“Tito and his comrades”: brilhante retrato de um ditador que desafiou Stálin
Em minha recente viagem pela Europa, conhecendo a família do marido de minha irmã, fui generosamente presenteado pelo sogro dela com uma biografia de Josip Broz Tito (1892-1980), ditador da extinta Iugoslávia, de autoria de Jože Pirjevec. Membro da Academia de Ciências e Artes da Eslovênia, o autor é um ativo pesquisador, especializado em História diplomática, tendo também envolvimento ativo na política, integrando desde 2005 o Partido da Democracia Liberal esloveno, caracterizado por uma postura tipicamente alinhada ao chamado liberalismo social.
O livro Tito and his Comrades, em edição em inglês realizada pela Universidade de Wisconsin, lamentavelmente não dispõe de tradução em português. Tive a preciosa oportunidade de recebê-lo e iniciar a leitura na própria Zagreb, a capital da Croácia, e passar os olhos pelas primeiras páginas enquanto visitava muitos dos outros lugares frequentados pelo biografado, como a bela capital eslovena Liubliana e o magnífico lago Bled. O trabalho de Pirjevec é, como definiu o L’Histoire, monumental. Em 456 páginas, excluindo as volumosas notas e o índice remissivo, ele desnuda a trajetória de uma personalidade extremamente magnética e de legado multifacetado – ainda que seus malfeitos sejam, à luz da História, indesculpáveis.
Em um texto habilidosamente envolvente, Pirjevec expõe a vida de Tito em seis grandes capítulos, compreendendo sua juventude, sua luta político-partidária em meio à Segunda Guerra Mundial, o período imediatamente pós-guerra, seus anos presidenciais, sua reta final e as consequências de sua trajetória e sua morte para o território que governou e para as relações internacionais. Seria impossível esmiuçar o conteúdo de tão vasto estudo, de modo que nos limitamos a uma síntese dos pontos fundamentais que podemos extrair a respeito do significado do biografado.
Nascido em um vilarejo croata, Tito manteve por toda a vida uma baixa escolaridade. Pirjevec dá bastante destaque a esse aspecto, mostrando-o como um homem de ação e vigor, mas que carecia de habilidades intelectuais e mesmo oratórias, estas últimas normalmente esperadas em lideranças carismáticas. A biografia também o apresenta como alguém com uma vida conjugal extremamente turbulenta, tendo tido quatro esposas – a última, Jovanka Broz (1924-2013), envolvida em desentendimentos sérios com os aliados de partido de Tito, tensões que desgraçaram seu matrimônio. O autor também ressalta o apreço de Tito pelas celebridades internacionais, pelo luxo, pelas festas – características que talvez não se esperaria encontrar em um ardoroso militante do igualitarismo socialista, mas apenas se não conhecêssemos bem a verdade sobre os ditadores de qualquer espécie.
Servindo ao exército do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, Broz esteve detido pela Rússia czarista. Trabalhando como prisioneiro, teve a chance de ouvir um discurso incensado de Vladimir Lênin (1870-1924) e apaixonar-se pela causa bolchevique. De volta a Zagreb, passou a integrar o Partido Comunista local. Seu país era então, desde 1918, conhecido como Reino da Iugoslávia (palavra que significa literalmente “Eslavos do Sul”), oficialmente chamado de Reino dos Servos, Croatas e Eslovenos, uma monarquia que reunia diferentes nações eslavas, com diferentes culturas e religiões predominantes, sob um único Estado após a Primeira Guerra Mundial como forma de fortalecê-las diante dos grandes países vizinhos, que já as haviam dominado em outras oportunidades.
Tornando-se inimigo do Estado iugoslavo, o Partido Comunista viu em Tito uma liderança crescente. Envolvido em atividades sindicais e agitação política, foi novamente preso, período em que, Pirjevec destaca, na própria cadeia, ele e seus primeiros “camaradas” estudaram o que puderam sobre a ideologia marxista-leninista, política e táticas militares para se tornarem “revolucionários profissionais”. A biografia detalha a relação de Tito com seus companheiros e descreve um pouco da trajetória dos mais importantes entre eles, oferecendo, com isso, também um panorama da dinâmica interna do Partido Comunista iugoslavo. Mais de uma vez, o texto detalha como figuras de proa em determinados momentos acabavam caindo em desgraça com o grande líder e eram estrategicamente boicotadas até a irrelevância, quando interessava a Tito preservar sua imagem de moderação – embora constem igualmente casos cujos desfechos são menos felizes e mais sangrentos.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Tito construiu sua ascendência dentro do partido. Com a invasão do Eixo à Iugoslávia, em 1941, ele e o Partido Comunista lideraram a reação militar interna, enfraquecendo tanto a monarquia quanto os invasores. Depois da vitória, milhares de colaboradores do regime pró-Eixo foram executados, inclusive de maneiras torturantes, com marchas para campos de concentração nas quais poucos chegavam vivos ao destino. Responsabilizando a divisão religiosa pelas instabilidades políticas da Iugoslávia pré-guerra, o regime perseguiu lideranças da Igreja Católica, procurando obrigá-las a serem menos leais ao Vaticano e mais ao poder nacional. Porém, o livro relata como gradativamente a liderança factual de Tito se impôs aos chefes de Estado que integravam as tropas Aliadas, conquistando o apoio tácito das potências ocidentais, que passaram a vê-lo, de maneira pragmática, como a única opção realista para comandar aquela área do globo.
Embora liderando uma República socialista, Tito não se privava de nenhum luxo, utilizando inclusive as instalações palacianas da Família real deposta. Também, mesmo fazendo questão de enfatizar sua lealdade ao Marxismo-leninismo, ele e seus “camaradas” conseguiram a autonomia da Iugoslávia praticamente sem depender da União Soviética, o que começava a conferir ao militar os ares de ícone. Dois titãs carismáticos juntos não teriam como deixar de se verem como ameaça recíproca, e isso levou a uma tensão crescente com Joseph Stálin (1878-1853), o grande líder da União Soviética e autoridade máxima do braço majoritário do movimento comunista internacional.
A partir daí, o livro espelha toda a aptidão do autor para abordar questões diplomáticas “dissecando” os bastidores das constantes idas e vindas na relação entre os dois ditadores e seus respectivos países, com reflexos dentro e fora da rede internacional socialista. Uma sucessão de discordâncias em política externa serviu de pano de fundo para que a Iugoslávia se apresentasse como uma proposta alternativa de poder socialista, desafiando o hegemonismo de que acusava os soviéticos. De acordo com o Partido Comunista de Tito, o socialismo poderia ser alcançado de diferentes maneiras a depender do país e do contexto em que os revolucionários atingissem o poder.
Esse desafio político e intelectual atraiu a atenção dos ocidentais, que, vendo no regime iugoslavo uma contenção útil de pretensões soviéticas, passaram a conceder-lhe apoio diplomático e econômico. Genialmente, Pirjevec explora como o marechal Tito “navegou” nesse oceano de interesses, ora servindo às pretensões ocidentais, ora afirmando sua autonomia e a altivez iugoslava, ora aproximando-se mais dos próprios soviéticos com quem havia rompido (especialmente após a morte de Stálin, quando a relação com a principal força comunista se tornou mais palatável). Isso fez de Tito um dos fundadores do movimento dos Não-Alinhados, que, em plena Guerra Fria, procuravam se apresentar como forças que não queriam se curvar incondicionalmente nem aos EUA nem à União Soviética. Esse bloco, procurando congregar nações do Terceiro Mundo, realçou a posição de Tito como um líder que buscava condenar a opressão das nações mais poderosas, fossem elas capitalistas ou socialistas, sobre as mais pobres, e alguém que procurava, a despeito da formação militar, evitar guerras e tutelas armadas a todo custo. O livro ressalta como forças políticas diferentes da África fizeram questão de prestigiar seu funeral, por exemplo, dado que se tornou um campeão das pautas anticolonialistas, preconizando também uma solução pacífica para o conflito árabe-israelense. Também a Iugoslávia, ao contrário de outras ditaduras socialistas de seu tempo, facilitava a viagem para dentro e para fora de seu território. Tudo isso deu a Tito a reputação de um “ditador benevolente” e a seu regime a de um “socialismo com face humana”.
O modelo econômico da Iugoslávia foi um dos alicerces dessa identidade autônoma que o Titoísmo pretendeu criar em relação ao Stalinismo. Em seus primeiros momentos, o governo titoísta implementava medidas de inspiração mais ortodoxamente bolchevique, como a tentativa de nacionalização acelerada de meios de produção. Tito foi convencido por aliados, porém, em especial Milovan Djilas (1911-1995), que depois se tornaria um desafeto do ditador, a adotar um modelo particular, o socialismo “self-management”, que, como Pirjevec observa com perspicácia, colhe inspirações no cooperativismo dos socialistas utópicos anteriores ao pensamento marxista. A ideia era que, “se o objetivo da luta de classes era libertar o proletariado da dependência do capital, ele deveria ser libertado também da dependência do Estado” (esses trechos entre aspas são traduções livres da obra), dando-se maior controle das operações industriais diretamente aos operários em vez de submetê-los ao governo. Autores como Fourier (1772-1837) ou Proudhon (1809-1865) também queriam substituir o Estado e a empresa capitalista por tipos diversos de sistemas cooperativistas em que os trabalhadores teriam amplo controle. Visava-se também a possibilitar um triunfo tanto sobre o capitalismo quanto sobre o que se chamava de “Stalinismo tecnocrático”. As empresas seriam conduzidas por conselhos de trabalhadores, permitindo-se a manutenção de algumas características típicas do mercado, como a determinação mais livre de preços, algum nível regulado de concorrência capitalista e maior abertura a investimentos estrangeiros e ao comércio exterior.
Porém, conforme o próprio Pirjevec, “essa nova política econômica nunca ganhou totalmente a confiança das massas, principalmente por causa da discrepância entre teoria e prática. Self-management requeria que o trabalhador se tornasse um administrador de mente aberta com uma ‘consciência socialista’ desenvolvida, pronto a dedicar tempo e energia a atividades administrativas além do compromisso com seu próprio trabalho. Na realidade do dia-a-dia, surgiu rapidamente um conflito entre as premissas ideológicas e as reais condições sociais, econômicas e políticas da população”. Tanto os socialistas utópicos quanto os titoístas ignoraram a importância da função empresarial. A estrutura que imaginavam oferecia incentivos muito imperfeitos, atribuindo tarefas que demandam decisões de longo prazo a quem não estava preparado para desempenhá-las. Inevitavelmente, aliás, a influência política continuava existindo para determinar os diretores das fábricas.
O livro reconhece a turbulência econômica em que o país submergiu nos últimos tempos de Tito, assim como a adoção, na década de 70, de políticas mais tipicamente soviéticas de repressão a opositores. Tito responsabilizou seus críticos, dentro do próprio partido ou de movimentos nacionalistas de oposição na Iugoslávia, por problemas como “inflação, corrupção, dívida externa descontrolada, investimentos inócuos, todos os tipos de ilegalidades e desigualdade social, como se a guilhotina não tivesse sido manipulada pelas pessoas que tinham estado no poder por décadas”, ou seja, por ele mesmo. No fim, apesar de toda a aura mitológica criada ao seu redor, a Iugoslávia não sobreviveu à explosão de seus paradoxos internos após a morte do líder e se dividiu no que hoje são sete nações independentes.
Em interessante balanço, Pirjevec nos diz que a Iugoslávia de Tito e seus camaradas “tinha conhecido uma rápida industrialização graças à qual as massas experimentaram um aumento constante no padrão de vida – embora isso tenha se dado principalmente por auxílios e empréstimos estrangeiros. Embora o poder estivesse nas mãos do partido, o sistema de self-management permitiu que cidadãos, ao menos a nível local, exercessem alguma influência na vida política. A oposição de qualquer tipo era proibida, mas a vida intelectual e a literatura não estavam sujeitas a censura prévia e, mais importante, as fronteiras estavam sempre abertas, não apenas à passagem de pessoas como à passagem de ideias. Sem Tito, a ruptura com Stálin não teria ocorrido. (…) Sua épica rebelião contra Hitler e Mussolini, que assegurou à Iugoslávia a vitória sobre o fascismo, nunca será esquecida. Nem o fato de que, no início dos anos 50, ele esteve apto a resistir ao canto da sereia do Ocidente, colocando-se à testa dos ‘humilhados’ e dos ‘ofendidos’ do Terceiro Mundo. No campo internacional, a Iugoslávia se moveu de um isolamento assustador em 1948 para uma política multilateral que, dentro da estrutura do Movimento dos Não-Alinhados, lhe deu uma influência e prestígio totalmente desproporcionais ao seu peso econômico e militar. Como porta-voz de um tipo especial de socialismo e mediador entre Ocidente e Oriente, Norte e Sul, adquiriu vasta influência no contexto internacional. No entanto, é impossível ignorar as adversidades iniciais da ditadura de Tito, os massacres depois da guerra, o terrível campo de concentração de Goli Otok e o fracasso de seu regime em governar sem sua presença coesiva e fazer o sistema de self-management evoluir para uma democracia moderna e pluralista. A crise econômica dos anos 70 trouxe uma série de problemas que o sistema estava incapaz de enfrentar: uma inflação média de 17%, um grande déficit comercial com outros países e as diferenças crescentemente evidentes entre as repúblicas ‘desenvolvidas’ e ‘subdesenvolvidas’ e as províncias autônomas da federação, que nutriram conflitos étnicos”.
De maneira geral, creio que o autor sumarizou adequadamente o sentido que se pode extrair da trajetória de seu biografado. Tito teve coragem em diversos momentos de sua vida, sobretudo ao desafiar um titã como Stálin. Podemos concordar com algumas de suas atitudes no campo internacional. Seu regime pode ter sido mais moderado que outros, a depender do período que se julgue. Entretanto, há contradições fundamentais, tanto lógicas quanto morais e práticas, em querer um “socialismo com face humana”, em querer os sucessos do capitalismo criando vários óbices ao lucro, em querer buscar um falso ideal de igualdade enquanto se desfruta de uma vida nababesca. Essas contradições, de que a vida de Tito se embebeu, são a marca mais importante de sua trajetória, junto com todo o sangue que foi derramado e a desgraça em que foram submersos, sob pressão do aparato estatal, aqueles que ousaram questionar suas vontades.



