Aos vencedores, a propaganda travestida de Carnaval

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A purpurina perdeu seu brilho, as fantasias retornaram ao mofo de seus depósitos, os carros alegóricos foram devolvidos ao anonimato dos barracões, e a bateria se calou. O que foi vendido como espetáculo de euforia vai se tornando uma triste recordação esmaecida e a arrogância dos ídolos de barro substituída pela rotatividade das manchetes midiáticas. Porém, o lodo subjacente à farsa segue cada vez mais nauseabundo, emporcalhando nossa triste republiqueta.

No domingo de carnaval, o desfile das escolas de samba no Rio foi marcado por uma propaganda antecipada de Lula, pré-candidato à próxima corrida presidencial. A descrição da trajetória de político vivo e em plena atuação como saga heroica, o uso do estribilho do longevo jingle de campanha como refrão do samba-enredo, a apresentação do “homenageado” como um boneco gigante, o destaque escancarado à marca mista da sigla partidária (letras e figura da estrela) e o louvor a políticas públicas supostamente implementadas por Lula transformaram o que deveria ter sido um desfile em indisfarçável ato de campanha. Isso sem falar no abuso de poder econômico caracterizado pelo desvio de recursos públicos para a irrigação dos cofres da escola e no abuso de poder político configurado pelo gesto do “faz o L” (símbolo maior do império lulista devolvido ao poder), pela presença do próprio Lula na avenida e pela escolha, por parte do casal presidencial, dos atores encarregados da mise-en-scène. Contudo, nem só da idolatria ao lulopetismo se alimentou a escola de Niterói.

Logo no carro abre-alas, o carnavalesco fez questão de brindar seus prosélitos com a representação da prisão de Bolsonaro, levando-os a um delírio orgíaco. Em plena Sapucaí, um palhaço mostrado como um Bozo-Coringa era capturado por um careca togado e trancafiado na masmorra. Não se tratava ali de insinuação ou mensagem subliminar; ao contrário, era um brado de louvor ao aliado disfarçado de juiz, cujo “feito” maior havia consistido precisamente no sequestro do arqui-inimigo político do homenageado. Não à toa, a cena de encarceramento do “malévolo” palhaço sucedia a da subida da rampa por Lula em 23, em um indicativo, na linguagem teatral, de uma nítida relação de causa e efeito entre os eventos. Tanto na vida quanto na arte cênica, o petista, cuja corrupção havia sido desnudada por três instâncias judiciais, precisou aniquilar seus oponentes para garantir a própria sobrevida no Planalto. E, para tanto, contou com os ótimos préstimos de um magistrado dado a prisões fora do devido processo legal, à censura e aos demais decretos de morte civil contra todos aqueles que ousassem questionar o arbítrio dos donos do poder.

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Enfatizando o seu êxtase diante do modus operandi da atual composição do STF, a escola ainda apresentou outro carro retratando o mesmo Bozo-Coringa em sua jaula, de tornozeleira eletrônica, e destacou na letra do samba a expressão “sem anistia”, bandeira da esquerda brasileira e de todos os defensores dos abusos togados. O espetáculo degradante na Sapucaí ultrapassou em muito a esfera já reprovável de uma campanha antecipada; o desfile não apenas confessou, como idolatrou todas as violações protagonizadas por togados desde a instauração do inquérito das fake news. Não foi apenas a propaganda de um indivíduo, mas de um regime autoritário protagonizado por figurões do judiciário, que pisotearam o primado da Constituição e das leis para implementarem o império de seus próprios caprichos. Confiantes na impunidade reinante entre nós, os organizadores do evento incorreram em sincericídio ao levarem à avenida a representação de um binômio vencidos-vitoriosos, onde a vitória não foi definida por razões jurídicas, mas pelo emprego da violência pura e simples. Sem o arsenal das forças de defesa, é certo, mas graças às armas de uma polícia federal servil ao autoritarismo judicial.

Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Poucas vezes a conclusão da filosofia de Quincas Borba, personagem-título da obra machadiana, me pareceu tão ilustrativa da realidade quanto no desfile dos niteroienses. Lá estava Bolsonaro, vencido em sua jaula gradeada e alvo da ira da turba petista ou, na melhor das hipóteses, de um ou outro olhar compassivo diante das feições ridículas do palhaço; lá estavam Lula e Alexandre de Moraes, os vencedores do butim do campo de batatas ou, em português mais claro, do poder desenfreado entre nós. Na era dos juízes despóticos, o humanitismo de Quincas vem sendo aplicado a um país onde a “paz” é a destruição das instituições e das garantias constitucionais, e onde a guerra a pretensos “golpistas” é a conservação do establishment. Ou alguém ainda haverá de duvidar da adoção, nos últimos anos, de uma lógica beligerante por parte de togados que se vangloriaram da “derrota” ao bolsonarismo ou do “combate” a um pretenso extremismo?

A depender de seus cálculos politiqueiros, juízes eleitorais até podem vir a excluir Lula da disputa de 26. No entanto, não é crível que nossos senadores venham a tomar todas as medidas legais cabíveis contra Moraes e seus pares abusivos. Em um cenário povoado por uma massa política nada confiável, que renunciou à própria autonomia em arranjos promíscuos com togados, é possível e até provável que eventuais mudanças venham a ser engendradas a partir de conflitos entre clãs de togados em guerra pela repartição do butim. Talvez somente a partir do confronto entre interesses nada institucionais possam surgir revelações ainda mais aterradoras sobre os intestinos da nossa republiqueta, tornando inviável a manutenção de certas figuras em seus postos de mando.

Até que as “batatas” venham a ser desfrutadas pelo povo, do qual deveria emanar todo o poder, ainda teremos de acompanhar os saques de poderosos a vários campos e, mais grave ainda, a proibição às investigações sobre possíveis ilícitos incorridos na aquisição de extensos “batatais”. Até lá, nossos donos do poder seguirão protagonizando as mais grotescas folias institucionais, e nossas liberdades continuarão a perigo. Que tenhamos coragem para desnudar e enfrentar um Humanitas cada vez mais faminto e mais avesso à ética.

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Judiciário em Foco

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Katia Magalhães é advogada formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e MBA em Direito da Concorrência e do Consumidor pela FGV-RJ, atuante nas áreas de propriedade intelectual e seguros, autora da Atualização do Tomo XVII do “Tratado de Direito Privado” de Pontes de Miranda, e criadora e realizadora do Canal Katia Magalhães Chá com Debate no YouTube.

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