“Do Partido das Sombras ao governo clandestino”: o passo-a-passo de George Soros

A Editora Armada está praticamente se especializando em dossiês. Depois de Nadando contra a corrente, de autoria de Bernardo Guimarães, que de muitas maneiras merece o rótulo, seu mais recente lançamento, o opúsculo internacional Do Partido das Sombras ao governo clandestino, vai na mesma linha e destrincha um dos acontecimentos mais importantes da política americana e, consequentemente, mundial: a ascensão das redes de influência de George Soros sobre o Partido Democrata.

Com texto de contracapa de Alexandre Borges, texto de orelha do procurador Diego Pessi e textos introdutórios dos editores Márcio Scansani e André Assi Barreto e do escritor e antropólogo Flavio Gordon, o pequeno livro, produzido em parceria com a competente equipe dos Tradutores de Direita, é de autoria do notório ativista conservador americano David Horowitz e seu parceiro e coautor em outros quatro livros John Perazzo.

Horowitz foi um ativista fundador da Nova Esquerda nos anos 60, filho de ativistas comunistas que se desiludiram com a União Soviética após as revelações da tirania stalinista. Gordon descreve no prefácio a decepção dele com seus antigos aliados do movimento negro Panteras Negras depois que uma amiga foi morta por integrantes do grupo, tornando-se a partir de então um ardoroso adversário das esquerdas.

Foi com esse espírito que Horowitz decidiu se debruçar sobre fatos objetivos que documentam a relevância do bilionário investidor de origem húngara sobre os rumos da vida pública americana e da ascensão de organizações e mobilizações radicais da Nova Esquerda mundo afora, a partir de sua penetração no Partido Democrata. Embora desde os anos 30 o partido fosse marcado por uma tendência mais intervencionista, associada à herança do New Deal de Franklin Roosevelt, Horowitz vem sustentar que os Democratas sofreram uma profunda transformação, com o amplo esmagamento de suas alas mais moderadas e a hegemonia de setores mais radicais.

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De fato, nomes como o próprio Roosevelt e, mais ainda, um John Kennedy, não se reconheceriam em Bernie Sanders ou Barack Obama. O que Horowitz quer demonstrar é que um longo trabalho de gestação de uma rede de instituições e pressões políticas, empreendido sob o comando de Soros, é o principal agente causador dessa transformação fundamental, cujo alvo definitivo não seria alterar drasticamente o partido, mas também o país.

Ele começa descrevendo a biografia de Soros, influenciado, desde sua estadia na Inglaterra, “pelo globalismo e pela perspectiva de aperfeiçoar a humanidade por meio da engenharia social”. Já nos Estados Unidos, Soros consolidou, a partir dos anos 50, sua fortuna, mas carregou consigo “conceitos anti-burgueses e antiamericanos”. Entre os anos 80 e 90, os autores descrevem que ele implantou uma série de fundações na Ásia e na Europa, acelerando a queda de regimes comunistas e totalitários, mas criando oportunidades de lucro com as indústrias estatais e suas propriedades disponíveis a quem pagasse.

Em 1993, Soros criou a Open Society Institute, a rede de fundações que “apoiaria uma série de grupos americanos e bandeiras extremistas na década seguinte – desde a legalização de drogas, passando pelo incentivo da abertura de fronteiras e indo até a criação de um judiciário de esquerda”. O que o livro pretende destacar, entretanto, é como essa rede conseguiu tomar basicamente o controle de um dos dois maiores partidos do bipartidarismo funcional americano.

Para isso, já nos anos 90, Soros se aproximou da família Clinton. Suas pressões iniciais visaram apoiar uma lei que, segundo os autores, foi fundamental em suas pretensões: a Lei McCain-Feingold, que “propôs a moralização da política por meio da regulamentação das quantias e dos tipos de doações que os candidatos poderiam receber”. A partir daí, a legislação proibiu “a contribuição ‘indireta’ (contribuições individuais não regulamentadas)” e permitiu apenas “a contribuição ‘direta’ limitada (contribuições para comitês de ação política”.

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As organizações fundadas por Soros, entretanto, poderiam se registrar na Comissão Eleitoral Federal. Profundamente desfalcado, o Partido Democrata se tornou praticamente refém do financiamento da rede de 527 entidades, “organizações radicais de obtenção de votos como a ACORN e sindicatos do setor público para implementar a agenda política de Soros”. O atentado de 11 de setembro, que para Soros era culpa da hegemonia americana provocando ressentimentos ao redor do mundo, convenceu o húngaro de que ele precisava acelerar o uso de sua máquina para combater ideias como a do excepcionalismo americano e a do mercado livre.

Os autores descrevem a partir daí nas páginas do opúsculo o passo-a-passo de um esforço programático e consistente que conseguiu transformar estados inteiros dentro dos EUA, tradicionalmente de eleitorado Republicano, em fontes profícuas de senadores Democratas. Foi o caso do Colorado, tema de um painel em 2008 na convenção Democrata chamado “The Colorado Miracle”, onde o representante local da rede de Soros, Rob Stein, afirmou abertamente que “o motivo de fazer o que fazemos e o modo como obtemos mudanças progressivas é para controlar o governo”.

O livro mostra como, após uma primeira derrota em 2004, com nova eleição de George Bush, Soros coloca sua máquina à disposição de Barack Obama – e não Hillary Clinton, porque suas escolhas são ideológicas e não pessoais, e ele via mais potencial em Obama e seus “alinskianos” (simpatizantes de Saul Alinsky, outro antigo radical americano). Usando sua estrutura complexa para a destruição de reputações e a difusão de suas agendas, Soros celebrou a eleição de Obama e a militância do ex-presidente por muitas de suas bandeiras, como na área da estatização da saúde, a ampliação do intervencionismo com a luta por uma lei de estímulo econômico e a política externa de desalinhamento com Israel numa tentativa de “trazer o Hamas para o processo de paz”.

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Horowitz e Perazzo descrevem o que consideram uma agenda aberta – longe de uma conspiração misteriosa – para desafiar “a economia de livre mercado e o sistema político baseado na liberdade e nos direitos individuais há mais de duzentos anos” e a busca de “um Estado totalitário” disfarçado “na sedutora retórica do ‘progressivismo’ e da ‘justiça social’”, cuja busca zelosa “pelo poder estatal e pelo controle governamental como solução para os problemas sociais e seu antagonismo com os EUA como defensores da liberdade são os sinais de um movimento radical cuja agenda é mudar fundamentalmente e inalteravelmente a maneira como os americanos viveram”.

Se o leitor julgar que se trata de um exagero, tem mais um motivo para dar uma chance a uma leitura. A sequência elucidativa dos fatos atesta a importância de uma boa estratégia e de muito dinheiro articulados para combater os princípios que prezamos – bem como a imperiosa obrigação que temos de não medir esforços para reagir a esse monumental desafio.

 

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