governo, deve honrar o compromisso assumido; na realidade quem reclama, estrila e fica possesso são sempre os mesmos: agentes e servidores públicos, sindicalistas, filósofos comunistas, encostados falsamente por invalidez em pensões e toda essa escória que nunca trabalhou na vida e tem horror à privatização, ao capitalismo e ao empreendedorismo, as forças que realmente fazem um país rico e próspero. Por isso repito:

    SOCIALISMO-ESQUERDISMO-COMUNISMO: RESUMO FINAL

    O Socialismo, Esquerdismo ou Comunismo são a mais perversa, hedionda, patológica e cruel forma de perverter as naturais relações sociais e econômicas entre os homens e destruir a individualidade das pessoas; são invenção de pessoas com graves deformações de personalidade, conduta ou de visão do mundo. São sistemas mantidos, desde seus princípios, por homens avessos ao trabalho regular, à rotina laboral, à hierarquia natural entre os seres humanos, estabelecida pela própria Natureza; seus criadores e seguidores foram e são pessoas capazes de matar toda uma geração, a título de uma pretensa e imaginária felicidade para as gerações futuras; são homens que nunca criaram valores morais ou empregos, ou produziram bens e serviços para seus semelhantes; são pessoas frias, que consideram as demais simples “massas” a serem moldadas de acordo com o que pensaram e decidiram ser melhor para a humanidade; são deformidades humanas que devem ser combatidas sem tréguas, permanentemente, como devem ser combatidos os vermes, as bactérias, os vírus e todos os vetores de doenças infecto-contagiosas e malignas. São isso que estamos vendo e ouvindo, há muito tempo: mortos-vivos, zumbis homogêneos, robôs produzidos em série, sem personalidade. Por isso eles só chamam as pessoas de “as massas”.

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    13/02/2015 em 7:57 pm
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    Felipe,
    O ciclo só iniciará caso:
    1) seja necessária a obtenção de um novo empréstimo para quitação do débito em aberto e
    2) que esse novo empréstimo possua juro igual ou superior àquele do débito original.

    A renegociação pode consistir, por exemplo, na ampliação do prazo e redução de juros para pagamento (tal ajuste pode fazer com que você quite sua dívida)
    Nestes casos, não há necessidade de tomada de novo empréstimo para quitar o anterior, não “reiniciando” o ciclo.

    Tomemos como exemplo:
    Eu tenho um débito em aberto no cartão de crédito (323,14% ao ano).
    Solicito empréstimo consignado (26,13% ao ano) para quitar minha dívida.
    Com esse novo empréstimo eu consigo quitar a divida do CC e consigo ajustar minhas contas para pagar o empréstimo consignado. Não há ciclo.

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    13/02/2015 em 10:28 am
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    Esse Pedro é tosco. Muitas vezes não entende o que se fala aqui. Sugiro que vá ler o site do PC do B. Porém, ele (sem querer, evidentemente) falou algo com sentido, e que é o que analistas que não defendem a renegociação afirmam: se renegociar, isso vira prática e nunca haverá um fim para esse ciclo.

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    12/02/2015 em 4:53 pm
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    “Voltando ao caso de Joaquim e da bicicleta. Teria algum resquício de lógica se eu dissesse que a dívida impagável de Joaquim é de responsabilidade do capitalismo de espoliação e da acumulação rentista? Tem algum sentido eu dizer que bancos extorquem pessoas que entram em rota de falência?”
    Na verdade há toda uma corrente jurídica, minoritária, que atribui sim a responsabilidade pela divida do tomador do empréstimo (consumidor) aos bancos que oferecem créditos de forma muito fácil o que levaria ao super-endividamento. A solução dada é a revisão das cláusulas contratuais judicialmente pois a divida teria se tornado impossível de pagar.

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    12/02/2015 em 11:44 am
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    corrija-se os erros de sintaxe e demais em todos os meus cometários.

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    12/02/2015 em 11:42 am
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    Deve ser piada!!!
    Vejamos:
    O Joaquim é culpado e o banco também é culpado por ter emprestado sem prever que poderia ser caloteado.
    – Por essa mesma “lógica” a vítima de um sequestro deve ter culpa também, pois ao não tomar precauções ficou vulnerável, achou que não seria sequestrada mesmo sendo um possível alvo.

    Depois, sobretudo pelo post se referir ao caso grego, o autor que atribuiu a divisão da culpa ao bando, parece recomendar a RENEGOCIAÇÃO que IMPLICA EM NOVOS EMPRÉSTIMOS!!!

    Assim, fazendo-se nova renegociação se volta a EMPRESTAR MAIS e na sequência se o “Joaquim grego” NOVAMENTE NÃO PAGAR …TCHAM!!!!

    …NOVAMENTE o banco que emprestou dividirá a culpa e…
    …TCHAM denovo!!!

    Recomenda-se que se outra vez renegocie a dívida pela mesma “lógica” anterior.

    PQP!!!! …Só pode ser piada!!!!

    vamos mau nesse brasil pátria educativa!!!!!
    …nem vale ler certas coisas de tão tão …paro no terceiro parágrafo …rsrs

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