Em que devemos acreditar no Brasil?

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O maior conflito brasileiro contemporâneo não é apenas entre esquerda e direita. É entre a realidade e as versões fabricadas sobre ela. Em um país exausto por crises cíclicas, promessas não cumpridas, escândalos recorrentes e frustrações institucionais, o debate público deixou de ser apenas uma disputa de projetos de poder. Ele se tornou, cada vez mais, uma disputa pela posse da própria verdade. Quando a verdade passa a ser tratada como propriedade de facções, instituições ou corporações narrativas, a liberdade entra em risco.

O brasileiro de hoje não vive apenas uma crise de representação. Vive uma crise de confiança cognitiva. Já não sabe com facilidade em quem acreditar, que versão dos fatos merece crédito, qual interpretação decorre honestamente da realidade e qual foi montada para produzir efeito político. Em vez de uma esfera pública orientada pela busca sincera dos fatos, o país passou a conviver com um ambiente em que a informação é frequentemente moldada, enquadrada, filtrada e distribuída conforme conveniências ideológicas, interesses institucionais ou cálculos estratégicos de poder.

É nesse terreno que prospera a chamada guerra de narrativas. O termo se popularizou, mas nem sempre é compreendido em sua profundidade. Não se trata apenas de divergências de opinião, o que é natural e saudável em qualquer sociedade livre. Trata-se de algo mais sério: a tentativa de capturar a interpretação da realidade antes mesmo que a sociedade possa examiná-la livremente. Os fatos deixam de ser o ponto de partida do debate e passam a ser matéria-prima para versões previamente desejadas. Em vez de se perguntar o que aconteceu, pergunta-se primeiro qual leitura será mais útil. Em vez de esclarecer, busca-se enquadrar. Em vez de revelar, administra-se a percepção.

Nesse cenário, tornou-se comum ouvir que a culpa pelos males nacionais está nos extremos políticos. A afirmação possui algum apelo intuitivo, porque radicalismos existem, simplificam problemas complexos, inflam paixões e degradam o convívio cívico. Mas essa explicação, quando usada de forma genérica e automática, costuma servir mais como mecanismo de fuga do que como verdadeira análise. Culpar abstratamente os extremos pode ser uma maneira elegante de poupar o núcleo duro do problema brasileiro: a estrutura de poder que há décadas sobrevive da intermediação concentrada da informação, da blindagem seletiva de aliados, da criminalização oportunista de adversários e da constante fabricação de legitimidades discursivas.

Em outras palavras, muitas vezes o problema não está apenas nas bordas ruidosas do sistema, mas no centro organizado que decide quais excessos serão amplificados, quais escândalos serão relativizados, quais contradições serão silenciadas e quais agentes receberão o benefício da interpretação benevolente. O discurso contra os extremos, não raro, funciona como retórica de autopreservação do establishment político, burocrático, midiático e intelectual. Ele condena os excessos periféricos enquanto preserva intactos os monopólios centrais de mediação da realidade.

É aqui que a crítica liberal se torna especialmente relevante. O liberalismo sempre desconfiou da concentração de poder, não apenas porque ela ameaça direitos, mas porque ela corrompe o próprio acesso à verdade. Friedrich Hayek demonstrou que o conhecimento em uma sociedade é disperso, fragmentado e distribuído entre milhões de indivíduos. Nenhuma autoridade central é capaz de reunir, processar e organizar eficientemente todas as informações relevantes para dirigir a vida econômica. O mesmo raciocínio vale para o campo informacional e político. Nenhum grupo, nenhuma instituição, nenhum aparato estatal, nenhum conglomerado comunicacional deveria ter a pretensão de monopolizar a interpretação legítima dos fatos. Quando isso ocorre, a sociedade não ganha clareza. Ganha dependência.

A grande lição liberal, muitas vezes subestimada, é que a liberdade não é apenas moralmente superior. Ela também é epistemicamente superior. Sociedades livres possuem maior capacidade de descobrir a verdade justamente porque permitem a concorrência entre interpretações, a circulação descentralizada de dados, a crítica às autoridades, a revisão de consensos artificiais e o surgimento de correções vindas de fora dos centros tradicionais de poder. A liberdade, nesse sentido, não é apenas um direito. É um método de descoberta.

Karl Popper compreendeu isso com notável precisão ao defender a sociedade aberta. Para ele, o progresso do conhecimento depende da possibilidade de erro, contestação e correção. Uma sociedade que não permite o questionamento das versões dominantes não apenas se torna politicamente opressiva. Ela também se torna intelectualmente estagnada. A verdade não floresce onde há tutela excessiva. Ela floresce onde hipóteses podem ser refutadas, interpretações podem ser confrontadas e autoridades podem ser desmentidas pelos fatos.

O Brasil, infelizmente, desenvolveu ao longo do tempo uma cultura política pouco afeita a essa lógica. Nossa formação patrimonialista, centralizadora e profundamente estatizante acostumou a sociedade à ideia de que a realidade deve ser explicada por instâncias superiores: pelo governo, pelo especialista ungido, pelo burocrata autorizado, pelo grande veículo, pelo partido, pela corte, pelo comentarista credenciado. Em vez de cidadãos intelectualmente autônomos, forma-se uma massa frequentemente dependente de tradutores oficiais da realidade. Em vez de uma sociedade de pessoas livres examinando os fatos por si mesmas, consolida-se uma sociedade de receptores buscando a narrativa permitida.

Essa dependência é perigosa porque a mentira política raramente se sustenta sozinha. Ela precisa de proteção, repetição, filtragem seletiva e intermediação concentrada. A falsidade organizada não sobrevive apenas pela sua capacidade de persuadir. Ela sobrevive pela capacidade de bloquear correções. Toda mentira de grande escala exige um ambiente em que vozes dissidentes possam ser desacreditadas com rapidez, documentos inconvenientes possam ser relativizados, padrões duplos possam ser naturalizados e o contraditório possa ser tratado como ameaça. A mentira precisa de cercas. A verdade precisa de portas abertas.

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É por isso que a informação descentralizada e distribuída constitui uma das defesas mais importantes de uma sociedade livre contra qualquer forma de fake news, manipulação ou propaganda travestida de neutralidade. Quando muitas fontes independentes podem registrar, investigar, interpretar e divulgar fatos, torna-se muito mais difícil sustentar artificialmente uma versão falsa por longo tempo. A descentralização informacional cria um ambiente de escrutínio difuso, e o escrutínio difuso é fatal para narrativas montadas sobre ocultação, assimetria e controle.

Isso não significa, evidentemente, celebrar o caos informacional ou negar a existência da desinformação. O ponto não é afirmar que toda voz tem o mesmo valor ou que toda versão merece igual credibilidade. O ponto é outro. O combate à mentira não deve depender da concentração ainda maior do poder de definir o que é verdade. Esse caminho, embora frequentemente vendido como solução civilizatória, abre espaço para um problema ainda mais grave: a transformação da tutela informacional em instrumento político permanente. Quando poucas mãos passam a arbitrar o que pode circular, o risco de abuso deixa de ser acidental e passa a ser estrutural.

James Madison advertia que, como os homens não são anjos, o poder precisa ser limitado. Essa máxima vale integralmente para o poder de controlar narrativas públicas. Quem vigia o vigilante? Quem controla o controlador? Quem garante que o árbitro da verdade não agirá conforme preferências ideológicas, lealdades institucionais ou conveniências circunstanciais? O liberalismo não nega a falibilidade humana. Ao contrário. Parte dela. Exatamente por partir dela prefere arranjos descentralizados, concorrenciais e corrigíveis aos monopólios supostamente iluminados.

No caso brasileiro, essa reflexão é particularmente urgente. Temos visto, ao longo dos anos, a reclassificação retórica de fatos semelhantes conforme a identidade do agente envolvido. Há escândalos que recebem tratamento moral devastador e outros que são diluídos em contextualizações indulgentes. Há abusos que são denunciados como ameaça institucional e abusos que são justificados em nome de causas superiores. Há fracassos estatais apresentados como custo inevitável da proteção social e iniciativas privadas tratadas com suspeita mesmo quando entregam resultados objetivos. Em um ambiente assim, não basta combater uma ou outra notícia falsa. É preciso combater a arquitetura que torna a mentira seletiva socialmente sustentável.

A informação distribuída tem precisamente essa virtude. Ela rompe a dependência do centro. Ela permite que a verdade emerja também das margens, dos registros dispersos, dos documentos esquecidos, dos dados comparados, das contradições expostas, das vozes que antes não tinham espaço. Em vez de um fluxo vertical em que poucos definem e muitos absorvem, ela promove um fluxo mais horizontal em que a realidade pode ser examinada de múltiplos ângulos. Trata-se, em termos liberais, de aplicar ao campo do conhecimento público uma espécie de ordem espontânea: a verdade não como imposição hierárquica, mas como resultado de um processo aberto de descoberta, correção e confronto.

Alexis de Tocqueville compreendeu que a liberdade depende de uma sociedade civil vibrante, associativa e capaz de produzir contrapesos ao poder central. Essa intuição permanece atual. Uma sociedade menos dependente de centros narrativos únicos é também uma sociedade mais apta a resistir à mentira organizada. Quanto mais distribuída for a capacidade social de registrar e interpretar a realidade, menor será a probabilidade de que ficções politicamente úteis consigam se impor como unanimidades morais.

No fundo, a questão brasileira não é apenas tecnológica nem comunicacional. É civilizatória. O que está em jogo é saber se queremos continuar como uma sociedade que terceiriza a interpretação da realidade a poucos mediadores poderosos ou se desejamos construir um ambiente em que a verdade tenha mais canais para aparecer e menos barreiras para circular. A primeira opção favorece tutores, oligarquias discursivas e administrações permanentes da percepção pública. A segunda favorece cidadãos livres.

Por isso, a resposta à pergunta sobre em que devemos acreditar no Brasil não deve ser procurada em líderes carismáticos, em partidos salvacionistas, em comentaristas investidos de autoridade moral ou em instituições que se pretendem acima da crítica. Devemos acreditar em mecanismos, não em oráculos. Devemos acreditar menos em narrativas fechadas e mais em processos abertos. Devemos acreditar menos em intérpretes supremos da realidade e mais na capacidade de uma sociedade livre de confrontar versões concorrentes até que o falso se desgaste e o verdadeiro se imponha.

A mentira pode até vencer ciclos curtos. Pode dominar manchetes, pautar emoções, capturar debates e mobilizar massas. Mas ela tem uma fragilidade estrutural: depende sempre de proteção. A verdade, ao contrário, pode ser atrasada, abafada e até distorcida por algum tempo, mas, quando encontra liberdade para circular, comparar, documentar e contradizer, tende a reaparecer. A mentira precisa de centralização. A verdade floresce na descentralização.

Se o Brasil quiser recuperar algum senso de realidade compartilhada, precisará compreender esse ponto elementar. Não venceremos a crise nacional apenas trocando os administradores da narrativa dominante. Venceremos quando recusarmos a própria lógica do monopólio interpretativo. A defesa mais sólida contra qualquer fake news não está na censura, nem na tutela de iluminados, nem na delegação da verdade a autoridades centrais. Está na informação descentralizada e distribuída, no pluralismo real de fontes, na liberdade de investigação e na coragem de uma sociedade que não aceita ter sua percepção da realidade sequestrada por poucos.

Em última instância, uma nação livre não é aquela em que todos repetem a versão correta. É aquela em que ninguém tem poder suficiente para decretar sozinho o que deve ser considerado realidade. Essa talvez seja a crença mais importante que o Brasil precisa redescobrir: a de que, em um ambiente de liberdade, a mentira pode até fazer barulho, mas não consegue se sustentar para sempre.

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João Loyola

João Loyola

Formado em administração pela PUC Minas e em Gestão de Seguros pela ENS, Pós-Graduado em Gestão Estratégia de Seguros pela ENS, é sócio sucessor da Atualiza Seguros, sócio da Botrel e Loyola consultoria e é associado do IFL-BH.

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