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Um alerta para todos nós

vargasllosaQuem são os responsáveis pelos regimes totalitários e pelas ditaduras? A resposta é simples: todos nós! Quantas pessoas se preocupam com os acontecimentos políticos? Quantas pessoas se dispõe escrever o que pensam? Quantos se propõe passar adiante o que apreenderam? Quantos têm a coragem de enfrentar tudo o que pode destruir as liberdades individuais?

Em abril do corrente, Mario Vargas Llosa (foto), Nobel de literatura de 2010, esteve na Venezuela. Em Caracas, participou de um evento promovido por um “think tank” liberal e manifestou apoio aos estudantes, além de ter realizado duras críticas ao Presidente Maduro.

Para quem não sabe, recentemente Vargas Llosa tornou-se membro da Mont Pelerin Society (“MPS”), uma organização idealizada por F. A. Hayek, logo após a Segunda Guerra Mundial, tendo por objetivo discutir o Estado e o papel do Liberalismo Clássico. Entre seus membros, estiveram os saudosos Milton Friedman, Karl Popper, George Stigler, Ludwig von Misses, Ronald Coase, Gary Becker, dentre outros tantos.

Como liberal e membro da MPS, foi extremamente importante e oportuna a sua visita à Venezuela. Mais relevante ainda foi um texto publicado no Jornal El País, no qual o grande escritor descreve a situação do país e a luta dos estudantes venezuelanos. Em certo trecho, no entanto, ele faz um alerta importante para todos nós:

“Aqueles que chegaram à deprimente conclusão de que a política é uma atividade imunda, de medíocres e ladrões, e que é preciso, portanto, dar-lhe as costas, venham à Venezuela, onde ouvindo estes jovens, falando e aprendendo com eles, comprovarão que a ação política pode ser também nobre e altruísta, uma maneira de enfrentar a barbárie e derrotá-la, de trabalhar pela paz, convivência, justiça e liberdade, sem dar tiros nem detonar bombas, com razões e palavras, como fazem os filósofos e os poetas – criando a cada dia gestos, espetáculos, ideias, como fazem os artistas, que comovam e eduquem os outros e os embarquem num empreendimento libertário. Centenas de milhares, milhões de jovens venezuelanos estão dando nestes dias à América Latina e ao mundo inteiro um exemplo de que ninguém deve renunciar à esperança, de que um país, não importa quão profundo seja o abismo no qual a demagogia e a ideologia o precipitaram, sempre pode sair dessa armadilha e redimir-se.”

As palavras são duras. Mas, acho que estamos precisando lê-las, e, se possível, ouvi-las a plenos pulmões. À medida que desprezamos a ação política, defendendo uma pureza qualquer de comportamento, estamos deixando o terreno livre para ditadores e totalitaristas. É tudo o que eles querem.

Quando vejo comparações simplistas entre os partidos políticos, colocando todos no mesmo saco, observo uma falta de pragmatismo político psicótica. Quando escuto pessoas inteligentes dizendo que anularão seu voto, que não se importam com planos de governo, que ainda acreditam em salvadores da pátria. Enfim, quando percebo que as pessoas tem verdadeiro asco da palavra “política”, começo a acreditar, realmente, que os totalitaristas já venceram. Todavia, não perco a esperança.

Como vivo lutando contra esse comportamento ascético, perfumado, intelectualoide e artificial; clamo que todos leiam o texto quente, humano e vívido de Mario Vargas Llosa. Talvez, ao perceber a realidade da Venezuela e a luta dos estudantes, tenhamos a coragem de fazer algo. Nem que o nosso agir se limite a sair da alienação política e votar. O que está em jogo é a liberdade de todos nós. Prestemos, portanto, uma atenção especial ao alerta. Aliás, vale lembrar as palavras de Edmund Burke: “para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”.

Leonardo Correa

Leonardo Correa

Advogado e LLM pela University of Pennsylvania, articulista no Instituto Liberal.