Quando o governo muda a inflação
O governo não fortalece a moeda quando muda a forma de medir a perda de seu poder de compra. Apenas muda a maneira como essa perda é apresentada à sociedade.
Foi exatamente esse o debate requentado pelas recentes declarações do ministro Dario Durigan ao defender uma revisão da metodologia utilizada pelo IBGE para calcular a inflação. Segundo ele, os hábitos de consumo mudaram, novos serviços ganharam importância e a cesta utilizada pelo IPCA deveria ser atualizada.
O argumento parece razoável. Padrões de consumo evoluem, novas tecnologias surgem, serviços antes inexistentes passam a fazer parte do cotidiano e nenhum índice estatístico deve permanecer congelado no tempo. O problema é que essa discussão ressurge justamente quando a inflação ultrapassa a meta, os juros permanecem elevados e a pressão política aumenta. Ao longo da história, essa coincidência se repetiu inúmeras vezes. A questão relevante, portanto, não é saber se a cesta de consumo precisa ser revista. É perguntar por que essa preocupação costuma surgir exatamente quando os números passam a incomodar o governo.
Antes disso, porém, vale responder a uma pergunta muito mais importante: afinal, o que é inflação? Hoje, a maioria dos livros-texto define inflação como o aumento generalizado dos preços. Essa mudança de significado deslocou o debate econômico da causa para o efeito. Para Mises, inflação é a expansão da oferta de moeda e de crédito promovida pelas autoridades monetárias. Friedman resumiu a mesma ideia na frase que se tornou um clássico da teoria econômica: “Inflation is always and everywhere a monetary phenomenon.”
Inflação é a expansão da quantidade de moeda. O aumento dos preços é uma de suas consequências. A diferença parece apenas conceitual, mas altera completamente a forma de compreender o problema. Definir inflação pela alta dos preços equivale a definir uma febre pela temperatura do termômetro e não pela infecção que a provoca.
Se inflação significa expansão monetária, a pergunta inevitável passa a ser: quem aumentou a quantidade de moeda? Quando inflação passa a significar apenas aumento de preços, o emissor da moeda desaparece da explicação. A discussão muda de direção. Passamos a responsabilizar empresários, supermercados, petróleo, câmbio, conflitos internacionais, mudanças climáticas. O governo deixa de ser visto como a origem do problema e passa a se apresentar como seu gestor.
Choques de oferta existem e alteram preços relativos. Secas encarecem alimentos, guerras elevam o custo da energia e quebras de safra afetam determinados produtos. Nada disso, entretanto, explica um processo contínuo de perda do poder de compra da moeda. Sem aumento persistente da oferta monetária, esses reajustes tendem a ser temporários e compensados por reduções em outros setores da economia.
Justamente aí que entram os índices de preços. Eles não medem a inflação; medem seus efeitos. Funcionam como um termômetro: registram a temperatura da doença, mas não a produzem. Como qualquer instrumento estatístico, dependem de escolhas metodológicas, como os produtos que compõem a cesta, seus respectivos pesos e a forma como novos hábitos de consumo são incorporados. Atualizações metodológicas podem ser tecnicamente necessárias.
O problema surge quando existem incentivos políticos para que essas mudanças reduzam a inflação medida. Uma inflação oficial menor reduz reajustes indexados, melhora indicadores fiscais e transmite a impressão de que a política econômica produz resultados melhores do que efetivamente se verifica. Politicamente, todos ganham, exceto o cidadão, que continua perdendo poder de compra. O índice deixa de ser um instrumento estatístico e passa a desempenhar uma função política.
A história econômica oferece inúmeros exemplos. Os Estados Unidos alteraram diversas vezes a metodologia do CPI. No Brasil, mudanças semelhantes ocorreram no cálculo do IPCA e de outros indicadores. Não estou afirmando que toda revisão metodológica seja fraudulenta, pois seria intelectualmente desonesto. O ponto é outro: quanto maior a liberdade para redefinir a régua utilizada para medir os efeitos da inflação, maior será a tentação de deslocar o debate da política monetária para a estatística.
O cidadão não vive dentro do IPCA, mas dentro do seu próprio orçamento. Quando supermercado, aluguel, plano de saúde, escola, energia e combustível consomem uma parcela crescente da renda, pouco importa se uma assinatura de streaming ganhou ou perdeu peso na cesta oficial. O poder de compra continua diminuindo.
Por isso, a credibilidade das estatísticas depende menos da sofisticação da metodologia do que da sua capacidade de refletir a experiência cotidiana das pessoas. Quando essas duas percepções se afastam, cresce inevitavelmente a desconfiança.
Revisar metodologias é legítimo e, muitas vezes, necessário. O que não pode acontecer é a revisão do termômetro substituir a discussão sobre a doença. Os governos podem alterar a cesta de consumo, modificar pesos, excluir itens ou criar novos indicadores. O que não conseguem fazer é fortalecer a moeda por meio de mudanças estatísticas. Quando a moeda perde poder de compra, alterar o índice apenas muda a forma de descrever o problema. Não muda a inflação.



