Uma tréplica ao Filipe Celeti – Defendendo o Fusionismo

Filipe Altamir*

Kirk-in-libraryDecidir redigir uma tréplica cabal com o intuito de esclarecer diversos pontos que culminaram em uma confusão mental por parte do Filipe Celeti e, apesar de ter gostado muito do seu texto, provavelmente há alguns elementos os quais ele não levou em conta e não soube me interpretar corretamente. O Filipe Celeti começa afirmando que confundo o termo direita com conservadorismo, mesmo que eu não tenha colocado ambos no mesmo patamar de sinônimos exatos, como se fossem exatamente a mesma coisa. É óbvio que no espectro político da aclamada direita há diversas vertentes, mas eu me ocupo somente a falar do conservadorismo especificamente e não tratar de outras possíveis correntes da direita como o integralismo, nacionalismo, tradicionalistas duguinistas, Front Nacional e etc, os quais realmente são vertentes e outras correntes de pensamento que definitivamente não se encaixam no Fusionismo.

Esclarecendo os principais pontos os quais me compeliram a redigir a tréplica, irei copiar e colar alguns trechos do texto do Filipe Celeti e refutá-los logo em seguida, facilitando a vida de muitos leitores e tornando o artigo um pouco mais dinâmico. Eis o segundo parágrafo do Celeti:

“Altamir inicia seu texto com a afirmação de que “uma das atitudes mais comuns para qualquer indivíduo que se auto-proclame de direita é a percepção da realidade concreta e análise pragmática da realidade, se distanciado completamente de qualquer análise dogmática e ideológica”. Em primeiro lugar, há na direita muitos dogmáticos e ideólogos. Qualquer maluco pode se auto-proclamar de direita sem a mínima percepção da realidade e muitas vezes defendendo absurdos sem uma análise rigorosa do real. Dito isto, chegamos a nosso segundo ponto. A segunda frase de Altamir começa dizendo: “Uma das características mais comuns de um conservador é […]”. Ele abre o texto falando sobre os autoproclamados de direita e milagrosamente passar a falar dos conservadores, como se estes fossem um sinônimo de direitistas”.

Como já exemplifiquei acima, dentro do espectro político da direita há várias vertentes e correntes de pensamento, e trato somente a falar do conservadorismo, que não é uma ideologia ou filosofia política, mas uma atitude, um sentimento de reação, ceticismo político, a consciência conservadora é regida por uma série de princípios que por sua vez o nortearam a tomar suas decisões numa sociedade política. Ao abrir o texto com o termo “autoproclamados de direita”, não coloco de maneira alguma como se fossem a mesma coisa, mas sim parto das definições do senso comum como um mecanismo de facilitar a compreensão do que irei elucidar. Quem leu o meu artigo por completo, sabe que minha intenção ali foi sempre falar especificamente do conservadorismo, como uma das vertentes que comumente é encaixada no espectro da direita.

“A partir desta mudança abrupta do termo “direita” para o termo “conservadorismo”, o autor passa a tecer elogios ao conservadorismo e de como a prudência é o ideal máximo, abstrato e confuso deste grupo ideológico. (Não é minha intenção debater o conservadorismo neste texto. Joel Pinheiro da Fonseca já o criticou neste mesmo instituto, aqui.) Ao final da exposição acerca do conservadorismo o autor apresenta o Fusionismo, união do conservadorismo com a defesa do livre mercado dos libertários.”

O autor logo em seguida aponta o princípio da prudência como um “ideal máximo, abstrato e confuso” do conservadorismo, mesmo sem nenhum conservador ter apontado a prudência como um ideal máximo, mas como uma ferramenta prática de análise concreta da realidade antes da tomada de decisões políticas. Não vejo como uma regra pessoal de um sujeito de olhar sempre para os dois lados antes de atravessar a rua possa ser um “ideal máximo, abstrato e confuso”, tendo em vista que através desse princípio pessoal e dessa prudência, ele pode evitar qualquer tipo de medida ou atitude inconsequente culminando em um terrível acidente.

Logo em seguida, o Filipe Celeti se dá o trabalho de exemplificar e fazer um resumo da história do libertarianismo, citando as diversas correntes e vertentes dentro do libertarianismo, desde o liberalismo neoclássico até o anarcocapitalismo e no parágrafo subsequente afirma que reduzi todo o libertarianismo às proposições rothbardianas, embora ele mesmo não tenha percebido que, se eu fosse exemplificar todas as subvertentes e variantes do pensamento libertário, o próprio artigo se tornaria algo maçante e menos dinâmico, perdendo o foco do propósito principal. Por esse motivo resolvi explicar o libertarianismo sob as variantes mais comuns de se encontrarem no Brasil e com mais adeptos. Logo em seguida, o Filipe Celeti fala:

Leia também:  Não há Estado de Direito em Terra Brasilis

“O problema do fusionismo é que, na fusão, uma parte sai prejudicada. Funciona como na fusão entre duas grandes empresas. Algumas fusões podem ser benéficas para ambos (sempre o são para os donos e diretores que escolheram voluntariamente se unir, realizando uma troca econômica), outras fusões podem não ser benéficas. Na mudança de gestão, muita coisa é reorganizada e muitas pessoas trocam suas funções e perdem seus empregos. O que esta analogia tem a ver com o fusionismo? Ora, no fusionismo os conservadores mantêm todo o seu arcabouço teórico e seus pressupostos filosóficos. O libertário que participar desta fusão terá de abandonar a defesa total da liberdade para que possa apenas defender a liberdade econômica (vou ignorar aqui as diferentes ideias de liberdade econômica presentes do libertarianismo, pois para muitos autores liberdade econômica não é capitalismo). Os libertários possuem convicções morais pessoais como pró-escolha, pró-vida ou eviccionismo, o que os libertários advogam é a não intromissão das convicções morais pessoais nos determinantes político-legais. Tornar-se um fusionista é ter de abandonar tal posição de não-intromissão, visto que a régua torna-se o conservadorismo.”

O libertário que participa de uma fusão com um conservador não vai revogar e se abster de sua defesa ideológica do que seria um mundo ideal, não precisa abandonar sua projeção futura do mundo dos unicórnios. O Fusionismo surgiu com o Frank Meyer como uma solução cabal e pragmática para a expansão de ideologias totalitárias que pregam o crescimento do estado planejador e destruidor das relações humanas mais básicas dentro do mercado e da vida pessoal. O libertário que se unir ao conservador em uma frente oposicionista evitará o inimigo em comum que está dominando a máquina do estado, presente na alta cúpula burocrática e nas grandes corporações que exercem domínio majoritário em virtude da regulação por parte do estado, incluindo toda a sua influência cultural e de engenharia social exercida em todos os setores culturais e midiáticos. O termo político visava a fusão política e filosófica do conservadorismo social com o libertarianismo de direita, ou right-libertarianism, nos EUA.

Fica explícito na mentalidade de muitos libertários a infantilidade de uma criança, como se quisesse evitar amizade com o coleguinha pelo motivo dele não gostar do biscoito de morango. Eis o problema que ratifiquei no meu artigo passado a respeito do perigo de se analisar e tomar decisões políticas baseadas em princípios abstratos inquestionáveis, sem antes analisar o contexto presente e a realidade concreta. O que temos de concreto no contexto sul-americano seria uma dominação da esquerda na maioria dos estados nacionais e dentro de cada país, a sua devida predominância na mídia e nos meios de propagação cultural e educacional. Tendo em vista que o Foro de SP funciona como uma Internacional Socialista moderna nos países da América Latina visando a consolidação do socialismo bolivariano no Brasil, não podemos nos afundar em caprichos ideológicos e sectarismos, enquanto que o inimigo em comum já está cada vez mais se solidificando em todos os aparatos de dominância dentro da sociedade.

Uma postura pragmática que podemos ver no Brasil seria a criação do Partido NOVO, onde muitos libertários e conservadores estão juntos e presentes em apoio para a criação do mesmo, como uma ferramenta realista e prática de tentar evitar que os socialistas causem mais estrago ainda na sociedade e poder, quem sabe, estabelecer mudanças significativas que são pontos em comum entre libertários e conservadores como: corte de gastos, uma mudança na política fiscal e monetária, uma diminuição gradual dos impostos, o corte do protecionismo, a desburocratização do estado, o aumento da facilidade de empreender, revogação de projetos arbitrários como o Marco Civil Regulatório da internet e muitos outros. Fica óbvio que se analisando a realidade concreta, o sonho libertário está completamente distante, e o dogmatismo pode acabar favorecendo para que de fato, o ideal libertário jamais aconteça.

É como o próprio Rothbard exemplificou em seu artigo:

“Embora haja algumas divergências pontuais, libertários e conservadores possuem, em termos gerais, o mesmo objetivo: reduzir o tamanho do estado e sua interferência na economia e na sociedade.  Conservadores e libertários moderados defendem um governo estritamente limitado à defesa dos direitos de propriedade.  Libertários mais radicais querem ir além e abolir todo o governo.

Leia também:  Se você quer passar o seu tempo entretendo-se com fantasias, leia Marx

Caso houvesse uma coalizão entre libertários e conservadores, haveria inevitáveis diferenças de opinião em relação aos meios e aos fins.  No entanto, todas estas diferenças podem ser reduzidas à seguinte questão: quanto do governo atual você estaria disposto a abolir?  Até que ponto você reverteria e encolheria o governo?”

A tática dos novos revolucionários não nos dá o capricho e a possibilidade de cada um, tanto conservadores quanto libertários, calmamente irem conquistando seu público de maneira separada. Após a era da social-democracia ter dominado quase todo o mundo, o socialismo completo se tornou apenas uma questão de tempo, como tal diferença já foi apontada pela própria Ayn Rand. Hayek nos alertou incansavelmente a respeito do perigo de uma cultura que coaduna com políticas de dirigismo social e econômico e defensores de tais medidas aplicando-as no poder.

No contexto do Brasil, a tática de dominação completa se inseriu há 50 anos através dos setores de influência da mentalidade do brasileiro. A infiltração se deu pelos setores da mídia e da educação. Quando se estabelece uma hegemonia acadêmica e midiática, você dispõe em suas mãos todas as ferramentas necessárias para moldar o pensamento da sociedade, e não foi a toa que o pensamento do brasileiro foi moldado para defender o estatismo, o paternalismo e a repudiar incansavelmente o capitalismo. Após a introdução nos meios culturais, se inserir dentro do estado e da política se torna um trabalho extremamente fácil, o que acabou acontecendo. Após a introdução e o aparelhamento completo do estado, junto com a união de grandes corporações que odeiam a concorrência, com aliados em todos os cargos políticos cruciais, a esquerda conseguiu quase que por completo consolidar sua agenda totalitária. Basta olharmos para a Venezuela, que pode ser tida como um reflexo, uma projeção futura do que será o Brasil em alguns anos, caso conservadores e libertários não se unam contra tal inimigo em comum e discutindo pontos em comum para aplicação prática no nosso contexto atual.

Logo em seguida o Filipe Celeti erra feio ao pressupor que a defesa dos conservadores nas questões sociais e de liberdade individuais se limitam somente à premissas em defesa de moralidades. Um conservador não é contra o aborto pelo motivo de o achar “feio e irresponsável”, mas sim pelo motivo de ser um assassinato de fato e uma violação ao direito natural à vida, liberdade e propriedade, não sendo essa defesa da vida um monopólio dos conservadores, mas sendo também uma defesa presente entre os libertários, como o Ron Paul. O conservadorismo e libertarianismo não são ideias completamente antagônicas e hostis entre si, como mesmo explica o Hoppe:

“Na verdade, esse ponto de vista está completamente errado. A relação entre o libertarianismo e o conservadorismo é uma relação de compatibilidade praxeológica, de complementaridade sociológica e de reforço recíproco.

Para explicar isso, deixem-me enfatizar, em primeiro lugar, que a maioria — mas não a totalidade — dos principais pensadores libertários, como uma questão de dado empírico, era formada por conservadores sociais e culturais: por defensores dos costumes e da moralidade burgueses tradicionais.

Mais notadamente, Murray Rothbard — o pensador libertário mais importante e mais influente — era um assumido conservador cultural. Também o era o professor mais importante de Rothbard, Ludwig von Mises. (Ayn Rand, uma outra grande influência sobre o libertarianismo contemporâneo, é um caso diferente, é claro.) [ii] ”

Obviamente que não precisarei mais explicar o que se trata o conservadorismo e o motivo que o leva a se posicionar antagonicamente ao que vai contra a uma ordem moral permanente e duradoura. O conservador se posiciona contra a legalização das drogas por diversos motivos. Enquanto que o conservador analisa a realidade concreta e tenta se antecipar das possíveis consequências desastrosas, o utopista quer seu ideal à todo custo, justificando todos os meios possíveis para atingir seus ideais abstratos. Se torna óbvio que muitos libertários defendem a legalização das drogas, embora almejem a liberação das mesmas. Mas se torna a favor da legalização seria um tiro no próprio pé dos libertários, uma vez que isso culminaria em regulações, taxações e um crescimento inevitável do próprio estado, assim como também um aumento dos impostos e do enriquecimento do mesmo, criando monopólios e cartéis institucionalizados pelo estado e grandes indústrias que visam monopolizar o mercado das drogas. Obviamente, o libertário aceita a legalização pois ele se apoia no ideal da liberdade, desde que tal medida, mesmo que por consequência, seja um tiro no pé dele mesmo, ele se regozija ao ver uma liberdade de ação ser praticada, satisfazendo seu desejo utopista.

Leia também:  Patrícios judeus esquerdistas: onde está o poder da razão?

Eis que o Hoppe, novamente e no mesmo artigo, explica perfeitamente do que se trata o conservadorismo:

“O termo “conservador”, portanto, deve possuir uma acepção diferente. O único significado que ele pode ter é este: “conservador” se refere a alguém que acredita na existência de uma ordem natural, de um estado de coisas natural, que corresponde à natureza das coisas; que se harmoniza com a natureza e o homem.

Essa ordem natural, é claro, pode ser perturbada por acidentes e anomalias: terremotos e furacões; doenças e pragas; pelo surgimento de desajustados e idiotas; e por guerras, conquistas e tiranias. Mas não é difícil distinguir o normal do anormal (anomalias); o essencial do acidental.

Um pouco de abstração dissipa todas as confusões e permite que quase todos “vejam” o que é e o que não é natural, o que se encontra e não se encontra de acordo com a natureza das coisas. Além disso, o natural é, ao mesmo tempo, o estado de coisas mais duradouro. A ordem natural das coisas é antiga e sempre a mesma (apenas anomalias e acidentes sofrem mudanças); portanto, ela pode ser reconhecida por nós em todos os lugares e em todos os tempos.

“Conservador” refere-se a alguém que sabe distinguir aquilo que é antigo e natural daquilo que representam anomalias e acidentes circunstanciais.  Conservador é alguém que defende, apóia e ajuda a preservar o tradicional e o natural contra aquilo que é temporário e o anômalo.”

Fica completamente clara a necessidade de um conservadorismo social presente até mesmo numa sociedade libertária, para o próprio funcionamento do mercado. O mercado somos nós, indivíduos em cooperação mútua e trocas voluntárias. Somos agentes econômicos, políticos, éticos e morais. E antes de agirmos com o propósito de atingir nossas escalas de valores, nós possuímos o senso de causalidade e analisamos a realidade concreta através da nossa consciência. O que estrutura nossa consciência, como nossa ética e nossos valores morais é crucial para comprometer e implicar as nossas ações na realidade material. É por esse motivo que a esquerda visa solapar os valores ocidentais e judaico-cristãos, pois são consideradas como aspectos burgueses e sustentadores de uma economia de mercado, do próprio capitalismo. Destruindo-se a moral de uma sociedade, é meio caminho andado para a dominação completa da mesma, e no Brasil a esquerda veio atacando com sucesso pelos dois caminhos. Os valores de uma sociedade são necessários não só para a manutenção e a coesão da mesma, como também para que haja uma escala de produtividade e acúmulo de capital deliberado, gerando a riqueza e aumento deliberado da qualidade de vida de todos os indivíduos. É óbvio que uma sociedade detentora de uma imoralidade e de comportamentos antinaturais e anômalos gerará no fracasso e na deterioração completa da mesma, assim como também a baixa produtividade. Você pode aplicar um estado mínimo com uma carga tributária ínfima, se essa sociedade for regida por valores culturais que comprometem o exercício da produtividade, ela não se enriquecerá. O livre-mercado per se somente e unicamente não funciona sem que haja uma série de valores morais e éticos sólidos na população para que a prosperidade vigore.

Independentemente das divergências claras entre libertários e conservadores, minha proposta não é abandonar os debates e discussões filosóficas ou políticas, mas sim uma união realista, prática, para estabelecer as mudanças que precisamos, por mais que sejam ínfimas e ou retardar ou impedir a consolidação do socialismo, do dirigismo econômico, da centralização e do planejamento estatal no Brasil. Não vivemos em um ambiente democrático saudável, onde o próprio processo funciona perfeitamente e onde possuímos uma possibilidade simples de praticar as mudanças, mas tudo está contra nós e a favor dos estatistas. Agradeço a réplica do Filipe Celeti e quero dizê-lo que ainda estou esperando a aula que ele prometeu no título do seu artigo.

*Estudante de Filosofia e Economia

Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Instituto Liberal

Instituto Liberal

O Instituto Liberal é uma instituição sem fins lucrativos voltada para a pesquisa, produção e divulgação de idéias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal.

Um comentário em “Uma tréplica ao Filipe Celeti – Defendendo o Fusionismo

  • Avatar
    13/07/2014 em 11:54 am
    Permalink

    “confusão mental”, “erro”, “péssima interpretação de texto” e outros blá, blá, blás. Tenho uma pena quando réplicas se limitam a ficar nestes termos. Se a primeira lição não funcionou, espero que a segunda aula funcione.

Fechado para comentários.