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Todo mundo é “isentão” em alguma coisa

O filósofo Roger Scruton, já de saudosa memória, dizia que todas as pessoas são conservadoras em relação a alguma coisa e, portanto, o conservadorismo tem certo apelo universal. Parafraseando Scruton, pontuaria que todo mundo é “isentão” em alguma coisa, sobretudo considerando o sentido problematicamente elástico que o termo adquiriu nos últimos tempos.

Acostumei-me a enxergar a palavra “isentão” como sinônimo pejorativo da esquerda caviar, da beautiful people, daqueles hipócritas que se jactam de dizer que esquerda e direita são tribos selvagens e que estão acima do bem e do mal, daqueles que enxergam qualquer sombra de virilidade no combate político como monstruosidade primitiva, daqueles que defendem todo tipo de bobagem cara à pauta da esquerda fingindo que não estão comprometidos com lado algum. Era assim, exclusivamente, que essa expressão pejorativa era “carinhosamente” empregada até pouco tempo atrás, quando esse tipo de petulância ideológica travestida de “tecnocratismo” anti-ideológico era o único alvo.

Infelizmente, diante dos humores exacerbados e das tensões próprias da política, o tiroteio irracional por vezes alastra a confusão e as disputas produzem injustiças. Pessoas que simplesmente tecem ou teceram críticas ao governo federal ou pessoas que simplesmente adotaram uma postura diferente do que pregam certos estereótipos estúpidos quanto ao que seria um liberal, conservador ou “direitista” passaram a ser rotuladas de “isentonas” tão-somente por isso.

É contra pena de morte? Isentão. Acha que Bolsonaro falou besteira? Isentão. Não gosta de tortura de animais? Isentão, todo mundo sabe que somos carnívoros e reaça que é reaça gosta de ver animal gritando. Acha (como Scruton, aliás) que é preciso sim ter algum cuidado com o meio ambiente? Isentão. Por aí vai.

Urge colocar um pouco de sensatez em tal balbúrdia, ainda que sem a pretensão de pôr completo fim à contenda. Uma forma de fazer isso é atestar que todo mundo – pelo menos aqueles que têm mais de dois neurônios – acaba sendo, se formos tão generalistas assim, “isentão” em algum tópico ou departamento, quer por ignorância a respeito do assunto (e, nesse caso, há sabedoria em lavar as mãos), quer porque realmente os extremos que polarizam o problema em exame estão igualmente errados ou não apetecem à sua honesta e digna opinião particular – o que é perfeitamente possível e não significa que a pessoa seja, francamente, comunista. Isso se aplica a figuras absolutamente insuspeitas de covardia e submissão à extrema esquerda. Farei uso de dois exemplos impactantes.

O primeiro, o exemplo de Carlos Lacerda. O maior líder anticomunista da história republicana do país é, para toda a extrema esquerda e mesmo para os verdadeiros “isentões” dos dias atuais, no sentido útil, original e pernicioso da palavra – aqueles que cabem na descrição que apresentei inicialmente -, uma referência péssima, uma aberração moral, um pesadelo reacionário e destrutivo. Por outro lado, para aqueles tiozões saudosistas da ditadura militar, amantes do regime redentor e milagroso dos generais que mantiveram o imaculado Brasil livre do comunismo por 21 anos enquanto cassavam Lacerda, destruíam a direita civil e abriam as portas para a hegemonia social democrata e esquerdista na Nova República, ele foi um traidor insubmisso que resolveu se revoltar contra os magníficos Atos Institucionais e mereceu ser cassado pelo belo e moral AI-5. Tudo, claro, por ser um “liberal isentão”.

Estava Carlos Lacerda errado? Será possível dizer que logo ele, o grande inimigo de Vargas, o editorialista polêmico e passional, era um “isentão”? Apenas porque, entre dois inimigos extremos, julgou que não cabia escolha naquela circunstância, por estarem ambos errados?

Outro exemplo é o do grande campeão do liberalismo austríaco, aquele que polarizou com Keynes o grande debate econômico global no século XX, o Prêmio Nobel, Friedrich Hayek. Alguém diria que o autor do best seller O Caminho da Servidão, que desafiou a ortodoxia keynesiana e intervencionista e converteu muitos nomes ao liberalismo – a exemplo de Donald Stewart Jr., fundador do Instituto Liberal -, foi um “isentão”?

Vejamos: para o social liberal José Guilherme Merquior, conforme registra em artigo publicado em sua coletânea recentemente relançada O Argumento Liberal, Hayek representava uma “estatofobia (…) à direita”, simbolizando um liberalismo que enfoca a liberdade econômica (liberismo) e, no caso brasileiro, ignora que temos uma “tremenda carência de serviços sociais básicos, como educação e saúde, de implementação inconcebível sem a presença do Estado”. Para Merquior, Hayek era um liberal mais reacionário, que tem seu lugar na história do liberalismo reconhecido – e esse é o maior mérito de Merquior, sua tarefa brilhante de historiógrafo das escolas e tendências liberais existentes, mesmo daquelas de que discordava -, mas estava levando o liberalismo para um retrocesso.

Pois bem; as acusações que Merquior faz a Hayek e ao “neoliberalismo” são justamente o oposto das que o pensador austríaco recebe de muitos libertários e anarcocapitalistas. A suposta despreocupação de Hayek com uma concessão mínima de serviços essenciais pelo Estado não se coaduna com a verdade. Ele deixou registrado exatamente seu apoio a que o Estado se esforçasse por garantir um mínimo a pessoas muito vulneráveis em circunstâncias emergenciais. Libertários e anarcocapitalistas consideram Hayek quase um socialista, um social democrata, pelas concessões que ainda faz ao escopo de atividades que poderiam pragmaticamente caber à esfera estatal.

Justo? Para mim, nem social democrata, nem reacionário estatofóbico. Essas críticas não fazem jus à grandeza de Hayek. Estaria ele errado e deveria optar por agradar a um dos dois lados que o atacam e atacavam? É outra discussão; mas, o que quer que se pense a respeito, dizer que ele era um “isentão” é muita infantilidade.

Portanto, ser um “isentão” no sentido inaugural da palavra, um autêntico covarde arrogante, é uma gigantesca tolice. Porém, reduzir absolutamente todas as discussões a um binarismo simplista e estereotipado não é uma atitude nem um pouco madura.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.