Um novo Egito?

Port Said, catedral francesa

LIGIA FILGUEIRAS* O Egito que conheci, em 1966, era um país pobre com reminiscências de um passado de glória, não só do tempo dos faraós, mas de recente colonização europeia. Muitos prédios, nomes de lugares, hábitos de pessoas lembravam um tempo de uma civilidade ocidental de finais do século XIX, início do século XX. Cairo […]

LIGIA FILGUEIRAS*

Port Said, catedral francesaO Egito que conheci, em 1966, era um país pobre com reminiscências de um passado de glória, não só do tempo dos faraós, mas de recente colonização europeia. Muitos prédios, nomes de lugares, hábitos de pessoas lembravam um tempo de uma civilidade ocidental de finais do século XIX, início do século XX. Cairo e Port Said eram as melhores representações desse passado.

Mas a colonização chegara ao fim com um novo líder que tomara o poder depois de derrubar seu antecessor, o rei Farouk, a quem servira. Gamal Abdel Nasser. Em seu discurso, o Egito passaria a ser uma nação forte e catalisadora de energia para as demais nações árabes, visando o pan-arabismo. Claro, sendo o próprio Egito o centro desse movimento. Era a época da RAU – República Árabe Unida. Fato é que os árabes não eram unidos e assim Nasser percebia.

Socialista ou nacionalista? Nasser aproximou-se da então URSS depois que, tendo tentado, sem sucesso, obter ajuda financeira dos EUA para a construção da nova represa de Assuã, buscou e conseguiu o apoio dos russos. Os EUA já haviam investido um colosso de capital na transferência dos gigantescos monumentos históricos de Abu Simbel – cuja localidade seria submersa pela represa – para maior altitude 200 metros adiante.

A parceria com a URSS rendeu frutos de curto prazo para o regime de Nasser, ao mesmo tempo em que impregnou a política do país do mesmo antiamericanismo, antiempreendedorismo e forte intervencionismo estatal por que primavam os países socialistas. Estrangeiros residentes, que poderiam oxigenar o ar das ideias com liberdade, foram aos poucos deixando o país. Os centros turísticos continuaram a atraí-los, mas só como visitantes.

O socialismo “brando” era mesclado com o islamismo de um povo simples e pobre.

Antes de Nasser, o Egito havia conhecido uma era mais liberal. Após Nasser, depois da humilhação da Guerra dos Seis Dias, o país foi sendo conduzido a uma reaproximação com os EUA e com o Ocidente. Passou a ter um papel mediador nas conversações com Israel vis-à- vis a questão palestina, a Cisjordânia, o Líbano.

Presidentes americanos procuraram reforçar o apoio do Egito, especialmente Jimmy Carter quando dos Acordos de Camp David. A apresentadora de televisão Barbara Walters, da ABCNews, chegou a entrevistar o presidente egípcio Anwar El Sadat, na ocasião. Sadat, que sucedeu a Nasser, ajudou–o a depor o Rei Farouk e foi assessor do presidente. À frente do governo, no entanto, afastou-se do nasserismo, readotou o pluripartidarismo abolido por Nasser e abriu as portas do país ao investimento estrangeiro.

Hosni Mubarak tomou carona nesse processo, consolidando a aproximação com os outros países árabes. Esfriou as relações com Israel, mais adiante, na invasão do Líbano pelo exército israelense. Na Guerra do Golfo, ficou ao lado dos EUA. Recentemente, retomou a aproximação com Israel, mesmo contra os interesses dos povos árabes envolvidos em conflito com esse país. A nova geração egípcia queria progresso, não guerra; nasseristas e esquerdistas aborreceram-se com o rumo político do país; os radicais do Islã arrumaram argumentos para a derrubada do regime.

A geração da internet olha ao redor e reconhece fazer parte de um povo ainda submisso, detentor de uma relíquia histórica inigualável. Esta geração quer emprego e usufruir do conforto ocidental que passou a conhecer na troca de ideias com o exterior; mas o país, economicamente debilitado, deixou de ser a terra das possibilidades que experimentou por pouco tempo. O governo Mubarak teve 30 anos de chance para criar oportunidades. Perdeu a chance da História e agora vai perder o trono.

Mas para quem? Qual dos grupos reúne as melhores condições para pacificar a população em torno de uma meta, de um ideal? Os jovens que impulsionaram a revolução com a ajuda da TI? Os nasseristas? A Irmandade Muçulmana?

Parece pedir muito, mas não consigo ver progresso numa sociedade que não seja aberta, livre dos radicalismos, fiel à pluralidade, à democracia e, acima de tudo, defensora dos direitos individuais, do Estado de direito, da economia de mercado. Os twitteiros do Egito talvez nem desconfiem que por trás da mágica da internet repousa uma sociedade fundada em princípios.

*JORNALISTA

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal e Instituto Liberal no Patreon!
  • Antonio Roberto Batista

    Lígia,
    Gostei muito do seu artigo. De fato seria preciso que essa gente conseguisse correlacionar as benesses que desejam com a raiz criadora, que é uma sociedade aberta e os seus valores.
    Pena que o próprio Ocidente tenha, hoje, gente tão incapaz à testa dos governos, como esse aprendiz de feiticeiro americano e sua maga patalógika.

    • Batista,

      grata pelos cumprimentos.
      Na verdade, o receio é que o Egito piore caindo nas mãos de extremistas religiosos e essa juventude entusiasmada venha a se frustrar. Você tem toda razão: o Ocidente também não tem dado sua contribuição, especialmente os EUA que, afinal, são o exemplo que os liberais do mundo todo querem seguir.
      Abs, Ligia