Sobre o neoconservadorismo

JOÃO LUIZ MAUAD *

Em meu último comentário, falei daquele que talvez seja o mais relevante princípio liberal: o individualismo – conceito político e moral que exprime a soberania do indivíduo sobre qualquer coletivo, seja ele uma classe, uma raça, uma nação, um estado.  Nossos opositores coletivistas são/foram muitos: nazismo, comunismo, fascismo, anarquismo e, mais recentemente, o neoconservadorismo são apenas alguns exemplos.   É sobre esse último, ainda desconhecido da maioria, que pretendo falar hoje.  Para tanto, pedirei a valorosa ajuda de C. Bradley Thompson, autor do livro “Neoconservatism – An Obituary for na Idea” e do ensaio “Neoconservatism Unmasked”, do qual este comentário é uma síntese:

Para os neoconservadores, o Ocidente está em declínio, tanto intelectual quanto moral, em razão da ascensão do que chamam de niilismo filosófico. A fonte desse niilismo moderno estaria no liberalismo iluminista, de John Locke e Thomas Jefferson, entre outros expoentes menores.

O filósofo Leo Strauss, por exemplo, é um crítico mordaz do racionalismo, do individualismo e, em alguma medida, até do capitalismo laissez-faire, os quais, segundo ele, levaram o homem para longe da realidade supranatural, trazendo-o da fé à razão, da comunidade ao indivíduo, do dever aos direitos, da ordem à liberdade, e do auto-sacrifício ao auto-interesse. O resultado é que o homem e a sociedade estão se afastando da ordem natural e da fé religiosa, necessárias à sustentação da unidade moral e política.

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A filosofia política platônica seria o antídoto necessário para os males da sociedade moderna. Essa filosofia, também conhecida como do direito natural clássico, é definida por quatro princípios básicos. Em primeiro lugar, a comunidade política (polis) é a unidade primária de valor moral, o que significa que o “bem comum” é o fim, e a “entidade” coatora é o meio utilizado para esse fim.  Em segundo lugar, uma verdadeiramente justa ordem política deve espelhar a “ordem hierárquica natural dos seres humanos”, ou seja, alguns homens são mais aptos para governar do que outros.  Terceiro, o que é naturalmente bom para a polis está sempre mudando de acordo com a necessidade e as circunstâncias, o que significa que os filósofos estadistas não devem ser engessados por normas humanas.  Finalmente, a virtude e o interesse público representam a finalidade da polis, significando que os sábios estadistas devem usar “a coerção benevolente” para tornar seus cidadãos virtuosos.

Os “neocons” tomam a “comunidade política” como a principal unidade de valor moral, social e política. Eles aceitam a premissa de Platão de que a polis é a única forma de coesão social adequada para o cumprimento do fim natural do homem (telos), que eles associam com o que chamam de “interesse público” ou “bem comum.” O conteúdo real do “interesse público” é o que os sábios e benevolentes dizem que é, e é precisamente por isso que nunca deve ser definido. A principal tarefa de um estado neoconservador é impor a unidade ideológica do “eu coletivo” em nome do sempre mutável “interesse público”.

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O maior objetivo do estadista neoconservador é, portanto, o de moldar as preferências e hábitos, de forma a cultivar virtudes e criar a “boa” sociedade, uma sociedade que é conhecida a priori pela sabedoria filosófica superior. Assim, os “neocons” defendem o uso da força do governo para fazer escolhas “boas” para os indivíduos inferiores, a fim de incentivá-los em determinadas direções, isto é, para a escolha de uma vida de virtudes e deveres. Como Strauss deixou claro em seu mais influente trabalho, “Direito Natural e História”, sábios estadistas devem aprender a usar a “restrição forçada” e a “coerção benevolente”, a fim de manter represados os desejos egoístas dos homens comuns.

Em resumo, os neoconservadores rejeitam os valores e princípios associados ao Iluminismo liberal, ou seja, a razão, o individualismo, os direitos individuais, a aquisição material, o governo limitado e a liberdade. Além disso, os “neocons” são coletivistas metafísicos.  Para eles, a ordem precede o indivíduo, a polis – e não o indivíduo – é a unidade primária de valor político e o corpo político um todo orgânico, vale dizer, promotor dos deveres da coletividade acima dos direitos individuais.  Além disso, suportam o uso do poder coercitivo do Estado para promover a ordem e a unidade, exigindo que os indivíduos se subordinem ao “interesse público” e sirvam a uma noção difusa de “grandeza nacional”. Enfim, os “neocons” são coletivistas que se opõem fortemente à visão do governo mínimo, em favor de um governo paternalista, elitista e onipotente, que deve usar o poder coercitivo do Estado para regular a vida espiritual e moral do homem.

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A exemplo dos conservadores clássicos (também chamados de paleoconservadores), quando o tema é economia, os “neocons” costumam alinhar-se com as idéias liberais.  Mas não se iludam: somos seus oponentes, tanto quanto os comunistas – na verdade, para eles, liberais e comunistas são tudo farinha do mesmo saco.  Demonstram sua aversão pelas idéias liberais com bastante clareza e contundência em suas perorações moralistas, quase sempre recheadas de um proselitismo religioso feroz.

Haveria muito mais a ser dito, especialmente acerca da história do movimento, seus principais expoentes e tendências, mas este não é o espaço apropriado.  Para quem se interessar pelo assunto, há muita coisa a aprender e a internet pode ser uma ferramenta poderosa.

* ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

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