Um filhote de jacaré com cobra d’água

MARIO GUERREIRO *

Série Colaboradores

No dia 9/2/2011, Lula voltou a Brasília pela primeira vez depois que 11 caminhões carregados de coisas – inclusive um deles devidamente climatizado para transportar vinhos – levaram sua mudança para São Bernardo do Campo (SP). Chegou com uma mala na mão, saiu só não levando a rampa do Palácio. Mas era a comemoração dos 31 anos do PT e ele seria novamente indicado como Presidente de Honra de seu partido.

O Apedeuta estava no Senegal (África Ocidental) onde tinha participado do Fórum Social Mundial, para o qual deu as mais irrelevantes contribuições, só para não fugir à regra. Em seu apoteótico retorno a Brasília, vinha sequioso de aplausos da patuléia e não esperava encontrar abacaxis para ter que descascar.

Mas, alguns dias antes, a antiga companheira Estella do Var-Palmares, perdão: a atual Dilma Rousseff, tinha travado uma árdua e penosa queda de braço com os pelegos dos sindicatos por causa do valor do salário mínimo.

Como se sabe, Dilma tinha fixado em R$ 545,00 esse valor – um pouquinho menos do que os R$ 600,00 prometidos pelo “generoso” José Serra em sua campanha – mas os pelegos, só para mostrar serviço aos seus pelegados, queriam mais e sempre mais como uma insaciável Messalina dos Trópicos. Não obstante, Dilma não era Jango que, enquanto Ministro do Trabalho, simplesmente dobrou o valor do mínimo, sem dar a menor importância às péssimas conseqüências dessa bravata populista.

Como era muito difícil para Lula assumir uma posição de neutralidade nessa queda de braço, tinha que apostar na vitória de um ou de outro lado, colocando-se a favor da Mãe do Piri-Pac ou de seus antigos pelegos. E assim foi gerado mais um dos intermináveis dilemas de Lula, popularmente conhecidos pela expressão “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

De um lado, como não ficar do lado da companheira – sua favorita, na falta de Zé Dirceu vai tu mesmo – para a qual tinha feito entusiasmadíssima campanha política, até mesmo desrespeitando as normas do direito eleitoral e tendo que pagar umas seis multas. Ah!, Estas eram na realidade umas merrequinhas, mas seus laços de lealdade política para com a companheira não podiam ser bruscamente rompidos.

De outro lado, o próprio Lula, que em seus tempos de líder sindical no ABC, subia em cima de caixotes e esbravejava contra o baixo valor do salário mínimo – que não passava de um “salário de fome” dado pela ditadura – não podia se esquecer de seus tempos de torneiro mecânico e abandonar seus antigos companheiros de lutas, a menos que quisesse ouvir de um operário a infamante exclamação: “O companheiro Lula se aburguesou!”

Que fazer? Que fazer? Nem mesmo Lênin saberia dizer. Lula se sentiu exatamente como no velório do Brizola no Rio: Ir ou não ir, eis a questão! Se não fosse, diriam que teria sido uma falta de solidariedade para com um antigo aliado e companheiro de lutas. Se fosse, correria o sério risco de ser esculachado pela patota da Brizolândia. Decidiu ir e recebeu uma chuva de vaias dos fanáticos brizolistas emitindo aos berros: “Fora! Fora Lula traidor!”

Luíza Erundina (PT), a ex-prefeita de São Paulo, também se viu diante de uma verdadeira sinuca de bico: mal tinha sido eleita e estourou uma greve dos rodoviários. Que fazer? Que fazer? Nem mesmo Lênin saberia dizer. Se atendia às absurdas reivindicações de uma categoria profissional que, como outras tantas categorias do proletariado, havia despejado seus votos nela – não sem contar com um “retorno de capital político”, é claro – ou se assumia que, enquanto Prefeita, embora não fosse perfeita, devia zelar pelas finanças públicas da cidade de São Paulo.

O fato é que esses três casos são inequívocos sinais de duas coisas visceralmente incompatíveis: uma coisa é ser líder sindical cuja função precípua consiste em fazer reivindicações para determinada categoria profissional, outra, e notadamente distinta, é ser chefe do Poder Executivo cuja função precípua consiste em procurar atender aos interesses de uma cidade, de um estado da Federação ou da própria Federação.

E assim como num jogo de pingue-pongue, o mesmo indivíduo não pode se situar dos dois lados da mesa, jogando a favor e contra ele mesmo – coisa que nem o Flash conseguiria – numa negociação entre essas duas partes, o mesmo indivíduo não pode assumir dois papéis representando os incompatíveis interesses de uma parte e de outra.

Contudo, os terríveis dilemas de Lula e de Erundina não seriam tão terríveis assim se não tivesse sido gerado no Brasil, e somente no Brasil, uma espécie de filhote de jacaré com cobra d’água: o PT-CUT, o único partido-sindicato do mundo, experimentando as inevitáveis consequências conflituosas dessa ilegítima conjunção carnal.

No entanto, ilegítimo ou não, o referido conúbio sofreu um sério atrito conjugal, não que Dilma apoiada por Lula tivessem feito algo errado – até mesmo beócios têm ao menos um lampejo de lucidez na vida – a quantia de R$ 545, 00 era o máximo que o governo poderia dar sem causar transtornos para as finanças públicas.

Depois da gastança de Lula e diante da crise mundial, o Poder Executivo tinha que fazer uma contenção de despesas, para que não fosse atormentado por uma disparada inflacionária. Dilma não só não cedeu às pressões dos sindicatos, como também propôs um corte no orçamento de R$ 80.000.000.000, 00. Não podemos dizer que ela estava errada, só porque a detestamos.

Embora a relação de Dilma com Lula sempre tenha sido cordial e harmoniosa e embora a relação de Lula com o PT-CUT também tenha sido da mesma natureza, não podemos dizer o mesmo da relação deste com Dilma, principalmente com a entrada de um terceiro no poder: o PMDB de Michel Temer, o partido que sempre acendeu uma vela para Deus e outra para o Diabo, um partido que não tem ideologia, a não ser que queiramos chamar assim a do deputado Justo Veríssimo, o único que jamais mentiu na vida, enfeixada pelos lemas: “Eu quero é me arrumar!”; “Eu quero mais que o povo se exploda”.

Mas parece que se enganaram aqueles que pensavam que a candidata de Lula não passava de uma marionete cujos fios eram movidos pelo pupeteiro Lula e cuja finalidade era só a de esquentar a cadeira deste mesmo até 2014, data de seu provável retorno triunfal ao “Puder”, apesar de Lula negar de pés juntos que deseje voltar. M’engana qu’eu gosto!

Contrariando isso, Dilma já deu alguns sinais de que goza de independência e tem idéias próprias, sejam elas boas ou más. Não renomeou o trapalhão Celso Amorim para Ministro das Relações Exteriores, mas sim Antonio Patriota, ao que tudo indica um diplomata bem preparado para essa patriótica função. Além disso, ela já fez críticas a Cuba dos irmãos Castro e não mostrou interesse em manter o namorico com Ahmadinejad, uma das grandes paixões de Lula, juntamente com Chávez, Evo Morales, Cesare Battisti et caterva.

Apesar de seus inevitáveis atritos com as cinco ou seis facções do PT-CUT e com o PMDB de Temer, Dilma já deu esses e outros sinais de que o dilmismo não é meramente outro nome para o lulismo. Contudo, são apenas indícios que tanto podem ser reforçados como suplantados por medidas posteriores.

Tudo que podemos dizer é o que disse Mirna, aquela secretária americana da OTABOL de Frederico Lobato na novela Passione, antes de ser empurrada no fosso do elevador: “So far so good” (Até agora tudo bem).

 

* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.

 

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