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Uma questão de “interpretação”

Vamos falar sobre “interpretação”.

O ministro Pazuello disse em coletiva, dirigindo-se aos próprios repórteres presentes, que eles, os jornalistas, não podem “interpretar” os fatos, mas apenas noticiá-los. Isso porque ele e o “povo brasileiro”, em suas próprias palavras, não deram aos jornalistas “delegação” para “interpretar”. O digníssimo ministro que nos quer dizer quem pode ou não interpretar um texto e o que é ou não interpretação deve saber que quem diz ao jornalista se e quando ele pode ou não fazê-lo não é “o povo” e sim a empresa jornalística privada para a qual ele trabalha (deixando de lado o fato de que o Jornalismo em si já é, para muitos teóricos da área, uma interpretação, mas isso é outra discussão). O problema é que, para quem não está fazendo o dever de casa, o fato inconveniente já é, por si só, uma interpretação indevida.

Por outro lado, diante de um texto de Ruy Castro clamando pelo suicídio de Trump e Bolsonaro, há quem nos peça, ao contrário, para “interpretar” – porque, obviamente, o escritor não quis dizer o que tão explicitamente disse. Estamos lendo tudo errado. O jornal Folha de S. Paulo não é o Twitter, mas, que eu saiba, se não tem seus “regulamentos” para o usuário, tem seu próprio código de ética – mais um daqueles documentos que parecem existir apenas para constar e que ninguém realmente lê, mas que servem para pinçar trechos como justificativa quando se quer tomar alguma atitude de circunstância, quando for conveniente. O jornal não tem a menor legitimidade para se declarar adversário do extremismo e da incitação ao ódio e à violência abrigando artigos como o do sr. Ruy Castro em suas páginas.

Espero ter sido bem objetivo, mas sintam-se livres para “interpretar” esses comentários como quiserem.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.